Entre o mar e os vinhedos

Adelaide, na Austrália, tem atrações para o ano todo e localização privilegiada: o litoral e as encantadoras vinícolas estão a 30 minutos do centro. Por Adriana Moreira, do Viagem

Glenelg Beach é a praia mais próxima do centro de Adelaide e tem a faixa de areia mais disputada. Nem precisa de carro. O tram leva até lá em uns 30 minutos. No verão, a cidade é palco para shows ao ar livre, festivais, feirinhas. Outra fácil de chegar, mas mais tranquila, é Henley Beach, bem pertinho do aeroporto, ao norte de Glanelg. Com mais tempo, se aventure rumo aos balneários da Fleurieu Península, próxima ao McLaren Vale e a Langhorne Creek. Ou passe por ali em uma eventual road trip até Melbourne (vá pela Great Ocean Road, na costa, em cinco dias). Foi nessa região, em Victor Harbor (a pouco mais de 1h de Adelaide), que passamos um dia frio, mas ensolarado.
VIAGEM DE PRAIA Glenelg Beach é a praia mais próxima do centro de Adelaide e tem a faixa de areia mais disputada. Nem precisa de carro. O tram leva até lá em uns 30 minutos. No verão, a cidade é palco para shows ao ar livre, festivais, feirinhas. Outra fácil de chegar, mas mais tranquila, é Henley Beach, bem pertinho do aeroporto, ao norte de Glanelg. Com mais tempo, se aventure rumo aos balneários da Fleurieu Península, próxima ao McLaren Vale e a Langhorne Creek. Ou passe por ali em uma eventual road trip até Melbourne (vá pela Great Ocean Road, na costa, em cinco dias). Foi nessa região, em Victor Harbor (a pouco mais de 1h de Adelaide), que passamos um dia frio, mas ensolarado. Foto: iStock

A brisa que sopra do mar em direção às montanhas nos arredores de Adelaide é como um afago para as uvas. Beneficiadas pelas estações bem marcadas e um clima de noites frias e sol em abundância, Shiraz, Pinot Noir, Chardonnay, Malbec e outras variedades se transformam em vinhos de qualidade e sabor aclamados em toda a Austrália – e também fora dela. Ao todo, 200 vinícolas se espalham pelas regiões produtoras de Barossa, McLaren Vale e Adelaide Hills.

Embora menos procurada do que Sydney ou Melbourne, a capital do Estado de South Australia é uma cidade atraente, com boas opções turísticas no inverno ou verão. O mar está a apenas 30 minutos do centro. As montanhas repletas de vinícolas e pousadas, também. Entre ambos, fica essa pequena grande metrópole de 1,2 milhão de habitantes (a Austrália toda tem 24 milhões) cuja arquitetura sempre flertou com a modernidade. Adelaide é a primeira cidade planejada da Austrália – os colonizadores chegaram ali em 1836. Um deles, Colonel William Light (espécie de Niemeyer britânico) foi o responsável por escolher onde se instalaria e como ficaria disposta a cidade. Desenhou um retângulo, com um centro formado basicamente por 11 largas avenidas principais e outras seis paralelas, e cinco praças distribuídas entre os quarteirões cortados por ruas menores. Ao redor disso tudo, um cinturão de parques, o Ring.

Ao norte, o Rio Torrens serpenteia entre os parques e marca a região que vem passando por uma transformação arquitetônica e paisagística. Em meio a essa área verde surgiram, nos últimos anos, um moderno centro de convenções, uma casa de shows e um estádio esportivo. Quem se hospeda no centro pode ir a todos eles a pé ou de bicicleta, já que a cidade é plana e há pontos de empréstimos de bikes por toda a zona central.

