Atibaia

Cresce na cidade o turismo de luxo, com haras que se transformaram em hotéis e incrementaram a experiência dos hóspedes com cavalos e um estilo de hospedagem campestre.

Cidade das flores e morangos

Eu frequentei Atibaia em diferentes etapas de minha vida. Quando menino, acompanhava meu pai em suas idas à cidade, ainda na década de 1970, quando ele me levava para tomar sorvete na antiga sorveteria da praça da igreja Matriz. Muitos anos depois, voltei a frequentar a cidade. Era a época dos bailinhos animados nas discotecas. Mais tempo se passou e, agora, passei a visitar a cidade de vez em quando com a família. Sou eu que agora, revivendo a história, levo meus filhos para tomar sorvete e subir até a Pedra Grande, o monumento natural mais representativo da cidade.

Ir a Atibaia e não subir a Pedra Grande é como ir a Roma e não ver o Vaticano. Ela é o ponto turístico mais conhecido da cidade, situado a uma altitude de 1.450 metros. A região de seu entorno é de importância estratégia para a cidade, pois é deste subsolo que vem parte considerável dos recursos hídricos do município. Nos finais de semana, famílias, casais e grupos de amigos fazem trilhas ao seu redor, escalam em rocha, fazem rapel e, quando os ventos estão favoráveis, a galera decola ou assiste as decolagens de asa delta e de parapente. O local é perfeito para voos, para curtas caminhadas e para apreciar tranquilamente um belo pôr do sol.

Cheguei à cidade e, logo ao estacionar o carro no centro, chamou minha atenção uma conhecida melodia tocada em um saxofone, instrumento que toquei durante alguns anos e cujo som me é muito familiar. Olhei ao redor e identifiquei sua origem, um conservatório musical a cerca de 30 metros de onde eu havia estacionado. Fui até lá e conheci Marcelo Orenstein, um músico atibaiense que, naquele momento, estava sozinho e fazia seu solo de saxofone, acompanhando uma música instrumental que rolava. Muito simpático, em poucos minutos de papo fiquei sabendo que ele é administrador da página de facebook de um lendário e pouco conhecido saxofonista brasileiro, Victor Assis Brasil, que infelizmente faleceu cedo, ainda em 1981, aos 36 anos, vitimado por uma rara e grave doença. Victor era irmão gêmeo do pianista carioca João Carlos Assis Brasil. Marcelo é, assim como este que vos escreve, admirador de Victor Assis Brasil, e é músico atuante no município, dá aulas no conservatório e faz show e tours.

Sai do conservatório animado e circulei um pouco pelo centro. Era uma manhã quente e luminosa, e fui ao Museu João Batista Conti, que ainda estava fechado. Então, caminhei pelos arredores da Igreja Matriz, da pracinha central e imediações. Dali, eu tomei o rumo de um lugar que conheci ainda menino, o parque Edmundo Zanoni. Situado a cerca de dois quilômetros do centrinho, mas ainda dentro da cidade, o parque é uma excelente opção para passear com a família e levar as crianças para se divertir ao ar livre. Parquinho com brinquedos e um lago com pedalinhos, num cenário arborizado, limpo e com várias árvores centenárias, fazem a alegria dos pequenos e a tranquilidade dos pais. O parque é ainda muito bom para a observação e fotografia de aves, dado o grande número de espécies que vivem no local. Ainda dentro do parque, no diminuto Museu de História Natural Professor Antonio Pérgola, uma coleção de animais empalhados retrata uma pouco da fauna remanescente e diversas espécimes já extintas ou que desapareceram da região. Estão expostas aves coletadas por todo o país desde a década de 1940. É um material bastante antigo e representativo da avifauna brasileira. O museu, embora pequeno, reúne um acervo de cerca de 1.000 animais taxidermizados ou restaurados artisticamente pelo lendário professor de taxidermia Antonio Pérgola. Ali mesmo, ao lado do museu, almocei no Bistrô do Parque, um pequeno restaurante de comida caseira deliciosa.

