Califórnia, Vinhas da Terra Dourada

Nem só de lifestyle praiano vivem os felizardos do admirado estado da Califórnia. Em Napa, Sonoma e Mendocino, charmosas rotas enoturísticas mostram que há diversos predicados do velho, no chamado Novo Mundo do vinho

Final de inverno, céu azul e luz energizante na surpreendente São Francisco. Vontade de explorar sua pluralidade, mas tudo tem seu tempo e o foco é outro. Seguimos rumo ao norte e, em menos de duas horas, começa a surgir o cenário que buscávamos: vinhas da região de Sonoma County começam a cobrir vastos campos de um dos terroir mais valorizados das Américas.

Sabíamos que a paisagem seria de desnudas videiras, ainda por despertar após longos meses de hibernação. Não haveria o retrato almejado delas repletas com o verde de delicadas folhas e cachos robustos. Mas a natureza sempre surpreende. Eis que surge uma harmoniosa união entre as pitorescas vinhas cinzentas, com um extasiante amarelo florido de campos de mostardas, que remetem a um cenário quase toscano, onde vastos girassóis se integram a encantadores vinhedos.

Prontamente, Johnny Mazzilli, meu parceiro nesse desbravamento, para o carro e prepara suas lentes para o prelúdio de uma possível foto de capa. Cenário acolhedor de boas-vindas.

É um engano achar que só se deve visitar uma região vinícola no verão, durante a época da colheita. Além de poder sentir a tranquilidade interiorana, sem a bagunça da alta estação, é possível conversar mais tranquilamente com enólogos e ter mais contato com gente da terra.

Energizados, chegamos à pequena e charmosa Sonoma, tendo como base o Fairmont Hotel Spa, o mais luxuoso desse pedacinho da Califórnia. O principal restaurante do hotel conta com uma das mais amplas cartas de vinhos, com 540 rótulos, sendo 450 da região, dos quais 250 são de produtores de Sonoma.

Fairmont SPA Resort, refúgio encantador em Sonoma

“Aqui é a terra do Pinot Noir dos EUA, assim como Napa é a da Cabernet Sauvignon. Porém, apenas 5% do vinho da Califórnia vem dessa área premium. O grande volume surge do centro do Estado”, explica Marc Irving, head sommelier do Fairmont, enquanto sugere ótimas propostas de harmonização com o menu do restaurante Santé.

O hotel fica a poucos minutos de carro do pequeno centro de Sonoma, pacato local onde uma grande praça é rodeada de lojas, restaurantes, queijarias e algumas pequenas bodegas. Charmoso e muito tranquilo fora dos meses mais agitados, como julho e agosto.

Van Williamson, enólogo ‘mago’ de Mendocino

Esse é o espírito do lugar, nada de badalação. A pedida é curtir os caminhos que levam a ruelas interioranas que escondem desde pequeninas vinícolas até propriedades mais descoladas e suntuosas. A recepção é sempre muito profissional e organizada, um retrato da eficiência do país que inventou o termo marketing no mundo.

De posse de um carro alugado, a autonomia é total. Em uma rota segura e muito bem sinalizada, após uma boa pesquisa é possível visitar quatro ou cinco cantinas em um dia. A área chamada Sonoma County compreende uma região de 240 km2, com 400 vinícolas e 18 apelações de origens controladas, chamadas AVAs (American Viticultural Areas), incluindo as valorizadas Sonoma, Alexander, Dry Creek e Russian River Valley.

Para aqueles que não estão dirigindo e querem beber à vontade, há a opção de tours guiados que podem ser customizados, como os oferecidos pela Valley Wine Tours. Eles levam, por exemplo, em propriedades turísticas como a Kunde, no coração de Sonoma. São um dos mais tradicionais e pioneiros, já na quinta geração da família, com 900 hectares de vinhas, com as primeiras vinhas plantadas há 114 anos.