GASTRONOMIA

Dentre as muitas atrações do centro ao alcance de uma caminhada, destaca-se o Queen Victoria Market. Ainda que não tenha a aura gastrohipster do homônimo em Melbourne, ele tem seu valor. Comi ali as maiores (e mais saborosas) uvas que vi na vida, mas poderia ter sentado também em um dos 26 cafés, restaurantes e bares do local. Outra possibilidade é atravessar a rua e jantar em Chinatown, o bairro chinês. Nos arredores da Gouger Street, ficam os restaurantes especializados em comidas asiáticas, a exemplo de japonesa, chinesa, coreana, vietnamita e tailandesa. Se quiser algo mais moderno, siga para o extremo leste, perto da Hindley Street. Entre brechós, galerias e lojas interessantes (adorei a Urban Cow, de decoração), há bares e restaurantes modernos e de ótima qualidade. Um deles é o Africola, que tem menu de levada africana. Tudo ali é encantador: a decoração, o cardápio e os pratos – vale pedir porções menores para compartilhar e compor uma refeição mais variada. À mesa, merecem uma menção os mexilhões (AU$ 24 a porção ou R$ 63), pelo sabor, e a couve-flor, pelo inusitado: ela vem inteira, temperada com especiarias. É servida junto de tahine e fatiada como se fosse um bolo. Custa AU$ 19 (R$ 50).

Mais perto do centro propriamente dito, a Hindley Street tem outra atmosfera. No trecho entre a King William St. e a Pulteney St., ela é um shopping a céu aberto, exclusiva para pedestres. Em meio a magazines, mercados e lojas de lembrancinhas made in China, artistas de rua de habilidades variadas se apresentam. Experimente também fazer a pé esse mesmo trecho, mas indo pela North em vez da Hindley. Ali fica uma espécie de pool cultural, formado pela Universidade de Adelaide, a Biblioteca Estadual, a Art Gallery of South Australia e o South Australian Museum. Todos cercados por muito verde. Vou ser honesta: não me apaixonei por Adelaide à primeira vista. Peguei dias chuvosos, vento e frio – sem bagagem, que só chegou no dia seguinte. Mas, aos poucos, a cidade me conquistou. Como se a cada nova descoberta eu recebesse um afago no coração. Talvez por isso as uvas cresçam tão bem por ali.

GRANITE ISLAND
GRANITE ISLAND O barco não é a única forma de visitar a Granite Island. Os carros ficam no continente, e é preciso caminhar 630 metros por uma antiga ponte para chegar à ilha. Não quer andar? Há uma carruagem sobre trilhos, do século 19, que leva ao outro lado – custa AU$ 7 (R$ 18) para adultos e AU$ 5 (R$ 13) para crianças. Uma vez na ilha, há diversas trilhas – a principal leva a um mirante. Pelo caminho, há dez esculturas que fazem parte do projeto Sculpture by the Sea, que seleciona obras a serem expostas em balneários do país – como o hambúrguer do australiano James Dive, cujo nome oficial é What a Tasting Looking Burger. Algumas são temporárias, e acabam substituídas depois de seis meses. Depois da caminhada, um bom lugar para parar é o Flying Fish Cafe (flyingfishcafe.com.au), a 10 minutos de Victor Harbor. Com mesas externas e internas, tem a informalidade da praia, mas serve pratos caprichados. As vieiras frescas ao aioli de wasabi, gengibre e limão foram memoráveis. De prato principal, o fish and chips com batata doce frita tem preço salgado (AU$ 36 ou R$ 94), mas deixou saudades. Foto: iStock

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MCLAREN VALE
As vinícolas ao sul de Adelaide têm atmosfera mediterrânea e vinhos de alta qualidade

• D’Arenberg

A visita à vinícola D’Arenberg é uma mistura de emoções e sensações, e a certeza de que bons vinhos são apenas uma das suas muitas formas de arte. Na quarta geração de vinicultores, Chester Osborn é um excêntrico colecionador, que transformou o prédio de degustações em uma obra por si só. Lá dentro, instalações dão um clima de filme de David Lynch, algo tão surreal como alguns dos pratos servidos. As cerejas perfeitas, que na verdade são esferas de gelatina recheadas de musse de foie gras, são apenas uma amostra do que virá a seguir. Para visitar, são cobrados AU$ 10 (R$ 26), com uma bebida de cortesia. Para embarcar no inventivo menu, pagam-se AU$ 190 (R$ 500) mais AU$ 75 (R$ 197) a harmonização com vinhos.

• Beresford

Vinícola clean, de ares refinados, a Beresford agrada a quem quer curtir o clima de campo, mas de salto alto e maquiagem. A ampla e aberta área de degustação fica em um galpão elegante, com panorâmica para os vinhedos. Os vinhos elaborados com Shiraz são a especialidade. As degustações começam em AU$ 25 (R$ 65).

