Inverno luminoso em Ilhabela

Conhecida por suas belezas naturais, 85% da ilha é coberta de mata atlântica preservada, 42 praias exuberantes e mais de 300 cachoeiras de água pura. O mar que cerca o arquipélago de Ilhabela é pontilhado por naufrágios, muitos disponíveis para mergulhos. Inverno também é um tempo luminoso para conhecer este paraíso!

Praia do Viana

Conheça as diversas opções de uvas e regiões para brindar em suas viagens no Clube Paladar, o Clube de Vinhos do Estadão. Se beber, não dirija.

Se no verão a ilha enche de turistas e a espera pela travessia de balsa pode levar horas, no inverno há menos trânsito, menos borrachudos e temperaturas bem aprazíveis.

Dizem que os primeiros habitantes de Ilhabela remontam aos anos 500 a.C. e eram indígenas coletores. Da língua tupi-guarani se originaram os nomes de algumas paragens locais. Pacoíba, Jabaquara, Perequê, Cocaia, Garapocaia, Piava, Sepituba e Maembipe, este último nome da ilha antes da colonização.

Na primeira expedição exploradora portuguesa em 20 de janeiro de 1502, a ilha de Maembipe foi rebatizada de São Sebastião. Após emancipação do município, foi chamada Vila Bela da Princesa e somente em 1945 ganhou o nome de Ilhabela.

Após a colonização, a localização e a geografia da ilha fizeram dela importante porta de entrada clandestina de escravos no Brasil e, alguns locais, como a região da praia da Fome, eram utilizados para engorda de escravos antes de serem postos à venda.

Com a intenção de resgatar e preservar a memória da cidade, recentemente foi lançado um roteiro para que o turista possa conhecer áreas de importância histórica, incluindo o antigo mercado de escravos, “escondido” dentro de uma imobiliária.

 

Igreja Matriz

 

A tranquilidade é quebrada apenas pela agitação dos eventos que ocorrem nessa época, como a Semana Internacional de Vela, a principal competição da modalidade no país e que reúne 120 barcos de oito categorias.

Na cena musical, o Teatro Vermelhos recebe em seu palco nomes de peso como César Camargo Mariano, Mônica Salmaso e Leila Pinheiro, além do pianista Marcelo Bratke, em apresentação conjunta com Thiago Soares, primeiro-bailarino do Royal Ballet de Londres.

Em agosto acontece também o 23º Festival do Camarão de Ilhabela, com restaurantes locais oferecendo suas especialidades à base do crustáceo. No centro histórico, o “Boulevard do Camarão” trará petiscos de boteco além de aulas-show, concursos gastronômicos, degustações e apresentações musicais.

Camarão com purê de abóbora e alho poró grelhado, do Restaurante Portofino

 

Um dos objetivos do festival é o resgate da cultura caiçara, tão afetado pelo declínio da pesca, na verdade um fenômeno mundial. O fato é que, na ilha, seja pela poluição ou pelo descontrole, os cardumes reduziram muito e a pesca tem se tornado uma atividade para cada vez menos famílias, mais concentradas na região da praia do Bonete, ao sul.

Sem encontrar sustento na pesca e com restrições para o plantio (82% da área da ilha é de mata atlântica preservada), os caiçaras buscam alternativas de trabalho nas marinas, no Yatch Club, transportando visitantes e no comércio voltado ao turismo.

Em nossa visita à ilha, encontramos a culinária praiana bem representada pelas mãos de jovens chefs. É o caso de Renata Vanzeto do restaurante Marakuthai, um clássico de Ilhabela.

Renata viveu sua infância na ilha, começou a cozinhar aos oito e, aos 13, ajudava sua mãe no restaurante da família. Aos 16, montou seu primeiro negócio: uma lanchonete improvisada na garagem do barco da família. Dois anos mais tarde surgia o Marakuthai, no mesmo endereço.

