Memória gastronômica: antigamente, ‘tudo’ era melhor?

As recordações – boas ou ruins – ajudam a dizer de onde viemos e para onde vamos. Na simplicidade, quase tudo faz sentido. Por Viviane Zandonadi

Antigamente, tudo era melhor? Foto: Pixabay

Desde sempre, comemos, porque temos fome e desejo. O corpo pede, obedecemos ao seu comando. Sua vontade é nosso motor. Mas por que lembramos tanto do que comemos? Por que a estética da memória afetiva da comida é tão presente e explorada comercial e sentimentalmente quanto aquele discurso manjado (e muitas vezes furado, porque o passado não é lisinho e homogêneo; tem asperezas e caroços, vide o presente) de que “ah, saudade dos velhos tempos, antigamente é que era bom e blablabla…”?

No público, no privado e na média, podemos supor que nem tudo era bom nesse tal de “antigamente”. Oquei. Houve piora em certos sentidos, sim, e isso dá o maior desgosto. Mas de modo geral o mundo está melhor – exceto, é claro, por algumas muitas pessoas (e aqui, humildemente, eu não falo nem de mim nem de vocês, que estão lendo este texto).

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Nada mal ir a lugares incríveis, comer pratos sofisticados e beber vinhos finos. Mas levamos em nós um gosto forjado na singeleza. Repare
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Ocorre que pelo caminho perdemos coisas e pessoas. Nos transformamos. Sentimos saudade até dos lugares em que não estivemos e de significados que certos momentos não tiveram (ou sim) e, por isso e não só, ficam marcados em nós para sempre. E o para sempre, bem, até que chegue o próximo minuto, é agora.

Aos fatos: nem toda avó cozinha lindamente e muda a vida de filhos e netos com suas comidas, para melhor ou para pior. Mas há muitas que sim. Do mesmo jeito, nem todas as lembranças da dinâmica familiar nesse cômodo, a cozinha, são boas e calorosas. Alegria, felicidade, contentamento. Dor, dias infelizes, encrencas e lágrimas. Tem tudo isso na vida e a cozinha e os pratos repetem o padrão. Agora, como comer não é, definitivamente, uma ação banal, para seguir em frente nós usamos memórias reais, inventadas, queridas, muitas vezes enfeitadas ou desbotadas. Precisamos delas. Crescemos nelas. Aprendemos. E voltamos ao começo: prazer e desejo. Desde criancinhas, é um jogo que ajuda a nos definir.

Sobre os sentidos da memória e do gosto, tenho feito um trabalho, há alguns anos, com uma amiga. Viviane Aguiar, além de jornalista, é mestre e pesquisadora de história da alimentação. Em nosso projeto, o Lembraria.com, coletamos relatos de pessoas que topam compartilhar suas lembranças afetivas de comida e assim construímos o que chamamos de O Dicionário das Comidas Impossíveis, um relicário que descreve os sabores únicos e as lembranças por meio das quais as pessoas contam e revisitam uma parte de suas vidas.

Os tais relatos de doces e salgados revelam que, em termos de sentimento, moramos muito na simplicidade (e menos na filosofia, no luxo e na riqueza). Moramos na sopa de pão, café, leite e açúcar. Em chuchar o biscoito de maisena no café coado. Naquela luz de meio de tarde que desenhava sombras na cantina da escola na hora da merenda. Nos cheiros da infância. No tédio doméstico do domingo de manhã. Sem pressa. No barulho de um portão batendo sempre no mesmo horário. Nas cadeiras da mesa de jantar ocupadas até pela ausência de quem não está mais entre nós.

A comida? Bom… A comida nos ajuda a enfrentar os dias, a sentir vivos e espertos e acolhidos em nossas vontades, possibilidades (e impossibilidades). Não é pouco. No fim do dia, quando tudo estiver incerto e nada estiver resolvido, a metáfora tende a ser a mesma: encare o prato fundo como a possibilidade de devorar os dias em colheradas generosas. Junte um copo de vinho e tudo fica bem. Ao menos por enquanto.