• DogRidge

Pequena e simples, a DogRidge é uma vinícola familiar – e dá para se sentir em casa visitando o local. Há uma certa bagunça na sala de degustação, com caixas aqui e ali, e o clima é de acolhimento e diversão. Afinal, eles preferem mesmo montar as mesas do lado de fora e fazer da prova um grande piquenique. Os preços começam em AU$ 5 (R$ 13) por pessoa. O nome da empresa celebra os cachorros da propriedade. Toda vinícola tem o seu (ou seus) cães, sempre amigáveis.

• Maxwell Wines

Almoçamos no restaurante com vista para os grandes vinhedos. Os pratos são individuais e o menu de quatro tempos custa AU$ 80 (R$ 210) por pessoa. O de sete sai a AU$ 95 (R$ 250).

• Hugh Hamilton A casa tem 180 anos, está na sexta geração familiar e, pela primeira vez, tem comando feminino. A CEO é Mary Hamilton. A sala de degustação, redonda, no centro dos vinhedos, oferece uma vista única. O vinho mais desejado é o Saperavi, de uvas antigas trazidas da Geórgia no século 19 (AU$ 150 ou R$ 395). A degustação, sem direito a ele, custa a partir de AU$ 10 (R$ 26).

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ADELAIDE HILLS
Entre estradinhas de terra e pinheiros, surgem bons produtores de vinho e de gim

VINHEDO: paisagem vinícola em Adelaide Hills, na Austrália. Foto: Pixabay
VINHEDO: paisagem vinícola em Adelaide Hills, na Austrália. Foto: Pixabay

• Unico Zelo

Ainda sentia o café da manhã no estômago quando chegamos à Unico Zelo. O dia estava frio e chuvoso, o grupo todo estava sonolento e beber não parecia exatamente a solução para aquele estado de ânimo. O atendente percebeu: ofereceu café e chá a todos e, aos poucos, recobramos as forças. Diferentemente da maioria das casas de Adelaide Hills, a especialidade ali não são vinhos, e sim gins e outros destilados. Trata-se de um espaço familiar, criado pelo casal Bren e Laura Carter – dá para conhecer a pequena produção nos fundos e inspirar os diferentes aromas que surgem dos barris. Há três tipos de degustação, deAU$ 10 (R$ 26), AU$ 15 (R$ 39) e AU$ 20 (R$ 52) – fizemos a segunda opção, que além dos gins inclui a prova de outras bebidas produzidas ali, como o limoncelo da casa (aliás, meu favorito) e até o inventivo Expressocelo (houve quem gostasse). Não sou fã de gim, mas o tradicional da casa, o Aplewood Gin, me conquistou, e o Z Z Z também tinha um sabor delicado. É preciso fazer reserva pelo site antes de ir.

• Ashton Hills Vineyard

O clima é de informalidade – o antigo bar do século 19 que serve de tasting room parece a sala de uma avó do interior, com sofá rente à lareira e um bar com balcão. A simpática Jo nos recebeu com Pinot Noir, a especialidade da casa. Dá para ver os parreirais da janela. A degustação de sete rótulos custa AU$ 85 (R$ 223).

• Summertown Aristologist

Menu escrito em lousa e mesas comunais já denunciam a atmosfera hipster. Produtores de Adelaide Hills criaram o Summertown Aristologist com a premissa de oferecer vinhos 100% orgânicos. O restaurante tem pratos delicados e menu que privilegia ingredientes cultivados na região (o famoso farm to table). Por esse motivo, muda constantemente. Quando estive lá, a lula temperada com coentro e limão (AU$ 18 ou R$ 47), a abóbora ao shoyo e couve (AU$ 17 ou R$ 44) e o mix de grãos mais couve, burrata e romã (AU$ 14 ou R$ 37) se destacaram. O suco de abóbora, sazonal, também fez sucesso.