A degustação (tasting) custa US$ 15 e inclui a prova de seis vinhos, dentre eles o Reserve Century Vines Zinfadel 2015, um ótimo exemplar de uma das uvas mais emblemáticas nos Estados Unidos. Depois da apreciação, os turistas são levados para conhecer a cave da Kund, construída como se fosse uma caverna nas entranhas do vinhedo.

No caminho para visitarmos uma proposta antagônica à Kunde, nosso simpático guia, Peter Barbock, mostra algumas áreas que foram afetadas pelos devastadores incêndios que trouxeram temor aos moradores dessa parte da Califórnia, em outubro do ano passado. A área mais atingida pelas chamas foi precisamente Sonoma, mais intensamente em Santa Rosa, onde diversas casas foram destruídas.

Embora a repercussão tenha sido expressiva, Peter lembra que a mídia agiu de forma irresponsável. “Foram cerca de 15 vinícolas afetadas, sendo que apenas algumas tiveram danos severos. A destruição alcançou casas privadas e não o enoturismo e a produção de vinhos, como chegou a ser noticiado”, explicou Barbock. Não há hoje nenhum perigo e nenhuma sequela que afete o turismo na região.

Estacionamos ao lado de um vasto campo de videiras com cem anos de idade. No hectare ao lado, micro parcelas de Syrah, Grenache, Petite Sirah, Zinfandel e Viognier. Trata-se da vinícola que leva o sobrenome de Chris Loxton, um australiano, ex-pesquisador e PhD em física, que agora dedica-se exclusivamente à produção de 36 mil garrafas anuais de vinhos elaborados por métodos orgânicos. “O segredo de Sonoma é a impressionante amplitude térmica que podemos ter em um mesmo dia, além da enorme variedade de solos vulcânicos diferentes em uma área pequena”, explica Loxton, que tem o Syrah como sua grande aposta, em uma terra onde brilha o Pinot Noir.

Pequena Mendoza

Nada disso. Mendocino County não tem semelhança alguma com a terra dos Malbecs argentinos. Trata-se de uma região a noroeste de Sonoma, com uma costa famosa por penhascos belíssimos, com 13 apelações de vinhos e 90 vinícolas. A protagonista é a Pinot Noir, com 50% de produção.

É daqueles destinos para quem gosta de desvendar produtores de alma, paraíso para enófilos caçadores, com vinhos surpreendentes, a preços bem mais atrativos do que a brilhante Napa Valley. Para termos uma ideia, as degustações em Napa podem custar entre US$ 25 e US$ 30 por pessoa, enquanto Sonoma gira em torno de US$ 15 a US$ 20. Já em Anderson Valley, uma das apelações de Mendocino, o valor médio é de apenas US$ 10. Há explicações que envolvem marketing, infraestrutura e também qualidade, mas aqui a chance de encontrar autênticos rótulos por preços justos é bem maior.

A sensação de ruralidade em Anderson é marcante. O centro é uma pequena rua que mescla alguns cafés e hotéis com construções rústicas de madeira, com projetos mais modernos como o da Penny Royal Farm. O espaço é parada obrigatória, onde se mescla o conceito de produção de queijos de cabras, com a proposta de harmonizar seus vinhos com pratos do restaurante contemporâneo, tudo conduzido pela filosofia orgânica.

A alguns passos da fazenda, do outro lado da rua, fica o espaço onde o garagista Phil Jones apresenta seus três exemplares de Pinot Noir, de uma produção de apenas 6.000 garrafas por ano. Outra visita que vale a pena é na charmosa Lichen Estate, na qual, com um pouco de sorte, o visitante poderá ter a degustação conduzida com um sotaque um tanto familiar, pela bela brasileira Ully Povoa, uma jovem enóloga da vinícola butique.
Bem perto dali, a autenticidade do lugar novamente se faz presente. Um pequeno espaço de degustação onde encontramos o simpático e tímido Van Williamson, que divide seu pequeno balcão de vinhos com seu cachorro e alguns visitantes interessados em conhecer os rótulos da Witching Stick Wines. Visitantes felizardos, diante de um enólogo que sabe muito bem o que faz. Seus vinhos são sublimes, com destaque para o Cerise Pinot Noir, o Valenti Syrah e o incrível Zinfadel fortificado, no qual se percebe o toque de mago do talentoso produtor.