Voltei ao centro e o museu já estava aberto. Construído em 1839 para abrigar a Câmara Municipal e a cadeia, em 1953 passou a ser um museu e hoje possui um valioso acervo histórico, com destaque para uma das maiores coleções de objetos e documentos referentes à Revolução Constitucionalista de 1932.
Estiquei até o outro lado da cidade, no bairro Caetetuba, e fui conhecer o Orquidário Takebayashi, que tem também uma plantação de morangos orgânicos. O proprietário, Keiji Roberto, me mostrou entusiasticamente sua coleção de orquídeas mais coloridas e de formatos incomuns. Meu pai também fora, em priscas eras, um orquidófilo, e quando eu era adolescente, ele teve um revival disso e nós cultivamos um punhado de vasos durante uns anos. Passei a me interessar e a ler sobre o assunto. Então, sempre que falo de orquídeas, revivo um pouco essa história. Após a fascinante explicação sobre as flores, fomos ver, ao lado, sua plantação de morangos, onde os turistas podem colher e pagar por quilo. As frutas, sem agrotóxicos e cultivadas em semi-hidroponia, são grandes e suculentas. Uma diversão bacana e saudável para as crianças.

Falando em morangos, Atibaia é considerada “Cidade das Flores e Morangos”, com grande produção de flores ornamentais por parte da comunidade japonesa, assim como cultivo expressivo de morangos. Todos os anos, é celebrada a Festa das Flores e Morangos, um evento que atrai milhares de pessoas à cidade. A festa tem um caráter cultural amplo e diversificado. Além da rica presença da cultura japonesa e suas manifestações, reúne diversas tradições e costumes no palco, com representantes dos mais variados países, todos os sábados e domingos. São danças, teatros, músicas e artes em geral. Em 2019, a 39ª edição do evento acontecerá de 30 de Agosto a 22 de Setembro.

Um dos atrativos que conheci há muitos anos é a interessante Estação Atibaia, uma pequena linha férrea com uma Maria Fumaça e um vagão de passageiros, que aos finais de semana fazia um trajeto curtinho com turistas. Desta vez, soube que infelizmente a atração já não é mais aberta ao turismo e só funciona para eventos com reserva.
De volta à região central, passei no mercado municipal, onde conheci o pequeno Empório Royal, uma lojinha com mais de mil rótulos de cachaça. Entre Março a Outubro, quando os ventos estão mais amenos e o clima menos instável, é a temporada dos voos de balão. Há experiências mais completas, onde o visitante sai num voo de balão e, em seguida, é conduzido de veículo 4×4 através de cenários de montanha, passando pela Pedra Grande, é claro, e com direito a mimos pelo caminho. Cresce, na cidade, o turismo de luxo, com haras que se transformaram em hotéis e incrementaram a experiência dos hóspedes com cavalos em um estilo campestre.

Como não podia deixar de ser, voltei à Praça da Igreja Matriz e fui ao Valentim, a histórica sorveteria de Atibaia. Eu me lembro que, no começo da década de 1980, certo dia meu pai me disse: “Venha comigo para Atibaia, o Valentim lançou um sabor novo de sorvete que você vai adorar”. E lá fomos nós, tomar sorvete de massa com sabor de nozes. Lembro que fiquei encantado com aquilo, era muito melhor que qualquer outro que eu havia experimentado. Desde então sempre que vou a Atibaia, passo lá para um sorvete com boas lembranças do passado, e eles continuam muito bons. Semana passada, enquanto fazia essa reportagem, passei lá e dos três que tomei, um foi o de nozes. “Meu avô abriu a sorveteria em 1935. Já estamos aqui há 83 anos”, disse Mônica dos Reis, a neta atualmente no comando. Curioso que as pessoas vão à sorveteria e perguntam genericamente pelo Valentim. Assim, os homens da família que acabam dirigindo a sorveteria meio que assumem informalmente o nome. Uma espécie de dinastia dos Valentins.

