Normandia, a terra das maçãs

Meu sonho de conhecer a Normandia começou pela história da Segunda Guerra Mundial. Depois, o Mont Saint-Michel e sua atmosfera mística. No fim, fomos surpreendidas pela maravilhosa gastronomia normanda.

Mont-Saint-Michel

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No noroeste da França, esta área costeira que faz frente com o sul da Inglaterra, foi invadida sistematicamente por bárbaros, piratas saxões, tribos germânicas. No entanto, foi o viking norueguês Rollo que, no fim do século 9º, recebeu legalmente o território e deu origem ao povo normando.

Não há como falar da Normandia sem entrar em sua história de conflitos. Somente na Guerra de Cem Anos (1337-1453), aquela na qual a jovem Joana D’Arc instigou a revolta francesa contra a invasão inglesa, a região perdeu três quartos de sua população. Sua bandeira provincial, com dois leopardos representando força e coragem, revela um orgulho especial pelo seu passado guerreiro. O que tornou a região conhecida mundialmente foi o episódio conhecido como “Dia D”, em 6 de junho de 1944, quando tropas aliadas desembarcaram em suas praias sob a artilharia pesada do exército alemão, que marcou o início do fim da Segunda Guerra Mundial.

Dinan, cidade próxima ao Mont Saint-Michel, na Bretanha

Na nossa tão sonhada viagem à Normandia, eu e minha filha Júlia decidimos começar pelo Mont Saint-Michel, a cerca de três horas de carro de Paris. Na pontinha de um braço de terra litorâneo, que nas marés altas vira uma ilha, essa fortaleza milenar emerge imponente no meio de uma vastidão plana. Dentro dela há uma cidadela medieval, um enorme mosteiro beneditino e, do ponto mais alto, a abadia de São Miguel Arcanjo com uma torre que parece querer tocar o céu.

Seguimos para o norte adentrando a península do Cotentin, a ponta francesa do canal da Mancha, terra de paisagens contrastantes, de cultura e gastronomia efervescentes. Inebriadas pelo aroma do mar, flutuamos pelas estradas costeiras e pousamos em Barneville-Carteret, estância balneária banhada pela luz do Atlântico.

Terraço do Hôtel dês Isles, em Barneville-Carteret

Receberam-nos José e Flávia de Mello, um português e uma brasileira. O casal administrou diversos hotéis na França até comprar, em 2004, o Hotel des Isles, restaurado e redecorado pelas mãos habilidosas da Flávia, que adquiriu experiência em design de interiores vendendo imóveis na França. O resultado é um hotel familiar onde se pode ficar à vontade, principalmente pela simpatia e amabilidade dos anfitriões. No restaurante do hotel, as especialidades são os buffets de mariscos, camarões e a exclusiva lagosta azul (homard bleu) pescada ali mesmo, em Barneville-Carteret.

A 12 minutos do hotel, em Sortosville-en-Beaumont, um lugar mágico nos remete à infância, a Maison Du Biscuit, uma fábrica de biscoitos fundada em 1903. Seja você é um petit adult ou um grand enfant, será perdidamente envolvido pelos aromas de manteiga, amêndoas e baunilha, pelas vitrines coloridas e pelos ambientes ricamente decorados, de uma época em que viver era mais simples. Marc Burnouf, da quarta geração de proprietários, arrematou em leilão um lote de antiguidades e recriou uma vila tal qual era na época de seu avô, Maxime.

La Maison Du Biscuit

Os tradicionais mercados de rua da Normandia acontecem durante toda a semana em diferentes cidades e são a melhor oportunidade para conhecer – e degustar – as especialidades locais. Na charmosa e florida Trouville, que junto a Deauville formam o balneário mais badalado da Normandia, o mercado é de peixe e frutos do mar, às quartas e domingos. Na cidade histórica de Bayeux, no verão, o marché du terroir e dos artesãos normandos se instala toda noite de quinta-feira no pátio da Câmara Municipal.

Marché de rua em Barneville

 

A lagosta azul típica do Cotentin (foto: Julia Santos)

Numa manhã de sábado no marché de Barneville conhecemos Arthur Laisné, que trabalha em sua propriedade de segunda a sexta e, aos fins de semana, leva ao público manteiga, creme de leite, iogurte e teurgoule, um pudim de arroz normando, todos orgânicos.

Da ideia de montar, com o pai, uma pousada com ambiente de fazenda, Arthur, que é ex-chef de cozinha, viu-se completamente envolvido com a criação e com a produção dos laticínios. De suas 40 vacas normandas ele extrai cerca de 200 mil litros de leite por ano. Metade é transformada em seus produtos; a outra metade vai para o mercado. Seu leite é utilizado pelo produtor de um dos melhores Camemberts da Normandia, o Réo.

Deixamos o mercado de Barneville e seguimos para um percurso turístico pela costa norte do Cotentin, começando por Barfleur, a leste. No caminho, uma parada estratégica na Lait Douceur de Normandie, uma fábrica de doce de leite, caramelos e outras delícias.

Barfleur é um simpático porto com um imponente farol, Gatteville, o segundo maior da França. E é o melhor lugar pra se comer moules frites (mexilhões com fritas), prato típico da região. Lá, eles vêm da pesca, não de criadouros, como na maioria dos lugares.

