Junho de 2019: fala, memória – a revista do Clube Paladar

Nada mal ir a lugares incríveis, comer pratos sofisticados e beber vinhos finos. Mas levamos em nós um gosto forjado na singeleza. Repare. Por Viviane Zandonadi

Nada mal ir a lugares incríveis, comer pratos sofisticados e beber vinhos finos. Mas levamos em nós um gosto forjado na singeleza. Repare. Foto: Pixabay
Nada mal ir a lugares incríveis, comer pratos sofisticados e beber vinhos finos. Mas levamos em nós um gosto forjado na singeleza. Repare. Foto: Pixabay

Em seu prestigioso restaurante três estrelas Michelin na cidade de Lyon, na França, uma temida e destemida cozinheira francesa receberá a visita de uma atriz muito famosa. Todos ao redor estão ansiosos. Para a chef, o desafio do dia parece igual aos outros. Intenso, laborioso, cozinha quente e movimentada. Gestos, ordens, decisões. Expectativas. Cheiros e gostos. Podemos até ouvir, em nossa imaginação, a sinfonia dos bastidores: os passos apressados dos funcionários desviando dos esbarrões para assumir suas praças de trabalho. O chop chop das facas, os caldeirões que borbulham, a atmosfera esfumaçada e os nacos de manteiga que derretem. O chiado da fritura, a música dos metais e dos encontros das louças. Broncas são ouvidas. Corações, partidos. Elogios existem, possivelmente transmitidos e reconhecidos em silêncio.

A chef está decidida a fazer seu prato preferido. Quando conta, a equipe fica incrédula. Sopa de legumes. Sério?

“A atriz chegou, ainda mais bonita ao vivo do que na tela do cinema”, escreve Janaina Tokitaka em A B C Delas (Companhia das Letrinhas; não deixe de ler, para e com as crianças – e por sua conta também). O livro é um abecedário de profissões em que para cada letra há a história real de uma mulher importante em sua área de conhecimento. Esta é a de Eugénie Brazier (1895-1977), cujo restaurante “transformou Lyon em uma das capitais mundiais da gastronomia”.

A convidada pede um vinho e quer saber se Eugénie pode fazer companhia a ela, que não gosta de comer sozinha. Feito.

Janaina Tokitaka continua: “O garçom se aproximou, carregando uma linda sopeira com uma concha de prata. Ele serviu as duas com cuidado. – Minha mãe costumava trazer essa sopa dentro de uma lata – Eugénie começou a dizer, emocionada – quando eu ficava cuidando dos porcos no nosso sítio, no inverno. A atriz pegou uma colher para provar a sopa. Eugénie a impediu. Ela cortou uma fatia de pão de casca grossa e a colocou dentro do prato da convidada. – Pronto. É assim que mamãe fazia. A atriz comeu um pedaço do pão encharcado de sopa. Seus olhos se arregalaram. – É a melhor coisa que eu já comi na vida! Eugénie riu, feliz. – Eu sei! E as duas começaram a conversar, como velhas amigas, sobre comida e sobre a vida.”

***

A sopa que Eugénie Brazier e a atriz famosa comeram era, provavelmente, diferente da sopa que a mãe da chef fazia na roça, no interior da França. Como quem conta um conto, Eugénie é capaz de escrever uma nova história, recorrer ao repertório dos afetos e usar talentos culinários para fazer uma sopa deliciosa, diferente, talvez melhorada (talvez nunca tão boa quanto). Não temos como saber. Apenas esqueça o talher e chuche o pão na sopa. Viu? É bom. Não tem nojinho, horror e frescura. Tem prazer e sentimento. Virar o prato na boca para beber o caldo do feijão? Ora, quem pode imaginar elogio mais eloquente? Se lamber, é ouro puro. Também vale aquela mágica scarpetta, que é deixar a tigela com jeito de limpa, para não desperdiçar nada do molho do macarrão ou da carne de panela. Ai. Ai.

A revista do Clube Paladar chega à edição de junho com este espírito – o das memórias verdadeiras e inventadas, da construção do gosto que nos conduz a experiências tão distintas ao longo da vida. Tomara que nossos passeios por lembranças, vinícolas uruguaias, autênticas comidas de rua asiáticas e pratos e vinhos levem leitoras e leitores para lá de Marrakesh, literalmente.

Boa leitura. Fiquem bem.

(Para ver a íntegra a edição de junho de 2019 da revista do Clube Paladar, clique aqui)

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