Auroras boreais no céu da Noruega

Nos meses do longo inverno norueguês, entre novembro e março, as fascinantes luzes do norte dançam na escuridão da noite, encantando os viajantes que se aventuram por aquelas paragens.

Aurora Boreal na Noruega, Johnny Mazzilli

Minha primeira viagem à Noruega foi no ano de 2002. Fui seguir uma longa corrida de trenós no Ártico norueguês, a 2ª mais longa competição de trenós puxados por cães do mundo, a Finnmarkslopet, que percorre um trajeto de pouco mais de 1.000 km de extensão entre colinas, planícies, vales e rios congelados na região de Finnmark, no extremo norte do país. Após a corrida, fui conhecer um lugar que eu li a respeito pela primeira vez em minha infância, na célebre aventura de Julio Verne, “As 20 Mil Léguas Submarinas”, do submarino Nautilus do Capitão Nemo, que a certa altura da aventura emerge nas águas frias do distante Arquipélago de Lofoten. Essa viagem foi o início de um forte vínculo que criei com a Noruega e que me faz retornar as ilhas sempre que posso. Desde então, estive 20 vezes nesse país maravilhoso, visitando repetidas vezes o arquipélago, bem como uma variedade de outros destinos na Escandinávia.

Ilhas Lofoten, norte da Noruega

De um lugar praticamente desconhecido há alguns anos, as Ilhas Lofoten se tornaram um dos destinos mais cobiçados por viajantes do mundo inteiro na atualidade, atraídos por sua incrível beleza cênica, sua geografia dramática, pelos fenômenos naturais que acontecem naquela região e também por seus aspectos culturais. Lofoten é um destino para aqueles que já viajaram pelo mundo e anseiam por novos cenários e horizontes. As ilhas são o berço da pesca do bacalhau, onde seus primeiros habitantes, os vikings, que desconheciam o sal, secavam o pescado há mais de mil anos exatamente como ainda se faz hoje, pendurando-o ao ar livre, exposto ao vento frio, fazendo com que o peixe seque e endureça como uma madeira e preservando suas qualidades nutricionais por vários anos. Situado na elevada latitude 67º, Lofoten é palco de belíssimos fenômenos da natureza, como o Sol da Meia Noite, quando nos meses de verão o arquipélago fica 24 horas por dia com luz solar. Ou a temporada sombria do Dark Season, quando no auge do inverno, em Dezembro, o sol desaparece e só retorna um mês depois, deixando as ilhas numa penumbra de breves luzes contrastadas e longas horas de escuridão. Mas nenhum fenômeno, por mais exótico, se compara em grandiosidade e beleza à misteriosa aurora boreal, com sua dança de luzes bruxuleantes nas noites polares.

As auroras têm sua origem no vento solar, formado por uma massa de elétrons, prótons e todo tipo de partículas radioativas, expelidos por gigantescas erupções solares. Atravessando os 148,5 milhões de quilômetros que nos separam do Sol, elas viajam por dois a três dias pelo espaço até chegar às proximidades da Terra, quando, atraídas pelo magnetismo dos polos, colidem com os gases na alta atmosfera terrestre, liberando energia luminosa. Geralmente se apresentam em tons de verde, com franjas rosadas e, mais raramente, quando as tempestades solares são mais intensas, em lindos tons avermelhados, mais visíveis nas fotografias do que a olho nu.

Antes de a ciência esclarecer o fenômeno, muito já se especulou sobre as suas origens. Durante séculos, diferentes povos primitivos que habitavam vastas regiões ao norte no planeta faziam as suas próprias interpretações para explicar esse espantoso fenômeno: aparições dos antepassados que vinham aconselhar, divindades da natureza alertando sobre tempos de bonança ou de dificuldades, espíritos malignos trazendo anúncios de tragédias ou conflitos.

