O Vinho e O Fígado – Como A Bebida de Baco Pode Afetá-lo

O fígado consegue destruir o álcool que ingerimos, pois ele possui enzimas que o transforma em outras substâncias. Porém, ele tem um limite para isso, e toda vez que a quantidade de álcool ingerida é maior do que sua capacidade de destruí-lo, essa droga acaba realmente lesionando suas células.


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Tenho um grande amigo para quem já repeti diversas vezes “queria ter um fígado igual ao seu!”. Acho que a maioria dos leitores deve ter um amigo assim! Deixando a brincadeira de lado, isso ocorre porque todos nós sabemos que o fígado é o órgão que metaboliza o álcool que ingerimos e porque já cansamos de ouvir falar de esteatose hepática (gordura no fígado) ou cirrose hepática. E, de fato, isso existe, são doenças muito sérias e que acometem esse órgão tão importante do nosso corpo. O álcool é uma droga como tantas outras e que leva o indivíduo à dependência e, talvez, com um agravante maior: é permitido, custa pouco e está amplamente disponível a quem quiser comprar.

E por que estamos falando isso num blog cujo público é amante da boa mesa e de bons vinhos e que, seguramente, são consumidores sociais dessa bebida? Porque esse é um assunto realmente sério. Nós, bebedores sociais, não fazemos ideia do sofrimento daqueles que acabam se viciando no álcool e do prejuízo social que esse vício representa para o sistema de saúde de qualquer país. Por isso, é muito importante conhecer seus efeitos no organismo, os limites seguros de sua ingestão (se é que existem) e como identificar quando estamos ultrapassando nossos limites pessoais.

Quer dizer que sempre que ingerimos qualquer quantidade de álcool estamos demolindo nosso fígado? Não é bem assim. O fígado consegue destruir o álcool que ingerimos, pois ele possui enzimas que o transforma em outras substâncias. Porém, ele tem um limite para isso, e toda vez que a quantidade de álcool ingerida é maior do que sua capacidade de destruí-lo (e isso ocorre quando bebemos muito ou rápido demais), essa droga acaba realmente lesionando suas células (os hepatócitos). Se isso se repetir continuamente, estaremos colocando nosso fígado em sério risco. Com menos hepatócitos funcionais, diminuímos a capacidade de metabolizar o álcool. Por isso, aquele indivíduo que bebe muito e por muito tempo vai ficando cada vez mais vulnerável aos efeitos do álcool. Cerca de 5% dos indivíduos com esteatose podem desenvolver cirrose.

A pergunta seguinte e óbvia é: qual é esse limite? Existe uma estimativa de que podemos desenvolver cirrose hepática com uma ingestão de 80 gramas de álcool todos os dias, por um período consecutivo de aproximadamente 10 anos. Nas mulheres, esse limite parece ser próximo da metade por terem menos enzimas capazes de destruí-lo desde o estômago e um volume de distribuição menor. E o que são 80 gramas de álcool? Já que nosso assunto é vinho, em uma garrafa temos aproximadamente 90 gramas de álcool. Portanto, se bebêssemos uma garrafa todos os dias por 10 anos consecutivos, teríamos risco de desenvolver cirrose. O problema maior acontece com os destilados, como cachaça e uísque, que chegam a ter mais de 40% de seu volume de álcool (um copo grande dessas bebidas já chega muito perto daqueles 80 gramas citados no vinho).

Como reconhecemos nosso limite? Certo grau de alteração é uma consequência da ingestão de álcool, e todos nós conhecemos pessoas que bebem quantidades muito maiores sem demonstrar o menor grau de embriaguez. Essa resistência à ação do álcool é o primeiro sinal de que ultrapassamos nossos limites e que a doença do alcoolismo possa estar se instalando, pois, quando o organismo cria resistência, ele passa a exigir doses maiores para repetir aquela sensação de bem-estar e, com doses maiores, ultrapassamos a barreira mencionada.

Outro fato interessante é que, para que metabolize bem o álcool, o fígado necessita também de água e, como o álcool possui ação diurética, se não ingerirmos água enquanto bebemos vinho, podemos, além de tudo, ficar desidratados (um dos motivos daquela bela enxaqueca do dia seguinte).

Mas, depois de comentar exaustivamente por aqui, nesses nove meses de artigos, os benefícios do vinho no sistema cardiovascular, na memória etc., será que eu não estaria me contradizendo? A resposta é não. Esses benefícios são de fato reais ou potenciais, desde que obedecida a premissa de beber moderadamente.

Vasculhando a internet para escrever esta matéria encontrei um único artigo científico dizendo que o álcool pode ser até benéfico para nossos queridos hepatócitos (e que, seguramente, gerou muita polêmica). Foi uma pesquisa feita na Universidade da Califórnia, em San Diego, pelo dr. Jeffrey Schwimmer, professor associado de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição, daquela universidade. A pesquisa envolveu quase 12 mil participantes, incluindo 7.211 pessoas que não ingeriam bebidas alcoólicas e 4.543 que bebiam modestamente (o consumo modesto de álcool foi definido como 120 ml de vinho, 350 ml de cerveja ou 30 ml de licor, por dia).

O estudo saiu na edição de junho de 2008 da revista médica Hepatology e concluiu que “os indivíduos que bebem até um copo de vinho por dia, quando comparados com outros que não consomem nenhum álcool, têm risco 50% menor de desenvolver esteatose hepática, enquanto aqueles que apresentam consumo moderado de cerveja ou bebidas licorosas têm cerca de quatro vezes mais probabilidades de desenvolver a mesma doença”.

A pesquisa não conclui nada a respeito da ingestão de quantidades maiores de álcool e, pelo contrário, enfatiza que “as pessoas com riscos de abuso do álcool não deverão considerar tomar vinho ou qualquer outra bebida alcoólica”, afirma o dr. Schwimmer.

Os outros fatores de risco para o desenvolvimento dessa doença são semelhantes àqueles para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como obesidade, nível elevado de triglicérides e pressão alta.

Portanto, mais uma vez, recomendamos beber vinho ou qualquer outra bebida alcoólica moderadamente. O vinho é para nos dar prazer e não dor de cabeça! Dor de cabeça, eis aí um ótimo assunto para a próxima edição!
Saúde!!

Autor: Dr.Carlos Eduardo Suaide Silva, cardiologista e editor do Jornal da Sociedade Brasileira de Cardiologia e Fellow of the American College of Cardiology (FACC) e da European Society of Cardiology (FESC)

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