Toscana: Conheça a Encantadora Castiglione Della Pescaia

Após duas horas dirigindo desde a pequena Ladispoli, na redondeza de Roma, cheguei aos arredores da pequena Castiglione Della Pescaia na Toscana, em um fim de tarde tranquilo

Vinícola Petra

Quem não lembra? “Vada a bordo, cazzo!”, uma expressão tornada histórica após a homérica barbeiragem náutica protagonizada pelo comandante italiano Francesco Schettino, da embarcação Costa Concordia, após ele ter desembarcado sorrateiramente e abandonado os passageiros à própria sorte, no navio que ele afundou. Mas o que isso tem a ver com nossa história? O famoso naufrágio teve como palco a costa de Maremma, defronte à ilha de Giglio, a poucos quilômetros de Castiglione Della Pescaia, onde eu acabara de chegar.

Do ponto em que eu me encontrava era possível avistar os contornos difusos da pequena Giglio. A tarde avançava e eu saí para uma breve caminhada pelos vinhedos ao redor, antes que anoitecesse. O clima moderado de meia estação reforçava a atmosfera acolhedora em meio ao silêncio e à tranquilidade.

L'Andana Hotel
L’Andana Hotel

Na manhã seguinte, saí cedo rumo à antiga vila de Suvereto, a 45 quilômetros dali, onde visitei uma vinícola incrível, a
Petra. Caminhando pelas encostas recobertas de vinhedos, ouvi interessantes explicações sobre as distintas características de solo e de clima que compõem os variados terroirs da vinícola.

Sangiovese, Cabernet Sauvignon, Merlot, Sirah e Viogner são as variedades cultivadas. A vinícola produz vinhos varietais com as três castas tintas, bem como diferentes cortes. A Viogner é utilizada na produção de um varietal e também do surpreendente L’Angelo di San Lorenzo, um suculento vinho de sobremesa de colheita tardia.

L'Andana Hotel

A vinícola pertence a um conhecido empresário e visionário italiano, Vittorio Moretti. Incansável e dono de grande inventividade, Moretti construiu um império diversificado: construção civil, laminação de madeiras, indústria náutica de luxo, vinhos e hotelaria. Ele sempre norteou suas atividades com a ética do desenvolvimento e do uso responsável da terra, aliado à preservação e à proteção do ambiente. Além da vinícola Petra, mister Moretti, como é mais conhecido, é dono também do L’Andana, o luxuoso hotel onde eu me encontrava hospedado, além do L’Albereta, um sofisticado Relais Chateaux em Erbusco, na Lombardia.

Na década de 1970, ele começou a estudar meticulosamente o champagne francês e fundou o Consorzio Vini Franciacorta, que reúne produtores de Franciacorta, o “champagne italiano”, um produto internacionalmente reconhecido por sua grande qualidade e tipicidade. Criou a célebre marca Bellavista e tornou-se o maior produtor da bebida da Itália. A adega da Bellavista é permanentemente abastecida com nada menos que 1,5 milhão de garrafas de 12 diferentes tipos de Spumanti Franciacorta.

Vinícola Petra

Na Petra, conheci um inovador sistema de captação de energia solar inventado por Moretti, que movimenta bombas utilizadas na irrigação dos vinhedos. Uma grande estrutura metálica, dotada de um eixo central, foi montada sobre a superfície de um lago. Um sistema fotovoltaico é responsável por fazer girar a estrutura repleta de painéis solares, que acompanham, ao longo do dia, a trajetória solar, aumentando a captação de energia.

Vittorio Moretti delegou pessoalmente a construção da vinícola ao renomado arquiteto e amigo italiano, Mario Botta. “Quando Vittorio Moretti me pediu para projetar a adega, entendi que, além dos aspectos funcionais, o que ele realmente ansiava era uma imagem que comunicasse a paixão e o compromisso necessários para tal empreitada. Cultivar vinhas exige uma ampla perspectiva, que se prolonga no futuro por muitas décadas, com pouco espaço para incertezas e vacilações. A geometria da adega contrasta com a natureza ondulada do solo, superpondo um design aerodinâmico que destaca a beleza e a profundidade da paisagem que a cerca”, diz Botta.

Exposição de Arte na Adega
Exposição de Arte na Adega

Após a caminhada e muitas fotografias dos cenários ao redor, voltamos para conhecer melhor a vinícola e experimentar os vinhos. A colheita estava praticamente encerrada há quase duas semanas, mas alguns lotes ainda estavam em fim de produção e chegavam à vinícola as últimas uvas da estação. Na cantina, a movimentação era grande. Diligentes funcionários iam e vinham rapidamente cuidando de grandes tanques de fermentação. Em toda parte, uma limpeza e organização primorosas.

Ao visitar a adega, me deparei com luzes escarlates e grandes painéis fotográficos espalhados pelas paredes e iluminados com refletores. A vinícola, que integra a rota turística na região, fez da adega um espaço nobre de exposição de arte. O artista do momento era o controvertido fotógrafo italiano Oliviero Toscani, célebre devido a suas polêmicas fotografias e campanhas publicitárias para a marca Benetton.

A degustação foi acompanhada de uma seleção de embutidos e cortes curados, produzidos na própria vinícola, como diferentes salames, pastrami, chourizo e um lardo surpreendentemente macio.

Ao perguntar pelo nome do tenro lardo que eu acabara de experimentar, eu disse algo como “Qual é mesmo o nome? Lardo di?”. Esperando que meu anfi trião concluísse “di Colonnata”, que é o que geralmente conhecemos, mas ele respondeu: “lardo daqui mesmo”. E concluiu: “Eu entendo. O mais famoso é o lardo di Colonnata, mas este nós produzimos aqui mesmo”, completou ele, com um sorriso maroto e sem esconder uma ponta de orgulho.

A Sangiovese é a casta mais representativa da Toscana, mas não é em toda parte da região que ela resulta em vinhos excepcionais. Dos vinhos degustados, o que mais apreciei foi o Petra Querce Gobbe Merlot 2012.

Um pouco cansado e relaxado pelos vinhos, tomei o rumo de volta à Castiglione della Pescaia, regressando ao L’Andana no meio da tarde. Achando que descansaria um pouco antes do jantar, fui avisado que uma segunda degustação me esperava, desta vez na Tenuta La Badiola, a propriedade vizinha na qual o chef francês Alain Ducasse mantém uma escola de gastronomia em parceria com o L’Andana.

Infelizmente, monsieur Ducasse não estava lá, mas não deixei de comparecer para conhecer os Acquagiusta, os rótulos produzidos pela Tenuta La Badiola. Lá degustei três vinhos: um branco da casta Vermentino, um rosé de uva Alicante e o Acquagiusta Rosso, um corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah. De todos, o que mais se destacou foi o rosé.

A noite se aproximava e, saindo da degustação, me enveredei sozinho pelos jardins da propriedade, explorando os visuais e fotografando o crepúsculo, aquela hora mágica quando o céu ainda está azul e as luzes já se acendem. Era baixa estação e reinava uma quietude acolhedora e inspiradora.

De volta ao L’Andana, em Casteglione,conheci a sofisticada cozinha do renomado chef italiano Enrico Bartolini, acompanhada dos Acquagiusta. E, embalado pelos vinhos, fui dormir cedo. No dia seguinte segui viagem rumo ao norte, para a Brescia, na Lombardia, mas isso é outra história.

Onde se hospedar: Castiglione della Pescaia:  L’Andana

Texto e Fotos: Johny Mazzilli 

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