Cachaça de boteco é coisa fina, sim senhor!

Como a cachaça premium está conquistando paladares nos botecos brasileiros

(Fonte: Shutterstock)

“A cachaça pode ser envelhecida em mais de 30 tipos de madeira”; “você sabia que uma boa cachaça pode harmonizar com diferentes pratos, de qualquer parte do mundo”; “existe boa cachaça até pra acompanhar o cafezinho depois de uma boa refeição”; “gosto de cachaça extra premium, aquela que envelhece por pelo menos 3 anos em barris de carvalho”. 

Não, essas não são frases de especialistas em cachaça, mas sim de apreciadores e frequentadores de botecos paulistas com prateleiras cada vez mais cheias de rótulos de cachaça. Porém, há algo de novo entre os que estão do lado de lá e de cá do balcão: os produtores estão investindo pesado em rótulos de cachaça premium. 

E o resultado são consumidores que se apaixonam pela bebida no primeiro gole. Segundo a Prefeitura de São Paulo, somente na cidade há mais de 20 mil bares e botecos. A cachaça de uma linhagem premium ainda não chegou a um percentual muito significativo deles, mas reina em alguns espaços mais pontuais.

Para Luiza Saliba, sócia-proprietária do tradicional Rota do Acarajé, o boteco mais cachaceiro do Brasil, o consumidor está descobrindo os rótulos aos poucos; contudo, quando se deixa aproximar do copo, não tem mais volta. “Vale muito a pena conversar trocar experiências, sugerir vender e vê-los amando a novidade”. 

De acordo com a empresária, o que se vê depois de uma boa conversa, sempre acompanhada de algumas das melhores cachaças da casa, é um novo copo cheio à mesa. 

“Para saborear puras, as mais escolhidas são as premiuns de 6 a 12 anos, além de cachaças envelhecidas em jaqueira, jatobá ou a soleira a carvalho 3 anos. Eles saboreiam como um Bourbon”, comenta Luiz Saliba, dona de uma carta de cachaça que tem mais de 1,1 mil rótulos e já se tornou referência absoluta entre apreciadores de cachaça no Brasil e até fora do país.

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Luiza se especializou em receber. E não são poucos os estrangeiros que aportam por lá, atraídos pela boa culinária, com a pegada nordestina e, claro, regada à cachaça de primeira qualidade.

A comida nordestina e a cachaça premium também ditam os sabores no Mandacaru Restaurante e Cachaçaria, em Guarulhos, na grande São Paulo. Com cara de família, mas com pegada de um bom boteco, Anderson Medina não pensou duas vezes ao escolher a cachaça para acompanhar as iguarias que serve por lá. 

Anderson abriu as portas há menos de 3 anos, mas no DNA de sua marca estava lá a bebida com ajuda da Escola da Cachaça, empresa especializada em formar o bom apreciador de cachaça, Anderson selecionou cuidadosamente 48 rótulos que fazem a alegria dos paladares mais exigentes. Para cada prato da casa, haverá pelo menos um dos 48 rótulos à disposição para uma boa experiência sensorial.

Além da Carta de Cachaça, a Escola da Cachaça fez para Anderson uma carta de drinks autorais; e o sucesso absoluto fica por conta da Caipiouro, caipirinha feita com a cachaça Middas Clássica, descansada em tonéis de amendoim do campo e servida com flocos de ouro comestíveis. 

“Quando o ouro chega à mesa, a refeição vira uma festa”, afirma o empresário. Mas a cachaça com ouro não é a única que brilha por lá. “É interessante que, depois de provar algumas opções, a degustação vira uma atividade lúdica, com cada uma das pessoas defendendo sua cachaça preferida e passando seus pontos de vista”, complementa.

O consumidor, seja ele do mais refinado restaurante ou do mais tradicional boteco, busca a experiência. E quando a régua sensorial aumenta, a procura se torna ainda mais intensa; afinal, quem perde facilmente o costume de consumir coisa boa? 

De olho nesse consumidor, o empresário José Santana Junior se juntou aos produtores que apostam em rótulos extra premium de cachaça — aquela que envelhece por no mínimo 3 anos em barris de madeira com menos de 700 litros de capacidade — e é proprietário da Cachaça Guaraciaba, produzida na cidade mineira que tem o mesmo nome. 

“Quando o consumidor experimenta uma cachaça melhor, ele migra de outras bebidas e dificilmente volta”, afirma o empresário, que produz mais de meio milhão de litros de cachaça a cada safra, parte dela destinada à linha premium da marca. 

“Para grande maioria, o destilado nacional se divide apenas entre opções brancas e amarelas”, afirma Anderson Medina. Mas, ao mesmo tempo, junto com empresários como Luiza Saliba e Junior Santana, Anderson move a roda que aos poucos vai mudando a percepção do consumidor. 

Sim, há coisas boas no boteco, e a descoberta que já foi silenciosa está se espalhando rapidamente, deixando um rastro de boa experiência e gostinho de quero mais. Um brinde — com cachaça, claro!

 

Autoria: João Almeida – Jornalista e Sommelier de Cachaça.

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