Mangia que te fa bene

Quando o assunto é gastronomia e vinhos, existe um motivo para a Itália estar sempre na ponta da língua de cada um de nós

A culinária e os vinhos do país são de uma riqueza ímpar em cada uma de suas regiões, cada qual com suas receitas, seus ingredientes típicos e suas denominações de origem protegidas. Pergunte a um siciliano e a um pugliese como se faz foccacia (receita simples que leva apenas três ingredientes em sua base: farinha de trigo, fermento e sêmola) e se surpreenda com as diferenças de modo de preparo.

O mesmo acontece quando o tema é o vinho. São tantas uvas autóctones, tantas regiões e sub-regiões, que seria impossível e impensável encontrar alguém que não tenha pelo menos um vinho italiano inesquecível na memória. Também protegidos por DOCs (Denominazzione di Origine Controlatta) e DOCGs (Denominazzione di Origine Controlatta e Garantitta) cada um tem seu estilo.

Talvez, a principal receita para o sucesso da gastronomia italiana seja justamente a diversidade, a simplicidade e a preocupação em usar ingredientes frescos, sazonais e locais.

O ano de 2018 foi designado pelo Ministério da Cultura e Agricultura da Itália como o Anno del Cibo Italiano (anodo alimento. Vale lembrar que o vinho
também é classificado como alimento no país). Além disso, em São Paulo, acontece anualmente o movimento da Settimana della Cucina Regionale Italiana, quando 20 chefs italianos, um de cada uma das 20 regiões italianas, vêm ao Brasil divulgar a cultura gastronômica de seu país. Por isso, escolhemos regiões especiais para visitar na Itália e vivenciar essas experiências únicas na cena da gastronomia em suas regiões de origem.

Começamos a viagem pela ensolarada Sicília. Dica: reserve um assento no voo ao lado da janela e se maravilhe com a aterrissagem impactante nessa ilha italiana que mais poderia ser um país à parte e entenda por que Goethe disse: “Na Sicília reina a harmonia do céu com o mar e o mar com a terra… quem os viu apenas uma vez, os terá por toda a vida”.

A Sicília é uma ilha exuberante, banhada pelo mar Mediterrâneo e é famosa por seus templos gregos e palacetes barrocos, além de praias deslumbrantes, como a impactante Scala Dei Turchi com suas falésias brancas e mar azul turquesa. É um lugar que agrada a todo tipo de turista, porque mescla história, com seus templos dóricos e ruínas gregas declarados Patrimônio Histórico pela Unesco, clima de cidade (passear pelas agitadas ruas de Palermo é um programa imperdível), além de belas paisagens e natureza intocada, repleta de praias paradisíacas. Junte a tudo isso vinhos fantásticos, produzidos desde 500 a.C. nos vinhedos que rodeiam a ilha, região considerada a maior e mais antiga na produção da Europa, e uma culinária regional rica com pratos como a pasta alla norma, a caponata e os deliciosos arancini (bolinhos fritos de risoto que podem ser recheados com várias iguarias locais). Um ingrediente exótico e único faz parte do cardápio siciliano é o fi chi d’india (fruta de um cacto nativo, planta símbolo da ilha, e que é usada em várias receitas – além de ser excelente diurético e anti-infl amatório).

Um lugar com muitas atividades e que ao mesmo tempo convida à contemplação, ao não fazer nada no estilo mais italianoimpossível do dolce far niente, pede um hotel aberto, amplo e certamente à beira mar. A uma hora e meia do aeroporto de Palermo, em Sciacca, fica o recém-inaugurado Verdura Golf Resort & Spa, da cadeia Rocco Forte. Um oásis com design contemporâneo, campo de golfe, spa, trekkings e que se integra à natureza. Os quartos são amplos, com vista para o mar. O hotel conta com quatro restaurantes premiados, comandados por dois chefs com estrela Michelin: Fulvio Piarangelini (duas estrelas em seu restaurante Gambero Rosso, e atual chefe dos restaurantes da cadeia Rocco Forte) e Pietro Lemman (chef vegano que cuida do cardápio especial para vegetarianos e veganos). O resort, que tem plantação de oliveiras, tomates e cactos e uma horta orgânica, produz azeite e ainda é possível que o hóspede, junto com o chef Fulvio, em uma experiência oferecida pelo hotel, faça o seu próprio azeite.

