Entenda as diferenças entre os vinhos rosé e laranja

Muito além da cor, os tipos de uva das quais são extraídas as bebidas e os estilos obtidos determinam resultados distintos no copo e na boca. Por Daniella Romano

as cores das bebidas podem até ser às vezes são confundidas, mas o método de obtenção distingue esses dois tipos de vinho. Foto: iStock
Copos de vinho rosé e laranja: as cores das bebidas podem ser confundidas, mas as uvas, o método de obtenção e os estilos distinguem esses dois tipos de vinho. Foto: iStock

A diferença básica entre os vinhos rosé e laranja, que muitas vezes têm a coloração parecida, é que os rosés são produzidos com uvas tintas e os laranjas são obtidos de cepas brancas que recebem o mesmo processo de vinificação dos tintos: as cascas ficam macerando junto com o mosto para extração de cor e de tanino. Mas tem mais.

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VINHO ROSÉ

O vinho rosé se popularizou nos últimos anos. Fácil de combinar, pode ser bebido puro ou na refeição. Ele tem ainda a seu favor o frescor, a vivacidade e a juventude – é para ser consumido jovem e tem tudo a ver com regiões do mundo em que o clima temperado se manifesta, inclusive o Brasil*. Atualmente, os rosés estão nas linhas de quase todos os produtores mundiais. Além das qualidades mencionadas, outra característica importante é que podem ser obtidos de inúmeras uvas tintas. Brasil, Portugal, Espanha, Chile e Itália têm rótulos excelentes. Só que a região responsável por seu prestígio, antes de todas, é a Provença, na França. De lá, saem em quantidade significativa os mais cobiçados vinhos cor-de-rosa e suas variações em claros tons de pêssego, salmão ou casca de cebola. Para produzir vinho rosé, o método mais utilizado e conhecido é igual ao da produção dos tintos. As uvas tintas, depois de colhidas e prensadas, vão para os tanques de fermentação com as cascas – são elas que atribuem cor à bebida. A diferença é o tempo que as películas ficam macerando junto ao líquido, o que permite que a cor se forme. No caso do rosé, portanto, o contato dura bem menos do que na obtenção do tinto. Geralmente, apenas algumas horas são suficientes – é por isso que os vinhos rosados não têm muitos taninos. São as cascas que conduzem também essa outra característica da bebida.

VINHO LARANJA

Muitas vezes confundido com o rosé, o vinho laranja é um projeto diferente e está ligado às produções orgânicas ou biodinâmicas e naturais. Ainda que sua origem seja incerta, sabemos que é feito com uma metodologia ancestral de cerca de 8.000 anos, utilizada até hoje na Geórgia (no Cáucaso) e na Armênia. As uvas brancas são colhidas e os cachos são colocados inteiros em ânforas de terracota. Antes, cada um desses vasos de gargalo estreito e corpo oval (e que termina em uma base pontiaguda) recebe por dentro um revestimento de resina de cera de abelha. Quando a ânfora está cheia, ela é enterrada. Isso ajuda a manter a temperatura baixa e estável. Começa nesse momento um processo de maceração que pode durar apenas algumas semanas ou até dez meses, a depender da uva. Depois, o sumo é retirado e separado das cascas. Esse processo tinge o vinho e a cor laranja pode evoluir para o âmbar.

QUANDO TUDO (RE)COMEÇOU

O enólogo esloveno Josko Gravner, um profissional referenciado e bastante controverso no mundo do vinho, redescobriu a técnica do vinho laranja e tornou a bebida conhecida em todo o mundo. A família de Gravner já era produtora de vinhos de excelente qualidade no Friuli, nordeste da Itália, quando, decidido a interferir minimamente na produção, ele arrancou as plantas de Chardonnay e começou a plantar uma das uvas autóctones da região e que estava praticamente extinta, a branca Ribolla Gialla. Na produção, Josko Gravner empregou o método da Georgia (leia mais aqui). Começava ali um movimento que aos poucos foi ganhando forma e novos adeptos. Produtores de diversos lugares, entre eles Eslovênia, Croácia, Estados Unidos, Nova Zelândia, Chile e Brasil, iniciaram projetos bem elaborados e com bebidas de riqueza e complexidade incríveis, que já ganharam prêmios importantes.