Da sorveteria, numa espécie de festim glicêmico irresponsável, estiquei até a doceria da simpática Dona Luiza Alves, que aos 86 anos, segue trabalhando e há 58 anos faz, junto com sua filha, doces cristalizados cuja fama já se espalhou há muito tempo. Doces de leite, cristalizados de abóbora e de figo, e uma deliciosa e firme geleia de cachaça. Comer uma barra de 200 gramas dessa geleia, debaixo de um sol infernal e atmosfera abafada, foi uma ideia muito ruim, que paguei com uma dose extra de cansaço, suando copiosamente em grande desconforto e pressão um pouco baixa. Levei mais de uma hora para recuperar as energias e superar o episódio. Aproveitei esse momento de cansaço e mal estar para descansar um pouco: fui ao Lago do Major e lá tomei o teleférico, que faz uma subida de uns dez ou doze minutos, passando por cima do lago e da copa das árvores. Além de descansar uns minutos ao ar livre e receber um pouco do vento, foi meu voo de drone, que me proporcionou alguns visuais amplos e permitiu que eu fizesse fotos a partir de uma posição mais elevada.

No dia de minha visita a cidade, às 18 horas houve um desfile de quatro blocos de congada, o verde, o vermelho, o azul e o amarelo. Um pouco antes do horário eu já estava a postos. Em poucos minutos, saíram os blocos, tocando e cantando no trajeto que sai da igreja Matriz e vai até a Igreja do Rosário, uma reta de uns 500 metros de comprimento. O desfile, colorido e musical, foi assistido por um punhado de gente nas calçadas.

Já passava das 19 horas quando deixei o animado desfile da Congada e saí de Atibaia, rumo ao Hotel Voador, um hotel pop up de estilo glamping, que acomoda seus hóspedes em barracas e foca num estilo de viagem com uma pegada mais natural. Para quem ainda não conhece, a expressão Glamping é uma contração das palavras glamorous e camping, ou seja, um camping com mais glamour e melhor estrutura. Retornando ao bairro do Portão, no meio do caminho entre Atibaia e Mairiporã, peguei um asfalto estreito e ziguezagueante, sempre subindo e deixando para trás bairros e construções. A estrada acabou e eu segui por um caminho de terra por mais alguns quilômetros. Cheguei ao Voador nas últimas luzes. Ao descer do carro, já senti o ar bem mais fresco, a 1.300 metros de altitude. Alguns pequeninos brincavam num gramado, numa atmosfera agradável de tranquilidade e acolhimento. Ao redor, apenas a floresta exuberante do Parque Monumento Estadual da Pedra Grande.

Conversei um pouco com as simpáticas proprietárias, Flávia e Thais Borghetti. “Nosso objetivo é despertar as pessoas para algo novo, a partir de arte, culinária, permacultura, agrofloresta e atividades lúdicas ligadas à natureza. As barracas resgatam algo que geralmente deixamos de fazer quando chegamos a certa idade, que é acampar na natureza”, disse Flávia.
Para mim, chegar aquele lugar foi como um prêmio: após um dia infernalmente quente em Atibaia, correndo de um lugar para o outro e suando sem tréguas, após um banho revigorante eu desfrutei de momentos preciosos de quietude ao cair da tarde em uma atmosfera muito mais fresca. À noite, um delicioso jantar vegetariano, uma garrafa de vinho e boas conversas fecharam essa breve viagem à Atibaia com chave de ouro.

Info & By Yourself

Quem Leva
Escapadas Online

Onde Ficar
Hotel Voador – acomodações em barracas espaçosas e confortáveis, uma proposta alternativa de baixo impacto e vivências junto à natureza

Para visitar e fazer
Teleférico de Atibaia
Vale o passeio, com uma agradável vista “aérea” de parte da cidade e do parque sobre o qual o teleférico passa

Orquidário Takebayashi (Orquídeas & Morangos)
Belíssimas orquídeas em exposição e a venda. Perfeito para os pequenos colherem morangos orgânicos e sem agrotóxicos.

Mercado Municipal
Empório Royal, para os amantes de cachaça
(11) 4412 1789

Estação Atibaia (somente para eventos)

Parque Zanoni
Diversão garantida para os pequenos e um aprazível pit stop para os pais, em ambiente tranquilo e arborizado – (11) 4413-4749

Voos de balão
Baiuca Sport – Voos de balão sobre cenários belíssimos de florestas e montanhas – (11) 4411-5869

Festa das Flores e Morangos
Evento de grande sucesso há 38 anos, atrai milhares de turistas a Atibaia
www.facebook.com/floresemorangos

Turismo em Atibaiainfo

Texto e fotos: Johnny Mazzilli

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