Outra boa dica é alugar um carro no aeroporto. Assim, você pode planejar seus dias e passeios com mais liberdade. Reserve o dia da chegada para um giro por Palermo; a cidade é um charme. Comece pelo centro histórico, onde fi ca a Catedral, um dos monumentos mais importantes da Sicília, que data de 1184. Aproveite para caminhar por suas ruelas e não deixe de provar a comida de rua. Em Palermo, ela é levada muito a sério. Foi, inclusive, eleita pelos experts da revista Forbes como a melhor comida de rua da Europa. As barraquinhas e os mercados de rua vendem os famosos arancini, o “purpu vugghiutu” receita tradicional da região e imperdível, polvo em pedaços, cozido e temperado com limão-siciliano, azeite de oliva, alho, sal e salsinha. Se você, como nós, adora as alcachofras, elas estão em todos os lugares. Vem daqui também o cannoli – massa doce frita em formato de cone, recheada com creme de ricota, que harmoniza com o delicioso vinho de sobremesa, feito com uvas passifi cadas e que só pode ser produzido aqui: o Passito de Pantelleria DOC, um vinho considerado um néctar, com uma produção pequena e muito disputada mundo afora.

Mesmo que você que tenha visitado outras vinícolas, não deixe de ir a uma delas aqui na ilha. O solo vulcânico e pedregoso, o clima quente e a brisa marítima, tudo colabora para uma paisagem incrível e as uvas nativas divinas produzem vinhos inesquecíveis.

A Di Giovanna fica dentro de uma reserva natural no Monte Genuardo, em Sambuca di Sicilia, e sua produção é familiar e orgânica. Os vinhedos cercados pelas rosas, a paisagem exuberante do entorno, os dias ensolarados, tudo contribui para encher os olhos. A vontade é de ir fi cando por ali, sem pressa nenhuma – a simpática família toma conta de tudo e faz questão de fazer você se sentir em casa.

Na Sicília, as variedades internacionais Chardonnay e Syrah estão muito bem adaptadas. E as nativas fazem sucesso em vários países, como as tintas Nero D’Avola e a Nerello Mascalese – que produzem vinhos elegantes, com personalidade, e que envelhecem bem. A Nero D’Avola tem um toque frutado, que deixa o vinho quase doce. Muita gente começa
a apreciar os vinhos italianos degustando essa variedade. As uvas brancas, como a Inzolia, a Damaschino, a Catarrato e a Grillo, se beneficiam das condições
naturais da ilha: solo turfado, argiloso e calcário, que origina vinhos com caráter mineral e frescor, qualidades excelentes para brancos. Além de brancos e tintos, a ilha é conhecida por produzir o melhor Marsala, vinho delicioso, do mesmo estilo do Porto, fortifi cado e doce.

A praia San Vito de Capo, uma das mais bonitas da Itália, deve fazer parte do seu roteiro. Uma beleza natural de areia branca e fina e que contrasta com o mar turquesa. Se quiser esticar pelas redondezas, não deixe de visitar a Riserva dello Zingaro. Com acesso controlado e limitado, esse pedacinho da ilha tem sua natureza intocada. Outra dica é conhecer o local em um passeio de barco com pausas para um mergulho.

Se for com pouco tempo, escolha um hotel com praia particular, como o Verdura. Lá é possível relaxar nas espreguiçadeiras à beira mar, fazer esportes aquáticos e passaer al mare, a bordo dos barcos da propriedade. Termine o dia no bar do hotel, para tomar um digestivo ou Limoncello enquanto observa o céu estrelado.

Da Sicília subimos para Roma. Impossível não se maravilhar a cada viagem para esta cidade, onde o gostoso mesmo é se perder pelas ruas, entrar em pequenos restaurantes e provar pratos maravilhosos, feitos pelas mamas, com receitas secretas de família.

