Ecos de Mendoza

Uma nova leva de excelentes Malbecs vem surgindo no horizonte mendocino

O assunto que quero falar não é uma novidade, mas sim algo que vem acontecendo aos poucos por lá, ainda por ser consolidado. Como muitas coisas no mundo do vinho, as mudanças não acontecem da noite para o dia. Falar de Mendoza é falar de Malbec, é claro, e geralmente são abordadas diferentes expressões dessa uva incrível, mas não raro tais expressões encontram-se circunscritas a um arco de estilos tradicionais, ou seja, vinhos muito extraídos, frutados, alcoólicos, com presença marcante de madeira e, não raro, doçura presente.

Por muito tempo, a partir dos primeiros momentos da evolução da uva Malbec em Mendoza, os produtores da região fizeram seus vinhos para que caíssem no gosto do mundo. Em linhas gerais, por melhor elaborados que fossem, eram quase invariavelmente tintos mais opulentos, mais parrudos. Importante observar que ser parrudo não é, a priori, um problema, mas sim um estilo de vinho.

Após mais de 20 anos de vinhos elaborados ao gosto do mercado mundial, uma nova leva de Malbecs vem surgindo no horizonte. Os mendocinos começaram a ganhar mais espaço no mercado mundial e usaram isso para desenvolver sua identidade e filosofia próprias e expor conceitos diferentes dos tradicionais rótulos. Experimentos como fermentação em ovo de concreto, em tanques italianos de cimento e cada vez menos uso de madeira são alguns dos recursos empregados nessa relativamente recente busca de identidade própria e “despadronização” dos Malbecs. Muitos viticultores já abandonaram aqueles longos períodos de 12 e de 18 meses de amadurecimento em barricas de carvalho para apostar em Malbecs menos alcoólicos e com uma pegada mais leve. Todo esse esforço vem se refletindo em vinhos que começam, aos poucos, a exibir de outra forma, possivelmente mais genuína, a identidade de seus territórios. Começa-se a perceber melhor a influência dos solos na bebida. Acho tudo isso belíssimo e muito salutar, uma evolução emocionante em um ambiente pujante de vinhos.

Como não poderia deixar de ser, tem havido queixas de apreciadores dos Malbecs tradicionais, que eventualmente, ao se depararem com alguns desses novos espécimes, dizem: “Mas isso não parece ser um Malbec, Malbec mesmo”. Sinais dos tempos.

Outra uva que eu acredito que ganhará cada vez mais espaço na enologia da Argentina, mais especificamente em Lujan de Cuyo, uma sub-região de Mendoza, é a Cabernet Franc. É incrível como essa uva maravilhosa pode expressar nos vinhos os aspectos do terroir e, ao mesmo tempo, preservar suas próprias características. Em uma recente viagem à região, experimentei várias coisas novas que me deixaram uma excelente impressão. São provas inegáveis de um novo ciclo de mudanças vindo por aí, a partir da excelente adaptação da Cabernet Franc na sub-região mendocina de Luján de Cuyo.

Além de todas essas novidades, gostaria de aproveitar o ensejo para sugerir aos leitores três diferentes restaurantes para uma viagem a Mendoza. Um deles é um clássico, o segundo é uma “semi” novidade e, o terceiro, aberto recentemente. Para começar com o clássico, um restaurante que eu acho que se deve ir a uma viagem é o Francis Malman, com suas carnes magníficas, de diferentes cocções, sempre preparadas na brasa, num ambiente muito charmoso, bonito e um tanto formal.

O segundo restaurante é da esposa de Francis Malman, que se chama Maria Antonieta. Uma comida impecável, servida em um ambiente menos formal e a preços mais acessíveis. E o terceiro foi o que eu mais gostei, que me deixou uma ótima lembrança. Chama-se Zampa, um típico restaurante de ambiente simples, atendimento despojado e natural, uma comida maravilhosa e, olha só, ainda por cima preços excelentes. Imperdível para quem vai a Mendoza.

MASSIMO LEONCINI é o sommelier chefe do Clube Paladar, responsável pela seleção dos vinhos sugeridos aos leitores em nossas páginas.

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