Château de Berne

Há 2.600 anos, os gregos trouxeram vinhas para Marselha, hoje a capital da região Provence-Alpes-Côte d’Azur. Por mais de 400 anos os vinhedos foram aprimorados e tinham grande reputação pelo Mediterrâneo

Na época em que gregos trouxeram as vinhas para a região, os vinhos eram de tons claros como os rosés atuais

Estávamos em Cannes e teríamos apenas algumas horas de um lindo dia de verão na Provence até embarcarmos de volta para o Brasil.
Foram cinco dias na região da Costa Azul francesa, onde vimos as pessoas aproveitando a estação sentadas à mesa ao ar livre, tanto no almoço como no jantar. Entre uma salada niçoise, peixes, frutos do mar e grelhados, a combinação frequente para abraçar o clima mediterrâneo e os temperos, como o alho e o azeite, incluía certamente o vinho da região. Testemunhei que à beira desse famoso mar pessoas de todas as partes do mundo se rendem ao charme e ao sabor de um vinho resiliente.

Sim, resiliente é um adjetivo adequado para os vinhos rosés da região da Provence, no sul da França. E como a história do país se entrelaça com a dos vinhos, explico em poucas palavras.
Há 2.600 anos, os gregos trouxeram vinhos e vinhas para Marselha, hoje a capital da região administrativa Provence-Alpes-Côte d’Azur. Os vinhos eram de tom claro como os rosés de hoje. Por mais de 400 anos, esses vinhedos foram cultivados, aprimorados e tinham uma boa reputação pelo Mediterrâneo.

Quando os romanos chegaram, por volta de 150 a.C., a região passou a ser conhecida como Província Romana – eis a origem do nome Provence. Esse povo introduziu os vinhos tintos e não queriam concorrência, dificultando o cultivo dos rosados. Mas em meio a influência romana por mais de 500 anos, os vinhos rosés resistiram. Nessa época, a igreja católica, com suas catedrais e monastérios, prosperou e se espalhou.
À época das cruzadas, por volta do século 11, o conde de Toulouse doou para o abade Saint Bernard Clairvaux, fundador da Ordem de Cister, algumas terras na região perto de uma autêntica cidadezinha francesa chamada Lorgues, que fica a 75 quilômetros de Cannes. Assim como era de costume, os monges fizeram do vinho sua fonte de renda.

Alguns séculos se passaram e as terras do tal abade Bernardo se tornaram o Château de Berne. E foi lá, entre Cannes e Marselha, que optamos por conhecer um pouco mais sobre o vinho rosé, uma instituição provençal.
A Provença e seus vinhos rosados fazem parte da região mais antiga de cultivo de vinhos da França e é a maior região de produção de vinhos rosados no mundo. Não à toa recebe apelidos como “Provence Rose – The Soul of the Mediterranean”, “Provence – The Heart of Rose” ou “Vin Rosé de Provence – Esprit Méditerranée”.

Seus vinhos fazem parte de uma denominação controlada chamada “Côte de Provence – Appelation D’Origine Prótegée – AOP” nos quais 75% dos vinhos produzidos a partir de uvas de qualidade são rosé. E, atenção: os vinhos rosados dessa região controlada são, por definição, secos.

Chegamos para uma visita ao Château de Berne e fomos recebidos pela simpática Margaux Teze-Lassus, uma das guias que acompanham os visitantes. Logo fomos conhecer a propriedade e os caminhos por onde seguem as uvas depois da colheita manual noturna. Vimos que a modernização e a tecnologia empregadas no desenvolvimento dos vários vinhos da casa são complementadas com o conhecimento dos seus cuidadosos enólogos.
Quem acha que rosé é um vinho menor, ainda acredita que esse vinho seja uma mistura entre o tinto e branco. Na França, bem como na maioria do mundo, isso é considerado fraude. Os vinhos rosés são feitos a partir de cepas tintas como Grenache, Cinsault, Syrah, Sémillon e Cabernet Sauvignon. O desafio é determinar quanto tempo os viticultores deixarão as cascas e as sementes fermentarem com o suco da uva. Geralmente, esse contato dura de três a seis horas. Isso é o que determina a cor do rosado e a estrutura dos taninos. A temperatura mais fria durante esse processo é também muito importante para manter os aromas. Durante a nossa degustação, experimentamos seis rosés, um branco e um tinto.

Começamos pelo Les Oliviers AOP Côtes de Provence 2017 com aromas fortes e um frescor de damasco e pêssego. Em seguida, foi a vez do Emotion AOP Côtes de Provence 2017, um rosado numa garrafa em curvas com o formato típico da Provença. Tem um sabor balanceado que lembra morangos e framboesa. A revista Wine Enthusiast lhe dá nota 86.
O terceiro vinho degustado foi o Terres de Berne AOP Côtes de Provence 2017 em sua famosa garrafa quadrada e sabor frutado com notas de grapefruit, pêssego e manga. Um vinho de 90 pontos na mesma revista.