Pescador de mexilhões em Barfleur (foto: Julia Santos)

 

Trouville-Deauville

A maçã reina na Normandia. São quase 30 tipos originários do local. Dela se extrai o suco, da fermentação do suco se faz a cidra e da destilação da cidra, o Calvados (pronuncia-se calvadô). O Pommeau de Normandie é obtido misturando o Calvados com a cidra.

A destilaria e cidreria Théo Capelle, em Sotteville, tem como premissa o respeito pelos ciclos da natureza, da floração à época de queda das frutas, que dá início à colheita. Ludovico, segunda geração à frente da empresa, produz um respeitável e premiado Calvados com envelhecimento de 3 a 20 anos, além de uma gama completa de cidras, Pommeau de Normandie e outros aperitivos.

Na terra da maçã também se faz vinho. Para fundar a Arpents du Soleil em 1995, primeira e única vinícola na Normandia, Gérard Samson contou com seus estudos na Borgonha, muita insistência e algumas brechas na lei, que proibia o plantio de parreiras. Sua primeira colheita aconteceu três anos depois. Os vinhedos estão dispostos numa colina com solo muito particular de argila e calcário, superficial e pedregoso que, somado ao clima seco e com muito sol, resulta em vinhos brancos frescos e minerais. Após quatro anos de guarda, os sabores frutados dão lugar a aromas minerais, especiarias e mel.

Anoitecer nas Falésias de Auderville

Na nossa despedida à Península do Cotentin, descemos de Auderville pela costa oeste com o visual dramático das falésias e paramos em Vauville para uma visita ao misterioso jardim da baronesa Cléophée de Turckheim, onde plantas exóticas da Nova Zelândia, Austrália e Tasmânia vivem de forma perene, encerrando com um delicioso chá servido pela própria baronesa.

Após esse maravilhoso tour gastronômico pelo Cotentin, estava ansiosa por conhecer a região do célebre “Dia D”. Quem nos recebeu foi a brasileira Gisele Danin, da Normandy Circuits, professora de história e guia excepcional. Impossível não se emocionar ao visitar o Cemitério Americano da Normandia com suas 9.387 sepulturas, a pequena cidade de Sainte-Mère-Église, pouso dos soldados paraquedistas e a praia de Omaha, uma das principais do desembarque.

Gisele, que mora em Bayeux, nos conduziu numa visita à sua cidade, um dos poucos lugares da Normandia que passou relativamente ileso pela Segunda Guerra. A tapeçaria de Bayeux, uma linha do tempo bordada num tecido de 70 metros de comprimento, conta a história da conquista do trono da Inglaterra por Guilherme, o Conquistador. Não se sabe exatamente como esse tecido sobreviveu ao tempo, às inúmeras batalhas e aos saques. A tapeçaria de Bayeux está no Registro da Memória do Mundo da Unesco e é possível acompanhar os desenhos com áudio em português.

Normandia
Château La Chenevière, em Port-em-Bessin

Bem próximo às praias do desembarque, nos hospedamos no Château La Chenevière, em Port-en-Bessin. Esse magnífico castelo normando do século 18, transformado em hotel cinco estrelas, tem um passado marcado pela guerra: ocupado pelos alemães, tornou-se estação de telecomunicações, até serem boicotados por um francês antes do desembarque dos americanos. Em seus 30 hectares, com um belíssimo jardim, apiário e piscina externa aquecida, reina a quietude. O restaurante Le Botaniste, conduzido pelo chef Didier Robin, oferece uma experiência de um clássico jantar francês com ingredientes típicos normandos e da horta própria.

Porto de Honfleur, no estuário do Rio Sena, na hora do almoço

No estuário do rio Sena, Honfleur é uma cidadezinha pitoresca de ruas de paralelepípedos e fachadas revestidas de ardósia. Casinhas estreitas se enfileiram na frente de um dos portos mais antigos da Normandia. É de lá que partiram as caravelas rumo às conquistas do novo mundo.

Nosso último destino na Normandia reservava uma agradável surpresa: as falésias de Étretat, imponentes paredes de calcário amarelo-claro, que emergem do mar verde-esmeralda, um espetáculo. Hospedadas na Domaine Saint Clair, um hotel pequeno, intimista e ricamente decorado, decidimos caminhar a pé até as falésias. Lá do alto, após muitos cliques, não tivemos dúvidas: descemos à praia e, enfrentando a água gelada, nos deliciamos naquele marzão azul. Famintas, tivemos um jantar memorável no restaurante do hotel, o Le Donjon, com menu degustação do chef Olivier Foulon e apresentação empolgada do garçom Santini, além da vista espetacular das falésias.

Falésias de Etretat

 

Info & By Yourself

Onde Ficar
Hotel des Isles, em Barneville-Carteret
Château La Chenevière, em Port-en-Bessin
Domaine Saint Clair, em Étretat

Onde Comer
Le Botaniste, em Port-en-Bessin
Le Donjon, em Étretat

Quem guia
Normandy Circuits, tours particulares e em grupo

Compras
Maison des Ormes, loja de decoração de Flavia de Mello, em Carteret


Texto: Luciana Barbieri /Fotos: Luciana Barbieri e Divulgação

 

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