O melhor restaurante do mundo

Da trilha sonora à companhia, passando pelo conteúdo e pelos humores, o que faz uma experiência ser extraordinária e nos deixar a ver estrelas? Por Viviane Zandonadi

Foto: Rakicevic Nenad/iStock
Aqui e agora: O que faz uma experiência ser extraordinária e nos deixar a ver estrelas? Foto: Rakicevic Nenad/iStock

É 25 de junho de 2019. Ao rolar a tela do celular entre um e outro espanto com as notícias do dia, vejo comentários sobre o novo “melhor restaurante do mundo”. Dos muitos rankings gastronômicos que atribuem notas, estrelas e conceitos, a lista do ranking The World’s 50 Best mapeia a culinária do planeta desde 2002. Neste ano, o único brasileiro entre os 50 mais é A Casa do Porco, no centro de São Paulo, que pertence ao chef Jefferson Rueda e saltou do 79º lugar em 2018 para a atual 39ª posição. Ao posto de número 1 foi conduzido o francês Mirazur.

A redação do Paladar escreve em uma nota que o melhor do mundo pertence ao chef argentino Mauro Colagreco, fica na cidade de Menton – aos pés de um rochedo na Costa Azul do litoral francês – e apresenta criações com ingredientes que remetem ao mar e às montanhas. “De quinta a sábado, apenas no almoço, oferece um encontro culinário pontuado pelas estações do ano e feito com produtos da região. Este menu sai por 160 euros (R$ 697). No site, é possível reservar almoço para duas pessoas a 320 euros (R$ 1.395).”


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Na desigualdade do armário embutido de onde “instagramam” foodies de todos os lugares e condições, posso imaginar que já começam os planos para as expedições provençais (e que a fila da Casa do Porco, se tiver para onde, vai crescer ainda mais). Por outro lado, na indiferença dos que seguem suas vidas, coisa alguma mudou.

Um pouco perdida no meio desses extremos, nesta que vos escreve habita uma rabugenta espaçosa e que às vezes não consegue conter o arrepio questionador, possivelmente precipitado, e à beira do ataque de mesquinharia: “por tamanho preço, é bom que seja extraordinário”. E olha que o dito nem é o mais caro que existe… Em meus pensamentos, circulam em vertiginosa ciranda termos do tipo “melhor do mundo”, “encontro culinário”, “experiência”, “extraordinário”, “setecentos reais por pessoa”, “júri qualificado”, “auditoria”. Sim, ainda estou falando de comida.

Enfim. Não vou mentir. Se eu pudesse eu iria. Se eu puder, eu vou. Quero saber com minha própria boca o que querem dizer com encontro culinário pontuado por estações do ano. O que pergunto é: quanto de realidade cabe na expectativa? Existe o restaurante ideal que proporciona a experiência extraordinária do tipo “não tem erro”? Acho que não. É grande a chance de ser feliz em um lugar de alto conceito, perfilado pela imprensa gastronômica séria, recomendado por um amado e confiável amigo. Mas não está dado que vai ser bom. Não é garantido. Precisa combinar com os russos, nem que os russos sejam seus próprios nervos.

Efeito borboleta. Foto: iStock
Quando a potência do acaso e o capricho do restaurante (ou a luz da hora no destino de viagem) fazem você se dar conta de que está no melhor lugar do mundo. Foto: iStock

 

O RESTAURANTE IDEAL

“O restaurante ideal é aquele que quando as pessoas vão embora se lembram do que comeram e até esquecem o quanto pagaram”, disse o chef e intelectual catalão Santi Santamaria (1957- 2011), em entrevista que testemunhei e editei há dez anos e à qual recorro para ver se recalculo a rota da avareza. “É importante lembrar que o restaurante é um negócio, uma forma de ganhar a vida e que precisa de uma administração eficaz. Ao mesmo tempo em que deve existir um grande profissionalismo para o sucesso do estabelecimento, as pessoas precisam se sentir acolhidas como se estivessem em casa. Enfim, é fundamental transmitir um ambiente com calor humano, mais emocional.”

