Gonçalves é Minas, é logo ali

Gonçalves é montanha, roça e destino para quem valoriza a natureza e a pegada orgânica. Um lugar para desfrutar de alimentação saudável, paz e sossego

Visual da Pedra da Balança, divisa com a cidade de São Bento do Sapucaí, SP

Com 1.350 metros de altitude, Gonçalves é uma das cidades mais altas da serra da Mantiqueira. Os bosques de araucária, os picos e as paredes de pedra reforçam a sensação de altitude. Situada num vale, com inúmeros córregos, ribeirões e cachoeiras, tem clima úmido e temperatura amena no verão.

Um dos atrativos da cidade são as trilhas para fazer a pé ou em veículos 4X4. Os passeios a cavalo são muito procurados também, como a cavalgada da Lua Cheia à Pedra de São Domingos, situada a 2.050 metros de altitude, de onde se tem uma vista 360 graus da região.

Pequena capela no bairro Campestre

O município preserva tradições culturais que relembram costumes do passado, nas celebrações religiosas, na valorização dos produtos locais e na gastronomia, com uma comida que vai da mineira de raiz até a de restaurantes com chefs inventivos e inovadores. Gonçalves tem uma produção de insumos orgânicos de destaque, e a cidade tem atraído cada vez mais turistas. Sabe-se que orgânico é o alimento livre de insumos artificiais, mas a agricultura orgânica ou biológica vai além. Diz respeito ao uso responsável dos recursos naturais, solo, água, ar e ao desenvolvimento sustentável. Deve ser saudável para o homem e para o ambiente.

Aos sábados de manhã, acontece a feira de orgânicos, com uma boa variedade de produtos, como vegetais, queijos, pães, geleias, compotas e cogumelos. Lá conheci Sebastião, o Tiana, que me convidou pra conhecer sua horta.

Horta do Tiana

Tiana explica que, no canteiro de onde se retira a alface, por exemplo, nunca se planta alface novamente. A rotação é importante, pois alterna plantas que utilizam diferentes nutrientes do solo, melhora a estrutura do terreno e interrompe o ciclo vital dos parasitas ligados a um determinado cultivo ou de ervas daninhas. Seu método de adubação é curioso: o galinheiro móvel, uma tela com galinhas que pode ser deslocada pela plantação. A cada canteiro que desocupa, as galinhas entram para comer insetos, ervas invasoras e adubar a terra com suas fezes, um excelente adubo natural.

No Sítio Três Barras, Zezé, psicóloga aposentada, encontrou seu refúgio em Gonçalves. Ela tira do pomar e da horta as matérias primas de seus produtos: deliciosas geleias, conservas e temperos, como o pesto com pinhão, sal com ervas finas e o açúcar com gengibre, tudo orgânico. O pão de queijo com ora-pro-nobis, a broa de milho cremosa e seus outros quitutes típicos mineiros são bastante procurados.

Zezé, do Sítio Três Barras

O caminho para o bairro da Terra Fria reserva agradáveis surpresas. Uma delas é a visita à Três Orelhas, a mais nova cervejaria artesanal de Gonçalves. Com uma bela estrutura, incluindo um bar e um espaço para eventos, a cervejaria oferece três tipos de produto, entre elas a Férias na Roça, com fermentação de goiaba e jabuticaba. O nome vem do bairro São Sebastião das Três Orelhas, assim chamado por ser cercado por três pedras, a Pedra Chanfrada, a Pedra do Forno e a Pedra do Barnabé.

Três também são as ovelhas que deram início à criação na Queijaria São João das Três Ovelhas. Hoje são cerca de 40 e elas pastam livremente e bebem água de uma fonte natural. Como engenheira de alimentos, a principal preocupação da proprietária Mariângela é com a qualidade do leite. “É onde começa a qualidade do queijo”, diz ela. Mariângela conta que seu principal desafio foi lidar com a criação das ovelhas, animais que sempre a fascinou.

As protagonistas dos queijos na São João das Três Ovelhas (Foto: Maíra Martinez)

Com elevados teores de proteína, lipídios, minerais e vitaminas essenciais, o leite de ovelha é facilmente digerido por pessoas intolerantes a lactoses. Na Três Ovelhas, todo o leite produzido é utilizado na produção dos queijos, o Serrinha, curado e firme (com pasteurização lenta), e o Sertão do Cantagalo, de leite cru, curado e cremoso. Ambos são queijos de sabor marcante que persistem na boca.

Próximo dali, na Fazenda Kalevala, visitei o ateliê do designer Paulo Bustamante. Desde 1998, ele se dedica ao trabalho com bambu, produzindo luminárias e peças de decoração que encantam pela originalidade, pelas formas e pelo bom gosto. Ao lado, Rafael Mifano transforma troncos mortos de madeira que retira da natureza em curiosas esculturas de madeira. O instrumento que ele utiliza parece contradizer a técnica minuciosa de sua arte: uma motosserra.