• Lost in a Forest

Uma antiga igreja deu lugar a um bar descolado, que serve pizzas disputadas por grupos de amigos e famílias nos fins de semana, e vinhos produzidos por um dos sócios do empreendimento, Taras Ochota. Foi para pedir instruções para chegar à casa de Ochota que descobrimos o espaço de culto aos bons sabores e à boa música. Ele nos esperava no galpão de sua casa – onde Mick Jagger, dos Stones, também esteve – para provar, direto dos barris, vinhos que expressam a personalidade de seu produtor. São sabores simples e, ao mesmo tempo, intensos e repletos de criatividade. A começar pelos rótulos, com nomes como She’s Lost Control (Ela Perdeu o Controle), Impeccable Disorder (Desordem Impecável) e Weird Berries in the Woods (Frutinhas Estranhas na Floresta). Como a casa de Ochota não é aberta à visitação, pare no Lost in Forest para provar seus vinhos. Foram os meus favoritos da viagem.

• The Lane

Nos sentamos ao janelão em frente aos vinhedos, para a degustação. Vale a pena fazer a de AU$ 15 (R$ 39), abatidos nas compras acima de AU$ 65 (R$ 171), que dá direito a provar quatro rótulos, ou a de AU$ 20 (R$ 52), que inclui petiscos para acompanhar a prova.

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LANGHORNE CREEK
Predominam os ares toscanos: construções antigas, mesas ao ar livre e grandes vinhedos

• Bremerton Wines

O clima, a história, os vinhos: a Bremerton foi uma das minhas vinícolas favoritas. A antiga casa de pedras que pertence à família das irmãs Rebecca e Lucy Wilson (que hoje comandam o negócio) deu lugar a um bar aconchegante. Os vinhos ali são premiados todos os anos. A especialidade da casa são os Cabernet Sauvignon, mas eu me encantei pelo sparkling Shiraz (AU$ 25 ou R$ 65 a garrafa), um vinho que tradicionalmente faz parte da mesa de Natal australiana. Degustações são agendadas e o valor depende do número de pessoas. Tem restaurante.

• Lake Breeze

A atmosfera traz uma paz imediata. Do andar superior do restaurante, a vista dos vinhedos é um bálsamo para a alma. O ambiente à la Toscana é complementado na cozinha, de onde saem arancinis (AU$ 14 ou R$ 36) e um delicioso nhoque ao molho de cogumelos (AU$ 24 ou R$ 63)

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PARA QUANDO VOCÊ FOR
Coordenadas e bons hotéis

COMO CHEGAR

Adelaide está a 1h30 de avião de Melbourne ou Sydney. Para ter uma ideia, a Latam oferecia em novembro voos a partir de R$ 5 925, ida e volta (São Paulo – Sydney). Com escalas.

ENTRE VINÍCOLAS

É possível alugar carro, mas a mão é inglesa (e você vai querer beber). Invista em tours; há várias empresas especializadas, como a Barossa Taste Sensations ou a Life is a Cabernet.

ONDE FICAMOS

• Mayfair Hotel

Instalado em um prédio histórico com excelente localização no centro de Adelaide, o Mayfair prima pelo conforto e atendimento. No frigobar, tudo (tirando um ou outro vinho) está incluído na diária. Outro destaque é o café da manhã, de bufê amplo e uma mesa onde estão dispostos diferentes tipos de mel de produção própria. Os quartos são modernos e amplos. Vale passar no Hennessy, o elegante rooftop bar no 13º andar. Diárias a partir de US$ 209 (R$ 770) o casal, com café.

• Australasian Circa

Em uma casa de 1858, esse hotel- -butique na cidade litorânea de Goolowa tem apenas cinco quartos. O meu tinha janelas com vistas diferentes e hidromassagem. Na noite anterior, você escolhe o café da manhã (tudo fresco, produzido localmente) e o carrinho será deixado em sua porta. O jantar preparado por Juliet, a proprietária, é digno de um restaurante cinco estrelas. O pacote de fim de semana, com dois jantares e café da manhã, custa a partir de AU$ 970 o casal (R$ 2.500).

• Beach Huts

Numa área tranquila de Middleton, entre Goolowa e Victor Harbour, esses chalezinhos equipados com cozinha se encaixam bem no clima praiano. Cada um tem decoração e tamanho diferentes; as diárias começam em AU$ 160 (R$ 416).

Preços apurados em novembro de 2018. Consulte operadoras.

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