DIFERENÇAS

Além dos tipos de uva, rosés e laranjas também têm estilos distintos. O rosé, via de regra, é um vinho coringa e que “combina com tudo” (peixes, carnes, massas, aperitivos). O laranja, por sua vez, tem uma personalidade forte e muitas vezes apresenta um pouco de amargor no final, e isso não é um defeito, faz parte do estilo e do modo como é produzido. A harmonização, portanto, também é diferente. Assim como os rosés podem ser feitos com várias cepas tintas, os vinhos laranja podem ser obtidos de diversas uvas brancas, mas a Ribolla Gialla e a Trebbiano se adaptaram melhor ao estilo. O resultado? Vinhos ricos, complexos, numa paleta de aromas ampla, que vai desde notas de flores, ervas e frutas cítricas até especiarias e frutas cristalizadas. Seu aspecto é geralmente mais turvo, por causa do modo de produção. Em boca, apresenta boa estrutura e uma certa rugosidade, indicação da presença de taninos. Reuni exemplos de pratos que combinam os dois tipos de vinho e os vários estilos de rosé. São ideias para você explorar o sabor. Cheers!

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O vinho e a comida estão na mesa
Receitas que pedem a companhia de bons laranjas e rosés

O vinho laranja tem caráter, complexidade e uma característica peculiar: ele ressalta o umami, por isso combina muito bem com pratos ricos no quinto sabor. Receitas ricas em especiarias também fazem bom par com as notas evoluídas dos laranja.

• tagliatelli com trufas brancas
• massas ao funghi porcini
• queijo grana padano
• peixes carnudos (atum selado com cuscuz de berinjela e tomates) •frutos do mar (mariscadas, paellas e ensopados, como a bouillabaisse)
• bacalhau à lagareiro• pratos em que as especiarias são marcantes, a exemplo de frango thay e tagine de cordeiro.

É interessante perceber que as especiarias e as notas evoluídas dos laranjas têm tudo a ver. Já os taninos da bebida, por não serem tão intensos, compatibilizam bem com carnes mais leves.

Agora, acredite: existe um rosé para cada tipo de comida. Eles são muito versáteis. Listei alguns pratos que vão bem com rosés leves, médios ou encorpados. Use as informações como inspiração e, com bom senso, faça suas próprias escolhas sem medo de errar.

• Leve: delicados, esses rosés são os que mais se assemelham aos brancos. Têm notas florais, frutas cítricas e frescas, como morangos e toques de ervas. Para eles, pense em alimentos leves, frutos do mar em geral e comida japonesa.
• Médio: com mais estrutura e acidez mais elevada, os rosés de médio corpo harmonizam com massa ao molho de queijo, risoto de camarão e aperitivos fritos, a exemplo de bolinho de bacalhau e lula à doré.
• Encorpado: geralmente produzidos em lugares quentes e países do Novo Mundo, os rosés de médio corpo são frutados e estruturados. Combinam com sanduíche de rosbife e picles, tagliata com salada de rúcula e comida árabe condimentada

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DANIELLA ROMANO é sommeliére e criou o Guia de Vinhos Selo 7 Sommeliers e a empresa Aromas do Vinho. É proprietária da Casa da Travessa (www.casadatravessa.net), um espaço dedicado à gastronomia, ao conhecimento e ao estudo do mundo do vinho

*atualizamos a informação às 14h28 do dia 25 de abril. Antes, o texto dava a entender que, no Brasil, há predomínio de clima temperado, o que não é verdade. A variedade de estilos dos vinhos rosé faz com que seja uma bebida boa para o calor e, também, para temperaturas mais amenas. Muitos rosés são mais do que vinhos de piscina, e têm perfil gastronômico.

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