Luminária feita de bambu, do artesão Paulo Bustamante

Gonçalves é reduto de “gente da cidade grande” que deixou São Paulo em busca de qualidade de vida e que lá desenvolveu um negócio como meio de subsistência. É o caso de Fernanda, que conheceu Gonçalves há 18 anos, se apaixonou e começou a pensar em algum ofício que viabilizasse sua vida na cidade. Fez diversos cursos até ser presenteada com uma geleia e ter a ideia de fazer algo diferente: geleias com especiarias. Assim surgiu A Senhora das Especiarias que, além das geleias, faz chutneys, antepastos, conservas e temperos, atendendo ao mercado gastronômico local e vendendo aos turistas.

Fernanda participa do Slow Food Mantiqueira, um grupo regional do movimento internacional que procura fomentar a produção local por meio da articulação entre os produtores. Também promovem campanhas para proteger alimentos tradicionais, encorajam os chefs a usar esses insumos, indicam produtores para participar em eventos internacionais e lutam para levar a educação do gosto às escolas.

Doce de banana roxo, sorvete de banana e espuma de capim santo, do Geminus

Entusiastas da valorização de ingredientes locais, os gêmeos Juliano e Fernando Basile, quando crianças, adoravam se aventurar no meio do mato e explorar. Trabalharam como ajudantes no restaurante de seu pai, o Le Gourmet Bistrô, antes de decidirem, aos 14 anos, traçar seus próprios caminhos. Foram alunos de Laurent Suaudeau em São Paulo, estagiaram com Alex Atala e, aos 18, voaram para Espanha onde passaram por restaurantes de renome como o Sant Pau, de Carme Ruscalleda, três estrelas Michelin.

De volta ao Brasil, se estabeleceram em Gonçalves e explorar a mata adquiriu outro sentido: o de identificar e colher plantas nativas, as chamadas PANCs (plantas alimentícias não convencionais) e trabalhá-las no seu laboratório: a cozinha. Abriram o Geminus Gastroart, em que a técnica é aplicada na elaboração de pratos criativos e que trazem a essência do produto em sua forma mais natural. Como o Canelone de Água de Coco com Ceviche de Truta, Chip de Folha de Capuchinha e Maionese de Trapoeraba.

Canelone de água de coco com Ceviche de Truta, Chip de folha de capuchinha e Maionese de trapoeraba, do Geminus

Atualmente à frente do restaurante, enquanto o irmão prossegue com os estudos em Barcelona, Juliano oferece um menu fechado e só aceita visitantes mediante reserva. “Trabalho apenas com ingredientes frescos, então preciso de tempo para colher e preparar”, diz ele, fiel à filosofia que adotou.

Na linha dos restaurantes que oferecem pratos criativos e de apresentação caprichada com ingredientes da roça, o Detrás da Matriz é literalmente um achado. Em ambiente simples e simpático, Leca elabora comidinhas, sanduíches e petiscos criativos e, sempre que pode, inclui queijos da Canastra como ingrediente.

Degustação de queijos no Detrás da Matriz

Vera e Antônio, doutores em educação, tinham uma ideia fixa: plantar oliveiras. Mas tinha de ser num lugar pelo qual se apaixonassem, e tudo ali haveria de trazer sentido à nova empreitada. Com muito custo, acharam a Fazenda Antônio do Bugre, entre as serras da Bocaina e do Cantagalo, em São Bento do Sapucaí. Junto com Cristina, que já plantava oliveiras em sua fazenda próxima, fundaram a Oliq Azeites. Arbequina, Arbosana, Grappolo, Maria da Fé e Koroneiki são as variedades de azeitonas lá plantadas que, assim como as variedades de uvas, resultam em azeites distintos. E uma interessante novidade, o azeite de abacate, delicioso, saudável e de sabor marcante, produzido na entressafra das oliveiras.

Lagar da Oliq Azeites (Foto: Leonardo Finotti)

Os três sócios fazem parte da mesma safra, a de produtores admiráveis que abdicaram do conforto e das facilidades da vida urbana para extrair da terra, com carinho e dedicação, aquilo que ela está disposta a dar.

Nascida na roça, Dona Rosa sabe mais do que ninguém o significado dessa expressão: ela extrai do barro os pigmentos que colorem seus quadros e usa folhas de bananeira para criar texturas e nuances. Olhando o resultado, ninguém diz que não usou tinta. Aos 79 anos, ela é também poetisa violeira das boas. Compramos um quadrinho de São Francisco de Assis e ela gentilmente o embrulhou com poesia. De nossa visita, restou saudade e a certeza de que há muito mais a explorar em Gonçalves.

Info & By Youself

Onde Ficar
Pousada Casa Campestre

www.casacampestre.tur.br
Romântico e acolhedor, apenas três chalés em meio a um bosque de araucárias.

Refúgio Kalapalo
www.kalapalo.com.br
Abrigo de montanha e escola de aventura de Guilherme Cavallari, produtor do documentário Transpatagônia.

Refúgio Kalapalo

Onde Comer
Geminus e Juá de Capote
Espaço Le Gourmet, (35) 99977-0306

Detrás da Matriz
Centro, (35) 99710-9872

O que visitar
Oliq Azeites
www.oliq.com.br

Atelier da Dona Rosa
Serra dos Remédios / (35) 9813-6089

Sítio Três Barras
www.sitiotresbarras.com.br

Queijaria São João das Três Ovelhas
www.tresovelhas.com.br

 

Texto e Fotos: Luciana Barbieri

Receba mais conteúdo por e-mail

Veja mais sobre

Posts relacionados