Nos hospedamos no Hotel de Russie, que possui uma excelente localização: ao lado da piazza del Popolo e fica também a poucos metros da belíssima escadaria da piazza di Spagna. O de Russie foi construído para ser um hotel e hospedar os czares russos e suas comitivas, que se mudavam para Roma nos meses de verão, ocupando os amplos quartos, todos com vista para um maravilhosojardim privado, onde toda a cena gastronômica acontece, como no restaurante Le Jardin, no qual o café da manhã, o almoço e
o jantar são servidos embaixo das copas das árvores e dos ombrelones brancos.

Se James Bond saísse das telas, com certeza seria visto no bar do hotel, o Stravinskij Bar, com uma taça na mão: o bar tem uma carta exclusiva de Martinis e é uma cena perfeita para coquetéis memoráveis. O aperitivo faz parte da cultura italiana. Equivale ao nosso happy hour, e os bares e restaurantes oferecem junto com a bebida porções com guloseimas para beliscar. Um hábito muito simpático, adotado também pelos moradores locais, que frequentam o exclusivo jardim para drinques e reuniões.

Como diz o ditado “Quando em Roma, faça como os romanos”, não deixe de provar os fritti, típicos da região. Nada de pensar em dieta, portanto. Se ainda não experimentou, aqui vai uma dica: fiori di zucca (flor de abobrinha) empanada e frita, com recheio que pode variar entre vegetais, queijo ou até mesmo anchova, que derrete na boca, simplesmente imperdível. É daqui também a pasta à cacio e pepe (queijo Pecorino e pimenta-do-reino), prato simples de preparar e com poucos ingredientes, mas delicioso – para harmonizar um belo Chardonnay de Lazio, ou com o delicado Frascati (vinho branco da região).

Começamos o dia com um bom café da manhã e saímos do hotel, a pé, percorrendo as simpáticas ruazinhas, cheias de luxuosas lojas, cafés e restaurantes entre a piazza del Popolo e a piazza di Spagna. As lojas de luxo se espalham entre a via del Babuino, via Condotti e as ruas que circundam a piazza di Spagna.

Existem lugares no mundo em que a cena gastronômica está em constante mudança e o bom é sempre o novo. Não é o caso da maioria dos restaurantes da Itália, mesmo Roma sendo uma cidade internacional com o fluxo de turistas o ano inteiro e cheia de opções gastronômicas. Se você tiver dúvida, opte pelos restaurantes tradicionais e familiares, aqueles com comida de nonna, e tenha certeza que não vai errar!

A cidade fica na região de Lazio, que tem muitas DOCs, porém com poucas expressivas, e a maioria da produção é de vinhos brancos. O solo vulcânico, rico em potássio e clima mediterrâneo é ideal para a produção do Frascati DOC,um vinho com acidez marcante, aromas florais intensos e para ser consumido jovem. Outra DOP é a curiosa Est!Est!Est! di Montefi ascone, vinhos brancos delicados produzidos com as uvas Trebbiano e Malvasia, leves e frescos.

Se procura restaurantes que servem comida romana, escolha algum desses: um pouco afastado do centro, fica o pitoresco bairro de Trastevere. É nele que se encontra o Restaurante Trilusa. Não deixe de pedir o fetuccini ao tartufo bianco, harmonizado com um branco Gavi di Gavi, feito com uvas Cortese, no Piemonte. Trata-se de um vinho fresco, mineral, com aromas florais e de frutas brancas, é elegante e tem um fi al amendoado característico. Para a sobremesa, aposte no tiramissu. Ainda em Trastevere, o Ristorante Scala é outra boa indicação para os amantes de trufa, com um menu inteirinho dedicado a ela. Outra boa pedida para o jantar é o Ristorante Tullio. Se for temporada de funghi, peça o fetuccini ao porcini. Fora da rota Fontana di Trevi-Coliseo-Vaticano, além
de Trastevere, inclua na sua lista o descolado bairro Monti. Bem menos turístico que o resto de Roma, o bairro reserva pequenos wine bars e cafés charmosos, com chefs que despontam na cena gastronômica da cidade, como o L’Asino D’Oro comandado pelo Chef Lucio Sforza.

