Entre Vinhos e Vulcões no Chile

Uma breve incursão a Errazuriz, no belíssimo Vale de Aconcágua, e uma visita a uma exuberante região do Chile onde o vinho, em breve, florescerá.

Vinhedos da Errázuriz

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Logo no desembarque, em Santiago, foi imediata a sensação de que era uma noite estranhamente quente para um mês de junho. A região, tradicionalmente seca durante todo o ano, nessa época enfrentava uma seca acima da média, e um dos reflexos era a temperatura anormalmente alta para a estação. O dia seguinte seria longo e dedicado a conhecer uma das vinícolas mais icônicas do Chile, a Errázuriz.

Após uma noite em Santiago, na manhã seguinte deixei a cidade rumo a Panquehue, no vale de Aconcágua. Logo ao sair da capital, começaram a surgir em toda parte vastas plantações de Palta (abacate), frequentemente plantados até cotas bastante altas nas montanhas. Os chilenos consomem quantidades astronômicas da fruta e colocam-na em tudo, nas saladas, nos sanduíches, nos guacamoles e, acredite, até em pizzas. Muitas vezes, os vinhedos vão até certa cota e, dali pra cima, só dá abacate. Diferentemente dos abacateiros naturais daqui do Brasil, que dão frutas grandes em árvores que às vezes atingem 15 metros de altura, nas plantações chilenas o abacate é de uma variedade menor, cuja árvore não vai além de dois ou três metros de altura. Como os terrenos são muito inclinados, há uma estradinha que serpenteia entre cada punhado de fileiras de árvores, caso contrário a colheita seria algo inviável. Além do maciço consumo interno da fruta, o Chile é um de seus maiores exportadores mundiais.

Sede da Vinícola Errázuriz

Após 120 km de estradas, cheguei à Errázuriz. Fazia uma manhã luminosa, sem um fiapo de nuvens no céu e sem vento. Após uma breve visita à bela e ampla sede histórica, saímos para ver a grande e moderna adega principal, cercada de vinhedos que, nessa época do ano, estavam com suas folhas vermelhas e que, em breve, cairiam com a chegada do frio. Em seguida, demos uma volta nos vinhedos ao redor. O agradável frescor da manhã começava a dar lugar a um dia quente até demais para junho. De volta à vinícola, degustei seis rótulos bastante significativos.

Don Maximiano Errázuriz plantou as primeiras vinhas ainda em 1870. Era um homem com grande visão de futuro e espírito empreendedor, que não se intimidou diante das dificuldades da época. Pouco mais de um século depois, seus descendentes levaram a vinícola a um status mundial de reconhecimento e qualidade, e seus vinhos são hoje muito apreciados em dezenas de países. Mesmo tendo crescido e adquirido grande projeção internacional, a vinícola mantém a tradição de um empreendimento familiar. No Chile, ela está entre as mais tradicionais e respeitadas do país e, em 2015, a vinícola celebrou 145 anos de existência.

Pedro Contreras, enólogo da Vinícola Errázuriz

 

Ao sul
No dia seguinte tomei um avião para cidade de Temuco, mais ao sul. De lá, segui imediatamente para a cidade de Pucón, que localizada próxima à base do grande vulcão Villarica, um dos dez mais ativos do mundo e o mais vivo do Chile. A região é de uma beleza selvagem e preservada. Me instalei no tradicional Hotel Antumalal, de onde saía diariamente para incursões aos arredores. Construído em um promontório rochoso às margens do grande lago Villarrica e próximo ao vulcão de mesmo nome, o hotel, com quase 80 anos de existência, recebe hóspedes em busca de relaxamento, de sossego, de atividades na natureza e de boa gastronomia. Suas instalações são discretamente escondidas em meio à vegetação nativa.

Vulcão Villarica

Uma das saídas que fiz foi caminhar até a base do grande vulcão. Apesar de sua constante atividade, o governo chileno mantém o Villarica sob estrita vigilância e monitoramento. Sensores de sismo e de pressão estão instalados ao redor do grande cone branco nevado. Apesar do volume considerável de lava que pode surgir de uma erupção, ele não costuma erupcionar de forma violenta. Por sorte, o Villarica é um vulcão que expele lava, mas não cinzas, o que poderia ser muito pior para a região. A lava tem um alcance previsível, de certa forma, porém as cinzas se espalham por distâncias às vezes impensáveis. A subida foi interessante, através de rios de lava dura. Dependendo do tipo de mineral que dá origem ao magma, sua secagem forma rochas porosas e cheias de cavidades preenchidas com ar, tal como uma esponja. Algumas rochas com 30 cm ou 40 cm de diâmetro, pesam pouquíssimo e, atiradas na água, flutuam. Observando o entorno, é possível ver o estrago que uma erupção causa à vegetação e à geografia local, remodelando os terrenos com sucessivas camadas de lava, que endurece e altera a paisagem, muitas vezes radicalmente. Quando os sensores começam a apontar para um aumento da pressão, um fato cíclico e previsível a cada três ou quatro anos, as autoridades locais fecham o acesso ao parque até que aconteça a inevitável erupção.