Beef Tartar apaixonado pelo Pinot Noir de Anderson Valley

A legendária

É assim que ela é conhecida nos Estados Unidos, e convenhamos, com todos os louros, Napa Valley merece o título. A lenda começa em 1838, com as primeiras vinhas plantadas por George Yount, posteriormente homenageado com seu nome batizando a pequena cidade de Yountville.

O terroir, que hoje contempla 16 denominações de origem, com cerca de 520 vinícolas, é uma das menores do país, engarrafando apenas 4% dos vinhos californianos, mas que representam 27% de todo capital gerado pela bebida no estado. É a força de uma microrregião, encravada em um vale, que em 1976 chacoalhou o mundo do vinho, quando, pela primeira vez na história, um Chardonnay (Chateau Montelena) e um Cabernet Sauvignon (Stag’s Leap Wine Cellars) destronaram medalhões franceses em uma degustação às cegas.

O evento quebrou paradigmas e contribuiu para gerar investimentos e colocar de vez a região produtora na trilha de vinhos de alta gama. O reconhecimento tornou o terroir uma das mais charmosas regiões vinícolas do planeta, com vocação para receber anualmente 3,5 milhões de turistas, sedentos por provar vinhos premiados. A proximidade à cosmopolita São Francisco também é estrategicamente importante. Chega-se a Napa em cerca de uma hora de carro.

Com os holofotes do mundo vínico no vale, talentos foram atraídos, como ocorreu com o premiado chef Thomas Keller, que decidiu fazer da pacata Yountville, de apenas 3.000 habitantes, o celeiro do que viria a se tornar a capital gourmet dos Estados Unidos. Keller é o pai do The French Laundry, restaurante três estrelas Michelin, eleito por dois anos o melhor restaurante do mundo. Considerado prefeito honorário informal da cidade, ele ainda capitania mais três pequenos templos gastronômicos: o Bouchon Bistro, o Bouchon Bakery e o Ad Hoc + Addendum.

Não há como não ter a curiosidade de parar em algumas impressionantes vinícolas fincadas ao longo da famosa St. Helena Highway, onde estão nomes como Robert Mondavi e Opus One, essa última, uma construção contemporânea que destoa dos clássicos Chateaux da região. Em quase todas grandes é preciso marcar a visita e as degustações podem chegar a US$ 70 por três taças de prova, preço cobrado, por exemplo, na Opus One.

Opus One

Embora algumas vinícolas emblemáticas sejam controladas por grandes grupos, 95% das vinícolas de Napa está nas mãos de famílias, com projetos interessantes e que mostram a diversidade de estilo de cada micro terroir. Uma das maneiras mais originais de visitar alguns bons produtores nesse perfil recém-lançado na região, é o passeio nos vinhedos em um ecológico Tuk Tuk elétrico.

A singular experiência foi criada pela americana Michelle Helms e seu marido alemão, Dieter Pietsch. Chef e enófilo, Pietsch possui ótimos contatos e é capaz de customizar o passeio, levando a produtores fora do cenário tradicionalmente turístico, um surpreendente lado B de Napa. No charmoso Tuk Tuk, seguimos até a belíssima propriedade Shadybrook, com um aprazível espaço para um happy hour, além de vinhos de muita personalidade.