Passamos para o Château de Berne, AOP Côtes de Provence, Rosé, 2017 com 91 pontos na publicação. Tem um buquê presente e sedutor com notas de pêssego, frutas silvestres e cítricas. É um grande prazer degustar este vinho!

O branco que experimentamos foi o Château de Berne, AOP Côtes de Provence, 2014 de cor amarela intensa e sabor de frutas exóticas. O último foi o Château de Berne, AOP Côtes de Provence, um tinto de 2014 que tem tonalidade violeta, sabor de frutas escuras, como cereja madura e um retrogosto persistente. Jovem, intenso e bom!
Já com a alma agradecida com tantos sabores degustados, entramos no clima provençal. Fomos passear pela propriedade cuidadosamente pensada para receber os viajantes e os amantes do vinho. Aqui é fácil se interessar pela história, viver o clima e o sabor da região mediterrânea.

Conversando com Margaux, concluímos que o apreciador de vinhos busca produtos com personalidade. E os administradores do Berne precisam posicionar seus produtos de forma a atender novos mercados que demandam cada vez mais vinhos rosados. Quarenta por cento dos rosés produzidos aqui são exportados. Nos Estados Unidos, por exemplo, as vendas crescem dois dígitos há mais de 10 anos. Na França, acredite, o mercado do rosé já é maior do que o do branco. Dessa forma, podemos entender por que empresários investem há décadas nessa produção. O caso do Château de Berne é um exemplo. Desde o século 18 a propriedade é privada e passou por alguns donos, como a família Estellon, que reformou os plantios, a publicitária parisiense Madame Smeets, que trouxe ao lugar a elegância, o inglês Bill Muddyman, que ampliou a quantidade de vinhedos, modernizou a produção e reformou a adega.

Desde 2007, o bilionário britânico Mark Dixon (fundador e CEO da Regus – dos escritórios virtuais e co-working) leva o conceito do turismo enológico para outro patamar.
O Château de Berne promete agradar o visitante de várias formas. Seus vinhos são delicados, frutados e muito versáteis. Para tanto, ele abriga o restaurante Le Jardin de Benjamin, que tem uma estrela no Guia Michelin e um bistrô Bib Gourmand, em ambiente tranquilo e acolhedor. Assim, sua carta de vinhos pode ser apreciada em alto estilo ou de forma casual durante o ano todo. O Château produz três milhões de garrafas por ano, incluindo as uvas fornecidas pelos melhores parceiros da mesma Appelation.

Os povos com mais cuidado em preservar suas histórias tendem a condensá-las em símbolos visuais, como os brasões. O símbolo do Château de Berne foi desenvolvido para contar a história dessas terras. O tema central remete à religiosidade com o rosto do abade Saint Bernard, os raios representam o sol intenso da região, o longo pescoço remete às vinhas, as mãos lembram o esforço da colheita das uvas, as duas faixas azuis representam os dois rios que cortam a propriedade, o cachorro à esquerda simboliza a lealdade e o leão à direita significa força e as flores de lis remetem à nobreza. Enfim, o brasão é a síntese dos costumes e valores dos que moram e trabalham nesse território. Atualmente, talvez seguindo uma tendência do comportamento contemporâneo, os rótulos do Berne têm uma imagem mais minimalista, com traços finos e sem cor, priorizando somente a imagem da cabeça e dos raios do sol.

Nosso almoço foi no ótimo e charmoso Le Jardin. Degustamos o Château de Berne, AOP Côtes de Provence, Rosé, 2017 com uma saborosa truta grelhada da região do Alto Var. Uma combinação perfeita.
Para atender ainda mais o degustador de seus vinhos, Dixon, um apaixonado pela região, abriu um hotel com a chancela da conceituada rede Relais & Châteaux e o SPA Cinq Mondes. E, para aqueles com um pouquinho mais de tempo, é possível ter aulas de culinária. Aqui é possível experimentar perfeitamente o conceito francês de joie de vivre!

A ambientação em tons de terra e a decoração de madeira nos fazem sentir que pertencemos ao lugar. A paisagem das árvores e dos vinhedos nutre a alma. Tive a nítida sensação de querer ficar ali passeando perto das lavandas e curtindo o sol do verão provençal. Foram poucas as horas que passamos ali, mas saímos revigorados.

Quem ainda não descobriu os encantos do vinho rosé está atrasado. Mas, se está difícil acreditar no espírito festivo de um vinho rosa, fresco e jovial para ser apreciado em qualquer ocasião e a qualquer época do ano, há uma solução: vá à Provence e deguste o espírito mediterrâneo in loco!

Vinhos Château de Berne podem ser encontrados no site do clube paladar.

 

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