Hotel Antumalal

De volta da cansativa e gratificante incursão à base do vulcão, à noite o hotel me propiciou uma pequena e assertiva degustação de vinhos chilenos, de diferentes estilos e procedências. Antes da degustação, fui apresentado ao surpreendente Trä-Kál, nome de um mitológico guerreiro mapuche, um delicioso destilado patagônico. Na elaboração da iguaria, a primeira etapa começa com maçãs e peras frescas. Em seguida, vem um processo de tripla destilação e adição de quatro tipos de bagas e sete ervas nativas da região, que resultam em uma bebida fina e exclusiva (e que me arrependi de não ter trazido uma garrafa).

Após alguns drinques elaborados à base de Trä-Kál e vários goles da bebida pura e somente resfriada, fiquei sabendo de um projeto da etnia local mapuche, que em dois a três anos deve começar a produzir seu próprio vinho na região. As tratativas com possíveis investidores ainda encontram-se em estágio inicial, mas a coisa é dada como certa para os próximos anos. Na degustação, experimentei três vinhos de excelente expressão e diferentes estilos. O primeiro, Kalfu Sumpai, um Sauvignon Blanc delicado, de ótima complexidade aromática e deliciosa mineralidade, típico de solos calcários. O segundo vinho foi um Cono Sur 20 Barrels Syrah, um tinto aveludado e elegante e uma excelente amostra da tipicidade da uva Syrah no Chile. O terceiro vinho foi um tinto soberbo, um corte de Carménère, Cabernet Sauvignon e Syrah, da vinícola Casa Bauzá, que encerrou a degustação com chave de ouro.

Saborosa gastronomia regional no restaurante do Hotel Antumalal

Nas demais noites em que estive no hotel desfrutei de sua excelente gastronomia, com serviço gentil e atencioso e acompanhamento harmonizado de diferentes vinhos chilenos. Um dos pratos tradicionais do local é o saboroso chupe de jaiba (txúpe de ráiba), uma espécie de casquinha de caranguejo, suculenta e substanciosa.

Todo o entorno de Pucón é bastante preservado e o turismo é frequente o ano todo, principalmente durante o verão e na estação de esqui. Pubs, restaurantes, cafés e lojas de artesanatos locais estão sempre cheias de turistas. Um dos estabelecimentos mais interessantes da cidade é o Café Cassis, uma charmosa confeitaria, restaurante rápido e doçaria, que ferve de gente o ano todo. São famosos seus crepes, doces e chocolates quentes. É imperdível também uma passada na pitoresca fabriqueta e loja de flores de madeira dos irmãos Morales.

Fabricação da flor de madeira por um dos irmãos Morales

Deixei Pucón rumo à bela estação de esqui de Corralco, debaixo de chuva constante. A cidade encontra-se próxima à Reserva Nacional Florestal Malalcahuello, em Curacautín, região Araucania. Durante as quase cinco horas de trajeto, choveu moderadamente sem trégua. Depois de uma hora final de subida, chegamos ao hotel e continuava a chover. A previsão apontava boa chance de nevar durante a noite. A temperatura continuou a cair e, por volta de 23h, a chuva começava a se converter em neve, trazida por um vento forte. No começo da madrugada, por volta de 1h, abri a cortina do quarto e vi a neve cair consistente e silenciosa, sem vento algum. Antes do amanhecer, mais uma olhada e vi que ela continuava firme e forte a cair. Percebi que já havia no chão algo como 30 cm de neve, o que não é pouco. Após o café da manhã, saí para uma breve caminhada pelo entorno do hotel, entre araucárias gigantescas. Na volta, comecei a me preparar para deixar a região. Na saída, continuava nevando e já havia quase 50 cm de neve fresca no chão. A euforia dos funcionários era visível, diante da primeira nevasca do ano. Em poucos dias, levas de hóspedes, ávidos por esquiar e caminhar, chegariam a Corralco.

Corralco

De lá, segui direto ao aeroporto de Temuco, onde peguei um voo de volta a Santiago e, em seguida, emendei outro até São Paulo. É sempre gratificante visitar o Chile. E, por mais vezes que eu vá, haverá sempre bons motivos para voltar.

Info & by Yourself

Vinícola Errázuriz

PUCÓN
Onde ficar & Comer
Hotel Antumalal

Imperdível
Café Cassis

Flores de Madeira
Caupolicán 555, B – Pucón
fone: 9 821 56 750

CORRALCO
Corralco Resort

 

Texto e Fotos: Johnny Mazzilli

 

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