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Este texto foi publicado na edição de junho da revista do Clube Paladar. Para baixar o volume completo, em pdf, clique neste link e visualize no navegador. Você também pode fazer o download: clique no link e na seta para baixo que fica no canto superior direito da página

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MEMÓRIA
Sopa de pão (ou assados e perdidos)*

 

Sopa de pão, café, leite e açúcar. Foto: Viviane Zandonadi

 

A sopa de pão é minha primeira lembrança de gosto. Podia ser pão perdido, esquecido ou novo. Era doce e montada na caneca de alumínio meio amassada. Rasgo o pão, derramo café e leite e polvilho açúcar. Lembro que, naquele tempo, quando encontrava no meio da sopa um miolo cheio de manteiga, sabia que havia sido premiada pela cumplicidade possível da avó.

Esse era o fim da tarde, depois da aula, até o pai chegar do escritório do seu Kiko. Vencido o trânsito de operários da fábrica, que travava a rua, eu alcançava a mesa posta que nunca falhava. A vó Odete e o vô Sabino me esperavam no portão da casa erguida por ele, que era pedreiro, e na qual ela, agora viúva, vive suas saudades.

Aprendi a sopa com meu avô, que já não tinha os dentes. Era a solução predileta dele. Às vezes, a avó me deixava ir para a sala. Sentada no sofá, ela colocava sobre as minhas pernas um prato grande colorex. No centro, havia um copo de café com leite bem docinho. Ao redor do copo, uma ciranda de fatias de pão com manteiga – quase tão boa quanto a sopa. Assistiria ao Sítio do Pica-pau Amarelo e ficaria com medo do Minotauro. Tudo em seu lugar.

Quando terminasse, poderia ir lá fora jogar rouba-monte com o avô ou vê-lo jogar. Paciência. Na verdade, não era paciência. Depois da ave-maria, ele desligava o rádio e, sobre o banco de madeira pintado de cinza, improvisava o carteado. Distribuía duas mãos de cartas. Uma para si e outra para um amigo imaginário. Jogavam buraco. Torcia pelos dois. Mais tarde, na vida, faria a mesma coisa ao brincar sozinha em casa. Brincar de adivinhar o outro inventado. Ainda faço a sopa em uma tentativa meio débil de resgatar o conforto. Aos seis anos de idade, já achava o mundo assombroso.

Expectativa superada, a nova sopa não adianta muito, mas dissolve um pouco o desassossego. Meu avô já não existe e minha avó não espera mais a gente no portão, porque a saúde se esvaziou.

Ela ainda conserva os olhos claros e o gosto por doce. Ainda lembra da vida (boa?!) na roça, antes de tudo, e das conversas em italiano com a nona. Ela ainda tem os mesmos dedos alongados, as unhas curtas e perfeitas, as mãos macias que modelavam coxinhas de galinha tão delicadas, e que arrumavam os pedaços de bolo de nada na louça clara. As mãos delgadas que alisavam as nossas mãos em carinho e sobre seu corpo ajeitavam os vestidos estampados. Mãos que dobravam e dobravam outra vez o guardanapo de papel até fazê-lo desaparecer, enquanto contavam uma história. As mãos finas que no calor das brigas podiam quebrar pratos e arrancar cabelos, se quisessem. Mãos que desafiaram a lógica do tanque e continuaram lisas. Mãos que nunca seguraram um passaporte nem uma passagem de avião, mas empurraram muita gente para fazer as malas. Mãos que não esperavam por tudo isso (e assim, desse jeito). As mãos que faziam minha sopa de menina.

Corta para aquela manhã no Engenho Mocotó quando a professora Leila Algranti disse que a gente procura uma comida que nos lembre de outra. “Meu problema são as cocadas”, falou. “Vivo atrás de uma cocada que nunca encontro igual. Uma cocada que comi quando era garota, em uma barca para Paquetá. Uma cocada de fita. Posso provar centenas e nunca acho a minha.” Meu palpite é que nunca vai achar. É como a sopa. Repito para ver se alcanço a fotografia antiga do avô e da avó com a vida fervendo em suas possibilidades. Não está lá.

* Escrevi este texto há pouco mais de seis anos, em meu blog Do que Eu Falo Quando Eu Falo de Comida. Republico-o agora em memória de minha avó, que, depois de muitas sopas de pão que ajudaram a formar paladares e pessoas tão diferentes entre si, enfrentou sua doença até o dia 8 de junho de 2013. Há seis anos.

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