Fica, vai ter queijo e vinho

Brasileiros conquistaram 59 medalhas no Mundial da França. Produto da Ilha do Marajó esteve entre os mais admirados. Veja também: sobremesa, harmonização e vinhos do Brasil

Foto: Luiz Henrique Mendes/iStock
Queijo cremoso da Ilha de Marajó, um dos destaques do Mundial da França. Foto: Luiz Henrique Mendes/iStock

A presença do Brasil no Mundial do Queijo de Tours, na França, fermentou e cresceu. O País levou 143 peças para o concurso realizado entre os dias 2 e 4 de junho e conquistou 59 medalhas: quatro ‘super’ ouros, oito ouros, 19 pratas e 28 bronzes. Ao todo, 950 queijos de 40 países foram avaliados pelos jurados.

A participação brasileira foi organizada pela associação SerTãoBras, que levou 36 produtores e comerciantes de Minas, São Paulo, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pará (Ilha de Marajó) e Goiás.

De Minas, foram produtores das associações de Araxá, Campo das Vertentes, Canastra e Serro. Queijo de casca mofada de todas as cores, de cabra, queijo de coalho do Nordeste, recheado, passado no cacau, no óleo de pequi… “A cena do queijo brasileiro não é mais só o Minas artesanal, vemos uma diversidade muito maior”, observou a mestra queijeira francesa Claudine Vigier Barthélemy.

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Este ano, embora predominassem as associações da Canastra (Aprocan) e Serro (Apaqs), com 35 e 24 peças, respectivamente, teve queijo coalho, queijo de cabra do Rancho das Vertentes (ganhou ouro), queijo de búfala da Ilha de Marajó (ganhou prata), os queijos paulistas de leite de vacas Gir e Jersey da Pardinho, como o Cuesta (que ganhou super ouro) e o queijo Sinueiro de kefir da Bela Fazenda (prata).

Um dos queijos que causou mais admiração foi o da Ilha de Marajó, dos produtores Marcus e Cecília Pinheiro. “Essa tecnologia de fabricação é incrível, uma massa láctica desnatada que fermenta naturalmente é dessorada, esfarinhada, enriquecida em creme e cozida”, comentou Laurent Mons, diretor do centro de formação Mons.

A pergunta mais ouvida pelos brasileiros, feita pelos donos de lojas e distribuidores que passaram no estande para provar foi: “quem é o representante comercial que exporta seus queijos?” A resposta: “não temos legislação que valorize esses queijos e permita vender.

(Débora Pereira)


SÓ QUEIJO
Acompanhe no site do Paladar as aventuras lácteas de Débora Pereira na França e no Brasil


SOBREMESA (QUEIJO NO PONTO FINAL)
Avecuia, tâmaras Medjool & favo de mel

Foto: Viviane Zandonadi
Para prolongar o tempo à mesa: queijo de ovelha primo do Brie, tâmaras carnudas e favo de mel. Foto: Viviane Zandonadi


Jantar gostoso e sem excessos em boa companhia e que termina em queijo. Não compensa esquivar-se desse tipo de abertura ao contentamento. Depois de uma rodada de porções para compartilhar – lulinhas ao calor da chapa servidas com aïoli (R$ 45), mandioca grelhada na manteiga queimada mais manjerona (R$ 18) e linguicinhas frescas, laban e conserva de limão (R$ 29) –, a sobremesa da foto (R$ 30) só faz aumentar a satisfação e o desejo de prolongar o tempo à mesa. O queijo avecuia é cremoso, de casca mofada e à base de leite de ovelha. Ao lado, tâmaras Medjool perfeitamente doces (sem enjoar), cremosas e carnudas, e uma dose de mel em seu favo. Com sabor, sem pirotecnia.
Chou: Rua Mateus Grou, 345, Pinheiros. (Viviane Zandonadi)


PONTO FINAL
Mais ideias para adoçar a vida à mesa (mesmo para quem não é ‘formiga’)


ENTREVISTA: Xavier Thuret, mestre queijeiro francês

O mestre queijeiro da marca francesa Président esteve no Brasil em junho. Ele participou de um evento na unidade paulistana da escola Le Cordon Bleu.

O lugar-comum costuma colocar os queijos junto aos vinhos tintos. Tem certo e errado nessa história?
Não existe regra para o prazer do paladar, mas costumo dar algumas dicas: selecionar até três bebidas para harmonizar, assim o paladar não fica saturado; optar por vinhos com menos tanino, porque este se sobrepõe ao queijo e causa atrito de sabores; combinar queijos e vinhos da mesma região. Brie com Champanhe é sempre uma combinação vencedora. As harmonizações com vinho branco são as minhas preferidas.

Quais são os tipos de queijo que o senhor mais gosta de combinar com vinho?
Roquefort e vinho do Porto branco; Beaufort e Chardonnay e Tallegio com Champanhe.

O senhor já provou queijos brasileiros autênticos?
Um dos que eu mais aprecio é o Minas Padrão. Adoro no café da manhã, com o toque adocicado da geleia de morango.


SACA ESSA ROLHA
A coluna de vinhos de Isabelle Moreira Lima no Paladar


ENTREVISTA: Marcelo Copello, presidente do júri do Grande Prêmio Vinhos do Brasil

Marcelo Copello. Foto: Grande Prêmio Vinhos do Brasil
Marcelo Copello: o crescimento, em quantidade e qualidade, está nos tintos do Brasil. Foto: Grande Prêmio Vinhos do Brasil

Os resultados do Grande Prêmio foram divulgados no dia 17/6. Qual foi a maior surpresa neste ano?
O aumento da qualidade, com 37 medalhas de duplo-ouro (contra oito em 2018) e a maior diversidade. Tivemos excelentes vinhos de castas que eu nunca imaginei ver com sucesso no Brasil, como Nebbiolo, Malbec, Alicante Bouchet, Montepulciano, Gewürztraminer e Touriga Nacional.

Qual a maior decepção?
Todo concurso é uma pirâmide, com os melhores no topo e uma base de qualidade menor. Na base, ainda vemos muitos erros básicos de enologia: tintos de pouca estrutura e excesso de extração e de madeira, aroma de estábulo ou de cavalo. Nos espumantes, uma categoria que todos fazem por questão de mercado, há muita redução (aroma de pano de chão sujo), acidez volátil (aroma de vinagre) etc.

O Brasil é de brancos, de tintos ou de espumantes?
Os espumantes estão com mercado consolidado e temos uma elite de produtos de nível internacional. Mas o crescimento, em quantidade e qualidade, está nos tintos. Este ano, foram 373 espumantes com 99 medalhas. Nos tintos, 450 amostras com 164 medalhas.

(Isabelle Moreira Lima)


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*texto atualizado em 13 de julho de 2019, com informações sobre a delegação brasileira no concurso de queijos em Tours, na França

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