Para um café, nada mais romano que o Caffe Canova Tadolini. O espaço começou em 1818, como um estúdio de arte de Tadolini, e, atualmente, o café ostenta, além dos quadros e esculturas, muita diversão.

Abasteça sua adega na Enoteca Constantini, que conta com mais de 4.000 rótulos italianos e um bar ao lado para degustações. Mas se a ideia é queimar calorias ao invés de ganhar, se inscreva no programa de corrida do hotel de Russie. Todas as manhãs, bem cedinho, o personal do spa, famoso por treinar os italianos locais para triatlons, leva os hóspedes para uma corrida pelos principais pontos turísticos da cidade, garantindo visitar as atrações sem as pencas de turistas que começam a surgir a partir das 8h30.

Próxima parada: Florença. Essa joia da Toscana respira história, moda, cultura e gastronomia. A região, terra da uva Sangiovese, usada para a produção dos maravilhosos Brunello di Montalcino, Rosso de Montalcino, dos Chianti, do Vino Nobile Montepulciano, do Morellino di Scansano e outros. Ela é uma uva versátil que produz de vinhos leves e macios, como os bons Chiantis, até encorpados, estruturados e complexos, como os Brunellos.

A Toscana é uma das regiões mais cotadas quando o assunto é vinho, onde ficam as mais famosas vinícolas, que recebem o visitante com degustações e passeios guiados pelas propriedades.

Florença é um charme, cheia de lojas que vendem arte, e a famosa ponte Vecchio, onde todas as lojas são joalherias e ostentam peças antigas e modernas para todos os gostos, mas para poucos bolsos. A moda também tem uma forte representação e alguns dos museus mais bacanas de estilistas italianos famosos ficam na cidade. Vale visitar o Museo Salvatore Ferragamo, que já é queridinho dos fashionistas, mas não deixe de conhecer o recém-inaugurado Gucci Garden. São três andares com paredes cobertas por estampas detalhistas e cheias de cores, vídeos interativos, roupas com muito brilho que contam a história da marca, além de uma exposição das coleções icônicas, loja repleta de acessórios diferentes, livros de moda e um bistrô com assinatura do badalado chef Massimo Bottura, o Gucci Osteria da Massimo Bottura.

A cidade é um daqueles lugares em que se pode fazer praticamente tudo a pé e por isso a escolha da hospedagem deve priorizar hotéis bem centralizados como
o icônico Hotel Savoy, que fica na piazza della Republica, entre a Duomo e a ponte Vecchio, cercado por monumentos históricos e lojas de luxo. O hotel foi recentemente reformado, com inspiração na coleção de lenços exclusivamente criada para eles pela marca Emilio Pucci. E, entre outros mimos, oferece charmosas bicicletas para os hóspedes circularem pelo centro.

Que Florença conta com restaurantes tradicionais como o Buca Mario, que aparece em nove dos 10 guias da cidade (mas que talvez já esteja mais manjado pelos turistas) e trattorias do século 14 você já sabe, mas se quiser optar por um almoço mais moderno, visite a La Ménagère, um mix de loja de fl ores, café e restaurante. O ambiente é super cool e jovem. Prove a Fiori de Zucca com vieira ao molho pesto, como entrada. No fi m do dia, o Rooftop La Terrazza é uma parada estratégica para ver o pôr do sol, escoltado por um Aperol Spritz. Para um jantar especial, a sempre espetacular Enoteca Pinchiorri, uma das cartas de vinhos mais importantes da Itália, oferece cozinha sofisticada, acompanhada pelos melhores vinhos, mas é preciso reservar com antecedência. Outro lugar delicioso e descontraído para jantar ou tomar uns drinques é o Terraço do Restaurante Irene, em plena piazza della Republica, na praça central de Florença, com vista para cenas fiorentinas encantadoras.

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