Carta ao leitor: coragem, a vida é agora

Em tempos difíceis – e nos fáceis também –, é preciso pôr as engrenagens para funcionar e recorrer aos prazeres possíveis. Por Viviane Zandonadi

"Só na sequência dos agoras é que você existe". Foto: Pixabay
Coragem: "Só na sequência dos agoras é que você existe". Foto: Pixabay

Lista rápida de luxos emocionais: varar a noite para planejar uma viagem – e descobrir que ela não é impossível. Beber um vinho especial no meio da semana. Transformar o ordinário em extraordinário. Fazer pausa no quebra-pedra diário para um café com conversa e desopilar o fígado – nem que seja café ruim e corpo, cansado, escorado na máquina da firma.

Desligar todas as notificações eletrônicas e, em estado de desconexão, leveza e liberdade, na poltrona preferida, ler um livro bom. Beber um cálice de Porto. Comer um bombom. Esquecer, só para ter o prazer de lembrar, que amanhã é feriado, quando for. Manhãs preguiçosas de domingo. Algodão-doce. Comer nuvens, doces e coloridas? Sim. Por que não?

Clarice Lispector, a verdadeira, e não a fake de internet, escreve em uma crônica de ano-novo chamada Aprendendo a Viver, de 28 de dezembro de 1968: “…só na sequência dos agoras é que você existe.” O tema do texto talvez tenha sido encomendado a ela pela circunstância da data. É possível que o editor do jornal tenha dito, “Clarice, é ano-novo, uma mensagem de esperança…”. Ou ainda ela, sem nenhuma outra ideia e às vésperas das festas, tenha decidido dar um empurrão em seus leitores. Seja como for, ela recorreu a um filósofo, Thoureau, que achava que “o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes”, e ao escritor francês George Bernanos, que “procurava a salvação pelo risco”. Recado: para fazer acontecer seus luxos possíveis, é preciso coragem, portanto. E movimento.

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Nesta edição da revista do Clube Paladar, para inspirar a leitora e o leitor a pôr as engrenagens para funcionar e promover mudanças, falamos da liberdade azul que é viajar de carro da Itália para a Croácia, margeando o Adriático turquesa até alcançar um dos mais interessantes destinos de vinho da atualidade. Convidamos, também, a uma volta pela vinícola do cineasta Francis Ford Coppola, na Califórnia, e acertamos o passo em uma boa conversa sobre naturais, orgânicos e biodinâmicos (o que eles têm de tão especial?). Só? Não. Propomos um café da manhã na cama. Com panquecas fofinhas (e veganas). E ainda tem São Paulo surpreendendo em um guia de vinhos da América do Sul. Os leitores também encontrarão, nesta edição, uma reflexão sobre o sentido das curadorias bem feitas. Mais do que nunca, existe um imenso valor no trabalho de cuidar para que um produto ou serviço (vinho, comida, livro) dê certo para o outro. Para quem está no lugar de “consumidor”, a maior vantagem, além do prazer da hora, é abastecer-se de conhecimento para, sempre que quiser, voar por conta própria. Livre. Simples assim.

Fiquem bem e até junho.

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