As Uvas no Velho e no Novo Mundo

O Novo Mundo passou por uma grande evolução nos últimos anos, com enólogos e produtores buscando vinhos mais elegantes, diminuindo o gap que existia em relação ao Velho Mundo

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Em termos de qualidade, anos atrás, o gap entre Velho Mundo e Novo Mundo era muito grande. As únicas coisas que os vinhos do Novo Mundo tinham eram potência e concentração. E eram quase todos iguais.

Atualmente, os vinhos do Novo Mundo cresceram muito em termos de qualidade, resultado de um trabalho de seleção de clones e, principalmente, de escolhas do melhor terroir. Ao entender o que tem debaixo do solo, os produtores conseguiram fazer com que esses vinhos subissem muito em termos de qualidade, aproximando-os dos vinhos do Velho Mundo. Alguém poderia dizer, então se misturou tudo? Não, ao contrário, aumentaram as opções de qualidade no nosso leque de escolha. A grande diferença é que cada vinho tem uma tipicidade, uma característica própria.

Um exemplo clássico é o Berlin Tasting, degustação às cegas que o produtor Eduardo Chadwick, proprietário da vinícola chilena Errázuriz, organizou pela primeira vez em 2004, colocando vinhos chilenos ao lado de ícones de Bordeaux (França) e da Toscana (Itália) com resultados favoráveis aos vinhos chilenos, que ficaram em primeiro lugar. Para quem quiser se aprofundar mais, há um livro sobre o assunto: The Berling Tasting. Isso mostra que os vinhos do Novo Mundo cresceram muito em termos de qualidade e não são mais todos iguais. Por outro lado, já faz algum tempo que os vinhos chilenos e argentinos têm recebido pontuações máximas dadas por publicações e críticos especializados internacionais, como Robert Parker, James Suckling, Decanter e Wine Spectator.

Outro fato curioso é que algumas uvas de origem francesa se transformaram em ícones em alguns países do Novo Mundo, como a Malbec na Argentina, a Tannat no Uruguai e a Carménère no Chile, ficando mais famosas nesses países do que em seu local de origem. A Malbec, por exemplo, é originária de Cahors, sul da França, mas se adaptou perfeitamente na Argentina. A Carménère, que no Chile foi confundida
com a Merlot, onde era chamada de Merlot tardia, porque amadurecia mais tarde, foi redescoberta em 1994 e se transformou na uva símbolo daquele país.

A Cabernet Franc, típica do vale do Loire e do lado direito de Bordeaux, encontrou um lugar na Argentina. Provavelmente, a Malbec terá uma nova concorrente para dividir a cena. Tem acontecido também com outras uvas como as brancas Riesling e Gewürztraminer, que estão se dando bem em algumas partes do Chile. Existe uma agitação, uma efervescência no Novo Mundo, ao contrário do que ocorre no Velho Mundo, que tem uma longa tradição.

Abaixo, você confere a uma seleção de vinhos que preparei com as mesmas uvas ou cortes que tivessem a predominância de uma delas para dar ideia de tipicidade. Você vai encontrar Chardonnay, Pinot Noir, Cabernet Franc, Syrah e Merlot de estilos bastante diferentes.

Escolhi, por exemplo, um corte do Rhône (Delas Frères Côtes-du-Rhône Saint-Esprit) com predominância de Syrah. Um clássico,com fruta mais discreta, não explosiva, com boa estrutura, um vinho bem macio e ao mesmo tempo com uma bela acidez, que o deixa vibrante. Do outro lado, o chileno Errázuris Estate Series Shiraz Reserva, do Aconcágua, uma explosão de fruta, com toque apimentado, boa estrutura alcoólica, um vinho mais robusto e concentrado.

Selecionei um Merlot da Patagônia argentina, região de clima frio onde uvas como Pinot Noir, Malbec e Merlot conseguem amadurecer de forma mais lenta e equilibrada, dando origem a vinhos mais elegantes, menos encorpados e potentes.Do outro lado, coloquei um Bordeaux, berço da Merlot. São dois belíssimos vinhos, com caráter próprio. Maciez, taninos menos agressivos, bastante fruta no argentino Humberto Canale e um toque clássico no Moulin d’Issan Bordeaux Supérier, em que aparecem notas de couro de animal, típicas da região.

Em minha opinião, essa é a melhor forma de entender os vinhos e os produtores, porque você tem uma comparação. Não adianta dizer um monte de coisas se o vinho não está na sua frente. É preciso provar. Só a teoria não é suficiente, assim como só a prática não é suficiente. Degustações às cegas são, para mim, a melhor forma de saber qual o vinho que você realmente gosta, sem se influenciar por nada. Saúde!

Chardonnay:

Novo Mundo: Vinho Branco Leyda Single Chardonnay 2016

Velho Mundo: Vinho Branco Bouchard Macon Villages 2015

Cabernet Franc:

Novo Mundo: Humberto Canale Estate Cabernet Franc 2015

Velho Mundo: Le Logis de La Bouchardière Chinon

Merlot:

Novo Mundo: Humberto Canale Grand Reserva Merlot 2014

Velho Mundo: Moulin d’Issan Bordeaux Supérieur 2014

Syrah:

Novo Mundo: Errázuriz Estate Series Shiraz Reserva 2015

Velho Mundo: Delas Frères Côtes-du- Rhône Saint-Esprit 2016

Pinot Noir:

Novo Mundo: Zorzal Eggo Filoso Pinot Noir 2016

Velho Mundo: Bouchard Bourgogne Pinot Noir La Vignée

Massimo Leoncini: sommelier executivo da Grand Cru, nascido na toscana, Itália, vive no Brasil há dez anos. além de vinhos, adora cozinhar e comer bem.

 

 

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