Penso que Santamaria chamava para o restaurante a responsabilidade de transportar a clientela com ou sem escala, sinestesicamente, respeitando gostos, bolsos e sentimentos, para a casa perfumada de uma vovozinha querida, fofa, perfeita, de colo sempre pronto a acolher. Real ou imaginária. Umas colheradas cheias de qualidade e capazes de levar à antessala do consultório de psicanálise freudiana; uma cápsula que por alguns minutos (até começar a sessão, pelos menos) isola e silencia a pedreira emocional da vida. Um prato até a borda de conforto.

Mas a essa altura a gente sabe bem que é preciso tomar cuidado. Não é por ser caro e melhor do mundo que não tem erro. Não é por prometer nos amar que vai acertar. Não é por ser vovó que a pessoa é boazinha. E o contrário também vale – exceto para lugares que maltratam e não acolhem ou o fazem de forma diferente a depender de quem os procura. Esses parecem não ter jeito e, ainda que demore, o próximo barulho a ser ouvido talvez não seja o do garfo indo ao chão, e sim o da máscara caindo.

Enfim, são muitas e imponderáveis as condições que interferem nas visitas a restaurantes e outras vivências. Da trilha sonora ao mobiliário. Não adianta ter umas cadeiras lindas em quintal ajardinado e com fontes murmurantes se elas não forem confortáveis e se a música ao estilo lounge ou bate-estaca sem um pingo de sentido nos martelar os nervos a ponto de confundir a geolocalização: “me sinto em uma loja de shopping, sob a luz de um terrível provador”.

Pronto. Então é questão de gosto, tempo, temperatura. E sorte. A companhia ou a falta dela (estar só pode ser maravilhoso). O conteúdo, a atmosfera, os humores. Tudo isso e outras coisas mais são capazes de ocasionar uma experiência fora do comum, de ver estrelas. Ou o oposto disso. Não saber se vai dar certo – não saber o que é certo – deixa a vida menos ou mais interessante? Tendo a achar que mais.

IMAGINE

Você chega cansada e faminta e sozinha ao destino de férias. Uma vila medieval no interior de não sei onde. É feriado local. Algum santo. Quase tudo está fechado. Seus olhos embaçados pela poeira da estrada. Há uma mercearia escura onde um homem carrancudo vende a você um pedaço de salame, um pão italiano bem bonito e uma garrafa de vinho. Que bom que você tem um saca-rolhas na bagagem. Pensa que vai comer o lanche, voltar para o quarto e, até o dia seguinte, sem se importar com as trivialidades e as horas, esgotar a exaustão que te esgota. Amanhã as desejadas férias vão começar.

Ao sair da lojinha, neste intervalo que é um não-lugar, o sol das três da tarde está gostoso. O céu, muito azul. Anda pelo vilarejo adormecido à procura de um canto para improvisar o piquenique. A fome quer pôr um filtro de desolação em tudo. Com as pernas pesadas, sobe uma escadaria que leva a uma estradinha sinuosa com umas muretas. Dá para sentar. São como mirantes à beira dos penhascos. Montanhas. Pedras sólidas. Ciprestes tristes. É igual a um livro de mistério.

Escolhe um lugar com essa vista e monta seu acampamento. No primeiro gole, o vinho bom e barato quebra um pouco a resistência. Desfaz uns nós. Uma garrafa na mão e o pão com salame na outra, o golpe de vento invertido faz você virar a cabeça para ajeitar os cabelos. É então que percebe que não está só. Ali atrás, os mortos da cidade descansam no cemitério. Volta o olhar para aquela paisagem grandiosa diante de você e dos que já se foram: sua viagem começa amanhã ou teve início agora, no primeiro piquenique extraordinário?

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