Março de 2019: carta ao leitor

Em março de 2019, a revista do Clube Paladar convida a uma conversa ao redor do fogo sobre a beleza das coisas imperfeitas. Veja os principais assuntos desta edição. Por Viviane Zandonadi

O Vale dos Vinhedos continua lindo. Voltamos ao sul para conferir. Foto: Johnny Mazzilli
O Vale dos Vinhedos continua lindo. Voltamos ao sul para conferir. Foto: Johnny Mazzilli
Cena do segundo episódio (Sal) da série Sal, Gordura, Acidez, Calor. Foto: Netflix
Cena do segundo episódio (Sal) da série Sal, Gordura, Acidez, Calor. Foto: Netflix

 

Do lado de fora de uma centenária fábrica artesanal de molho de soja, das poucas que ainda existem no mundo e que mantêm o modo tradicional de produção, sem ingredientes artificiais, quatro pessoas estão sentadas ao redor da mesa. Elas conversam enquanto o fogo grelha bolinhos de arroz e pedaços de frango. A grelha fica no centro da refeição ao ar livre. O grupo está no Japão, para onde a chef de cozinha Samin Nosrat viajou em um dos episódios de sua série na Netflix, a fim de entender a ação do sal nos alimentos (leia aqui sobre Sal, Gordura, Acidez, Calor).

A grelha “fala” por meio de estalos. Pinceladas de shoyu umedecem os tenros pedacinhos de frango. Alguém dá uma mordida no arroz crocante e umedecido em molho de soja e a velha senhora que modelou os bolinhos sorri, encabulada, e se desculpa pelas formas que considera irregulares. “Eu faço por aproximação.” Samin imediatamente lembra sua anfitriã do conceito japonês wabi-sabi, sobre a beleza das coisas imperfeitas e de como tudo o que é artesanal tem um sinal de autoria. “Alguém descreveu um belo mestre ceramista que pegava um pouco de argila, colo – cava na roda e com apenas dois rápidos movimentos fazia a tigela perfeita”, disse a chef. O artista então erguia o pote e com o indicador marcava a superfície, só para atribuir um toque humano ao objeto.

“Em outras palavras, o que se pode chamar de imperfeito é conhecido também como único. No caso daquela refeição, a marca humana estava em cada um dos bolinhos de arroz crocante”

É um convite à reflexão. Mas há outros na edição de março da revista do Clube Paladar. A reportagem esteve em dois pontos ao sul do Brasil. Primeiro, em Urubici, na região serrana de Santa Catarina e uma das cidades mais frias do País no inverno, contrariamos as estatísticas e nos hospedamos durante o verão para beber deliciosos Sauvignon Blanc e poder afirmar que, no calor, meter os pés na água fresca dos riachos é um enorme prazer. A informação é importante, sobretudo para quem planeja visitar a sexta edição da Vindima de Altitude de Santa Catarina, evento das vinícolas locais que ocorre até 31 de março e reúne produtores de São Joaquim, Campo Belo do Sul, Urubici e Bom Retiro.

Também estivemos no Vale dos Vinhedos, que continua lindo, apurando novidades e atualizando referências às vésperas da colheita de uvas tintas e em meio à vindima de uvas brancas.

Da conversa com o premiado sommelier Eric Beaumard, diretor do restaurante Le Cinq, o parisiense três estrelas Michelin do hotel Four Seasons George V, a tendência é sair mais bem informado e consciente de que para ter melhores experiências com o vinho nada como manter distância do deslumbramento. E buscar conhecimento, seja por prazer, seja por ofício.

E tem mais: um guia básico do Chianti, uma receita vegana, todos os passos para chegar ao risoto perfeito e, no fim, um inspirador passeio pelas paisagens de cartão-postal da italiana Puglia.

Mas chega de spoiler. Basta começar a navegar. Esperamos que gostem e que aproveitem, em especial, a seleção de vinhos do mês e as receitas especialmente produzidas para acompanhar cada um deles.

***

Depois de um mês intenso de trabalho, enviamos esta edição para a gráfica com a sensação meio melancólica e meio contente de olhar para trás e ver a bonita estradinha que abrimos pela primeira vez – já que este é o primeiro número da revista aos cuidados da nossa equipe.

Um caminho é aberto por entre folhagens do chão. Franz Kafka escreveu assim em um aforismo: “É como a trilha de outono: mal foi varrida, cobre-se outra vez de folhas secas”. Pois bem, catamos as folhas do caminho, preenchemos, arrastamos palavras, acomodamos travessões e pontos finais e reposicionamos fotos lindas. Vamos agora recomeçar a arrumação, catar novas folhas e escrever nelas outras boas histórias vistas, ouvidas e bebidas por aí. Nos vemos, portanto, quando já for a próxima estação.

 

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