Conhecendo o perfil empreendedor da chef, estava curiosa por visitar seu primeiro restaurante. Ao estilo pé na areia, o ambiente é despojado e completamente integrado ao entorno. A culinária que encontramos ali é rica em sabores, cores, texturas e extremamente cuidadosa.

Nos surpreendeu a ousada salada Rainbow com 21 ingredientes, finalizada na frente do cliente. O arroz cremoso de moqueca acompanhado de peixe crocante empanado, despretensioso e muito saboroso.

 

Salada Rainbow do Restaurante Marakuthai

Conversando sobre gastronomia caiçara, nos contaram sobre o Azul Marinho, um peixe cozido em postas dentro de um refogado de bananas verdes com casca, que dão a coloração azul ao preparado. Após o cozimento do peixe as bananas são retiradas e utilizadas no preparo de um pirão. “Quem conhece bem o preparo desse prato é o chef Tonhão”, ouvimos.

Figura honorável na cena gastronômica de Ilhabela, o baiano Tonhão chegou à ilha ainda adolescente, foi viver na França e retornou à cidade. Fomos conhecer seu trabalho, atualmente à frente da cozinha do aprazível Espaço Tangará, um restaurante e bar situado numa das mais praias mais belas da ilha, a Jabaquara.

Seguindo para o norte, já no fim da estrada, paramos para vislumbrar do alto essa linda praia.

Chef Tonhão, no Espaço Tangará

Fomos recepcionados pelos proprietários do Espaço Tangará e logo estávamos fotografando algumas das especialidades do chef Tonhão, como a lula ao vinagrete de laranja e a deliciosa sororoca assada com batatas, suculenta e macia.

Embora embalados pelo lugar acolhedor, pela confortável brisa do mar e a trilha sonora de muito bom gosto, seguimos, contrariados, de volta à cidade e aterrissamos no restaurante Portofino, situado dentro do charmoso Hotel Porto Pacuíba.

Lá, o esforçado chef Arthur Alves capricha em suas criações e na apresentação dos pratos, além de cuidar da seleção dos ingredientes, da produção das geleias e dos pães servidos no café da manhã e de tudo que é feito exclusivamente na cozinha do hotel.

Enquanto apreciávamos o belo visual do mar, um bando de papagaios veio visitar o jardim fazendo a maior algazarra.

Hotel Porto Pacuíba

Quando se quer aproveitar a praia durante o dia, as comidinhas rápidas são uma boa pedida. Instalado numa Kombi no píer do Perequê, o carro-chefe do Nhackombe é o Yakissoba. Nando, que com sua esposa adotou a ilha como lar, valoriza o estilo de vida simples e saudável. Seus guiozas têm uma pegada natureba: trazem taioba e cúrcuma na massa.

A taioba – conhecida como orelha-de-elefante – é uma planta versátil e saborosa, cada vez mais utilizada na culinária da região. Nando cultiva-as em seu quintal, assim como a cúrcuma, com o propósito de valorizar o produto local.

Guiozas de cúrcuma do Nhackombe

 

Nando participa do grupo Sustenta, uma comunidade de moradores que, envolvidos com arte, música e gastronomia, fomentam negócios entre si e buscam difundir informações sobre educação ambiental à população. A cada dois meses, o Sustenta promove feira de produtos orgânicos, naturais, artesanato e música, onde pequenos produtores têm oportunidade de vender diretamente ao consumidor, já que não há feiras livres na ilha.

Cansados da vida atribulada em São Paulo, os irmãos Valéria e Vanderlei, o Lei, Zoppello se mudaram para Ilhabela há pouco menos de um ano. Ela montou um hostel e ele leva turistas em seu barco para conhecer as paragens mais bonitas da ilha.

“Mudei para a ilha em busca de qualidade de vida, integração com a natureza e a possibilidade de ter uma vida social com pessoas com que tenhamos mais afinidade”, diz Valéria.

