Os Vinhos Bio

Fontes de curiosidade e objetos de debates acalorados, os vinhos que prescindem de ajuda química do plantio à vinificação são apelidados de Vinhos Bio

Vinhos Bio

Tomados por espécie de modismo, os vinhos deveriam ser vistos como vindos de uma prática histórica. Isso porque, antes das grandes guerras do século 20, todos eram “orgânicos”, uma vez que não era utilizado nenhum arsenal de defensivos químicos, que afloraram como uma poção mágica de consequências desmedidas. Outros viventes foram ameaçados pela solução química das guerras: os próprios solos.

Definidos como “um meio complexo e muito mal conhecido”, os solos têm sido estudados desde, no mínimo, 160 a.C., e classificados de acordo com suas propriedades físicas, elegendo terrenos propícios a cultivo específicos.

Os que lutam pela defesa da integridade do solo como agente vivo e determinante de qualidades de peso no conceito de terroir sabem que a agricultura racional deve ser sustentável. Com armas químicas não há viabilidade vital ao longo do tempo. Solos mortos pouco acrescentam à complexidade que, quando sentidas, devem ser atribuídas à vinificação e não ao produto natural, a uva.

 

NATURAIS

Há dificuldade em lidar com os “naturais”. Em 2012, houve um fato na Itália em que um agente federal sentenciou um caso de fraude envolvendo a venda desses vinhos porque não tinham nenhuma certificação.Sim, não possuem regulamentação. Inquirido, o agente respondeu que “vinhos naturais oficialmente não existem”, pois o caminho natural” do suco de uva que fermenta é o vinagre.

O vinho é um intermediário que necessita de uma ação que modula toda a filosofia que o circunda: a estabilização. Não se estabiliza um mosto em fermentação cruzando os braços e deixando que a natureza faça o que quiser. A intervenção necessária é de natureza química, e os naturais tendem a parecer instáveis ou algo como “beba enquanto é vinho, pois logo ele passará a um outro estado”.

Então, eles podem ser imaginados como um estado mais ou menos fugaz de um suco de uvas fermentado com características que lembrem vinhos! Por isso há grande flutuação (variação) organoléptica(sensorial).

ORGÂNICOS

Oriundos de um cultivo que recebe um tratamento “natural”, porém com vinificação diferente por oferecer um produto menos suscetível aos caprichos da natureza. Outra diferença é a noção de grandeza.

Vinhos naturais são, em sua maioria, feitos em pequena escala, o que não ocorre necessariamente com orgânicos. Aqui, o peso da “vinificação politicamente correta” é posto à prova.

Consumidos não só localmente, há necessidade de escolhas que não gerem impacto ambiental, como: apresentação (garrafa, bag-in-box), sistema de vedação (rolhas que impactem menos o ambiente), peso das garrafas, meios de transporte (poluentes) etc.

País icônico, a França estabeleceu a meta de chegar a 20% de sua área até 2020 conduzida organicamente. O quesito “certificação” dá um salto em termos de substancialidade,já que há regulamentação em vez da filosofia natural na qual cada um deve seguir sua consciência. Há leis! Para “vigiar e punir” há órgãos como “Ecocert” e “AB – Agriculture Biologique”.

BIODINÂMICOS

A biodinâmica é a filosofia orgânica fundamentada por uma teoria subjacente, originada de estudos de Rudolf Steiner, fortemente integrada à natureza. Todo biodinâmico conduz vinhas organicamente,mas fazem uso de métodos específicos de dinamização dos solos.

Nem todo orgânico é biodinâmico, mas esses todos são orgânicos. Cerca de 2% de todos os produtores mundiais se enquadram na categoria, alguns excepcionais, como Romanée-Conti e Nicolas Joly.

A categoria integra todos os elementos do terroir, da terra ao céu, no que poderíamos chamar de abordagem holística agricultural. Esses elementos têm por objetivo energizar as videiras, conferindo a elas forças para que se defendam sozinhas.

Para esse tipo de plantação, são usadas compostagens que dinamizam solos e um calendário lunar que determina datas importantes, como colheitas e engarrafamento.Os certificadores biodinâmicos são mais rigorosos, sendo o Demeter o mais importante.

CRÍTICAS

Todos são passíveis de críticas, mas a ordem apresentada obedece a uma escala crescente de preocupação com um conceito-chave: a sustentabilidade.

Pequenos produtores que se vangloriam de baixa manipulação na vinícola, às vezes abusam da manipulação dos vinhedos, como o uso excessivo do cobre, que pode matar o solo e ir contra um terroir perene. Cuidados com a terra não atestam qualidade indiscutível, mas preservam a identidade heterogênea, exaltando a diversidade.

Críticas pertinentes dizem respeito aos aromas que tentam “vender” terroir, mas expressam antes os micróbios que agem sobre o mosto, mais do que as características de onde as uvas foram cultivadas.

Sendo assim, louvemos a terra, sem nos deixar influenciar por defensores irresponsáveis de técnicas que servem mais ao ego de quem faz e menos à matéria-prima de que são feitos. Saúde!

Autor: André Logaldi, médico, membro da diretoria de degustação da ABS-SP, redator e revisor de textos sobre vinhos.
Foto: Johnny Mazzilli

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