Bacalhau no restaurante Borsen Spiseri, em Svolvaer

Por muitos anos, visitei o arquipélago produzindo artigos para revistas e jornais, sobre a pesca do bacalhau, a aurora boreal, a cultura viking ou a deliciosa gastronomia do Ártico, cujo ingrediente principal é, claro, o bacalhau, além de vários outros pescados do Mar do Norte, como o halibut, um primo gigante do nosso linguado, arenques, salmões, caranguejos gigantes e carnes de rena e de alce.

Observar a aurora boreal é uma tarefa que exige certa experiência, como o conhecimento do terreno e das condições climáticas e, importante, uma boa dose de determinação e paciência. Isso porque ela nem sempre acontece comodamente no céu imediatamente acima de nossas cabeças. É preciso caçá-la, dirigindo noite adentro, na escuridão, para procurar os melhores momentos e lugares para observá-la. Links de institutos de pesquisas, de previsão de auroras boreais e aplicativos auxiliam na tarefa de saber quais são os melhores locais e horários, através do cruzamento das probabilidades de sua ocorrência com as condições climáticas imediatas. Às vezes ela está acontecendo, mas o tempo encontra-se nublado e, portanto, não é possível observá-la. Ou, então, temos céu aberto, mas ela não comparece. Por isso, é preciso paciência e constante mobilidade para procurá-la, noite após noite percorrendo os cenários. As auroras podem durar poucos minutos ou várias horas. Podem se manifestar de forma vibrante, colorida e dinâmica, dançando no céu e mudando de formas e tons constantemente – ou podem permanecer pouco tempo, estáticas e sutis. Desaparecem rápida ou lentamente de um lugar e reaparecem noutro, a poucos ou muitos quilômetros de distância.

Aurora boreal nas Ilhas Lofoten

Após 20 viagens fotografando auroras boreais, adquiri experiência, conheci mais lugares para a sua observação no arquipélago e explorei novas áreas na região, como o arquipélago de Vesteralen e a maravilhosa Ilha Senja, a segunda maior ilha da Noruega, mais selvagem e menos habitada, situada um pouco mais ao norte de Lofoten.

Além das auroras, as paisagens da região são espetaculares, formadas por uma geografia caprichosa plena de canais, istmos, baías, montanhas abruptas e pontiagudas, fiordes e uma infinidade de ilhas, onde luzes contrastadas iluminam cenários surreais de forma única. As Ilhas têm, ainda, outros atrativos encantadores, como safáris de águias marinhas, galerias de arte, museus e restaurantes excelentes. Durante o dia, a contemplação e a diversão são garantidas e, à noite, a expectativa é avistar a misteriosa dama da noite.

Ilha Senja, a segunda maior da Noruega

Após 16 anos fotografando as auroras, sempre sozinho, noite adentro, explorando meticulosamente estas regiões selvagens e publicando artigos em revistas do mercado editorial brasileiro, comecei a levar viajantes para comigo compartilhar esse encantamento. Durante nove dias, percorremos as vastidões do norte da Noruega. A viagem começa na linda cidade de Tromso, com uma lúdica experiência de dog sledging, onde cada viajante pilota o seu trenó puxado por cães, pelas colinas suaves ao redor da cidade. De lá, seguimos para o destino principal, as Ilhas Lofoten. Baseados na pequena cidade de Svolvaer, a capital das ilhas, saímos todos os dias para percorrer os cenários, visitando lugares e fazendo atividades, como o incrível safári de águias marinhas, no fiorde de Raftsundet. Visitamos Henningsvaer, uma das mais lindas vilas pesqueira do arquipélago, onde vivem cerca de 550 pessoas. Seguimos para o extremo sul das ilhas, na bucólica vila pesqueira de Å (ô), onde se encontram os cenários mais grandiosos. De Lofoten, seguimos rumo norte, para a maravilhosa Ilha Senja, mais remota e menos habitada. E, todas as noites, perscrutamos pacientemente os céus, aguardando pela aparição da grande dama da noite.

 

QUEM LEVA
Latitudes Viagens de Conhecimento

De 23 de fevereiro a 08 de Março (grupo acompanhado pessoalmente por Johnny Mazzilli)
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Texto e fotos: Johnny Mazzilli

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