De volta à artéria central de Napa, outro lugar bem popular para tomar boas taças no final do dia é a Ashes & Diamonds, vinícola de produção pequena e vinhos muito modernos, cujo prédio lembra espaços descolados do vale do Silício, como se fosse um projeto da Google ou do Facebook. O contraste com cantinas tradicionais mostra o perfil de vanguarda de uma região que sabe valorizar o tradicional, mas segue atenta a tendências e metamorfoses impulsionadas cada vez mais pó consumidores mais jovens.

Para o alto e avante
Napa Valley é uma região com conteúdo e histórias para diversas reportagens. Há tanto o que desvendar em uma área tão pequena de menos de 50 quilômetros por oito de largura que, para enófilos engajados, são necessários no mínimo cinco dias apenas nela. Seja como for, antes de partir para a vibrante São Francisco, sobrevoá-la é preciso. Quase todos os dias, operadoras elevam seus gigantes balões partindo dos pés dos vinhedos próximos à Chandon, em uma experiência cênica especial. É verdade que não é algo exclusivo de Napa. Há passeios desse tipo em diversas regiões vinícolas no mundo, mas a chance de pairar por alguns momentos de contemplação sobre o terroir mais cobiçado das Américas, será sentida com toda a intensidade, principalmente naqueles que admiram cultura e a real essência do vinho.

 

Info & By yourself

 Em Sonoma

Fairmont Sonoma Mission Inn & SPA – Um refúgio charmoso, no coração de uma das mais belas regiões vinícolas dos Estados Unidos.

The Girl and the Fig

Restaurante e bar no formato de antiquário, com toques franceses, descolado e com opções sazonais frescas e informais.

Vinícolas

Kunde 
Loxton
Chateau St. Jean

Tours Guiados

Valley Wine Tours

Outras informações: sonomacounty.com  

Em Mendocino

The Madrone HotelLocal original em Philo (Anderson Valley). Uma antiga loja que consertava rádios e televisão, se transformou em uma propriedade com restaurante, vinícola e pousada com alguns quartos bem aconchegantes. A recepção leva todo jeito de um curioso antiquário.

Restaurantes 

Penny Royal Farm – Além de fabricar queijos de cabra, o espaço da fazenda propõe experiências de harmonização com os vinhos da propriedade.

Bewildered Pig Um dos mais famosos e rústicos restaurantes da região, focado no uso quase exclusivo de produtos de fazendeiros locais.

Vinícolas

Drew Wines

Lichen Estate

Witching Stick

Maryetta Wines

Outras informações: visitmendocino.com

Em Napa

Hotéis 

Meadowood – Ultrapremiada propriedade, chancelada pela Relais Chateaux, é considerada a mais cobiçada de toda região de Napa.

Archer Hotel – Recém-inaugurado, no coração de Napa, a moderna hospedagem conta com ótimo restaurante de carnes, o Charlie Palmer Steak.

Restaurante

The French Laundry – Experiência incrível no restaurante considerado um templo da gastronomia americana.

Vinícolas

Shadybrook Estate

Alejandro Bulgheroni

Durant & Booth

Ashes & Diamonds

Tours
Tuk Tuk nos vinhedos
Laces and Limos

Voos de BalãoBallons Above the Valley

Em São Francisco

Restaurantes

The Saison – Experiência singular provar o criativo menu degustação do talentoso chef Joshua Skenes, que fez do Saison um dos melhores restaurantes do país. Tem três estrelas Michelin, o selo Relais & Chateaux e está ranqueado como o 37o melhor restaurante do mundo, na lista dos 50 Best.

The Slanted Door – Contemporâneo e popular vietnamita dentro do complexo One Ferry Building

City Scape – vale a visita para admirar a vista do roof top bar do hotel Hilton.

Hotel

Four Seasons

Outras informações: VisitNapaValley.com

Os jornalistas do Clube Paladar tiveram o apoio da Visit Califórnia para a produção da reportagem
www.visitcalifornia.com

Texto: Carlos Marcondes / Fotos: Johnny Mazzilli

 

Receba mais conteúdo por e-mail

Veja mais sobre

Posts relacionados