É com esse espírito que ela recebe as pessoas em seu hostel, como se estivesse reunindo amigos em casa. Durante o percurso em seu barco, Lei apresenta aos turistas as praias e conta um pouco da história da ilha, em meio a paisagens de tirar o fôlego.

“Lei” Zoppello (foto: Valeria Zoppello)

Ilhabela é também uma espécie de sítio arqueológico aquático. São muitas as histórias de naufrágios: ao redor dela está o maior cemitério de navios de toda a costa brasileira. Desde 1894, foram mais de cem naufrágios registrados, incluindo o maior que a América do Sul já teve, o transatlântico espanhol Príncipe de Astúrias.

Conhecido como o Titanic brasileiro, vitimou ao menos 477 pessoas em 5 de março de 1916.

Lei conta que, num desses dias de maré baixa, na praia de Castelhanos, pôde ver o convés de uma antiga nau, construída entre 1810 e 1840. Este é considerada o mais antigo naufrágio da Ilhabela, conforme a análise radiocarbônica encomendada pelo Instituto Histórico Geográfico e Arqueológico de Ilhabela (IHGAI).

Praia de Santa Tereza

Cada vez mais frequente na ilha é a observação de baleias e golfinhos. Avistamos uma baleia que se desviou do bando ser reconduzida para fora da rota das embarcações, trazia uma corda enrolada em seu corpo e infelizmente não foi possível removê-la.

Na última década, a Ilhabela tem recebido grandes investimentos em infraestrutura para comportar o crescente aumento do turismo contudo, resta saber se caminharão ao lado a preservação do ambiente e do patrimônio cultural desse paraíso.

Passeio de barco na Praia do Jabaquara

Info & By Youself

ONDE FICAR

Hostel Ilhabela – a 200 m da praia do Julião – (12) 3894-9118

Porto Pacuíba – Praia do Siriúba

 

ONDE COMER

Marakuthai – Av. Força Expedicionária Brasileira, 495, Santa Tereza – (12) 3896-5874

Espaço Tangará – Praia do Jabaquara – (11) 99172-9929

Restaurante Portofino – Av. Leonardo Reale, 2.392 – (12) 3896-2466

Restaurante Arumã – Cozinha criativa em ambiente aconchegante, bem no centro de Ilhabela. Rua da Padroeira, 12, Centro – (12) 3896-1314

Nhackombe – Píer do Perequê (na baixa temporada abre às 18h)

Pizzaria Toscanella – Ambiente informal e animado, deliciosas redondas de massa fina nas proximidades da balsa.
Rua Goiás, 150, Barra Velha – (12) 3895-7461

Pizzaria Toscanela

PRAIAS

 

Jabaquara – Belíssima, a última ao norte acessível por carro

 

Castelhanos – Do outro lado da ilha, distante do centro e acessível somente por veículos 4X4 e agências de turismo local.

 

Praia da Fome – Onde os escravos eram alimentados após a longa viagem da África, antes de serem comercializados.

 

Praia do Bonete – Está entre as praias mais bonitas do Brasil. Com acesso somente pelo mar ou por uma trilha de 12 km.

 

Saco do Eustáquio – Uma das melhores da ilha para a prática do mergulho livre.

 

Praia do Curral – A mais badalada, com boa infraestrutura de bares e restaurantes com serviço de praia.

 

Praia da Feiticeira – homenagem à portuguesa Maria Perpétua Calafate de Souza, que acusada de bruxaria por um comerciante de escravos, acabou assassinada pelo marido durante uma discussão conjugal.
Praia de Castelhanos (foto: Valeria Zoppello)

SERVIÇO
Passeio de barco
Lei Zoppello – (11) 99639-5849

EVENTOS

Festival Vermelhos 2018 – Música e Artes Cênicas
4 a 18 de agosto – Centro Cultural Baía dos Vermelhos

23º Festival do Camarão de Ilhabela
9 a 26 de agosto, Centro Histórico de Ilhabela

Texto: Luciana Barbieri /Fotos: Johnny Mazzilli

 

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