Pesca do Bacalhau nas Ilhas Lofoten

Atualmente, o governo norueguês tem uma crescente preocupação. O bacalhau já não está mais empreendendo maciçamente sua rota tradicional

Geir Halvard Nilssen vive nas ilhas Lofoten, dentro dos limites do Círculo Polar Ártico. Ele é dono de um pequeno e resistente barco, o Maken (palavra que em norueguês significa gaivota), de não mais de sete metros de comprimento. Seus dois filhos preferiram seguir outro rumo e só eventualmente um deles o auxilia na pesca. Suas áreas de atuação concentram-se basicamente em dois fiordes chamados Raftsundet Fjord e Austnesfjord. No primeiro, ele pesca o Halibut e o Monkey fish, duas espécies de ótimo valor comercial, capturadas em épocas distintas da curta estação de pesca do bacalhau, que dura de fevereiro a maio nas ilhas Lofoten. E no Austnesfjord ele pesca principalmente o bacalhau, a espécie mais rentável, e também o Coal fish (Pollachius virens), um pescado de ótimo valor comercial, conhecido também como Saithe Pollachius e, em Portugal, como Escamudo. O Coal fish é destinado ao processo de salga e é comercializado no Brasil com o nome de bacalhau Saithe.

Há diversas espécies de pescados chamados de bacalhau. Há quem afirme que a expressão diz respeito somente ao processo de salga e de secagem dos peixes. A principal espécie é o cobiçado Gadhus morua, que atinge grande tamanho, de carne firme e branca, e que vive principalmente no mar de Barents, descendo a costa da Noruega em busca de águas menos frias para procriar. Os noruegueses o chamam de Skrei (scrái). Há outras subespécies que vivem nas águas costeiras e nos fiordes ao redor das ilhas, cuja aparência é exatamente a mesma do Gadhus morua, porém menores. Há ainda o Tusk (Brosme brosme), cujo nome em espanhol e em português é Brósmio, um animal de couro e de espécie distintas do Gadhus morua, que também é salgado e no Brasil é comercializado como o nome de bacalhau Ling.

Nilssen passou em minha cabine às 6h da manhã e saímos rumo a Sildpolness, onde seu barco fica ancorado. Rapidamente embarcamos e seguimos rumo à primeira de suas três redes de pesca que já se encontravam submersas desde o dia anterior. A cada fim de dia de pesca, as redes são novamente posicionadas para a captura do dia seguinte. A pesca do bacalhau é controlada estritamente pelo governo através de um sistema de cotas. Pescadores proprietários de pequenos barcos têm permissão para pescar 21 toneladas por temporada, o que não é uma quantidade muito grande, como o caso de Nilssen . Ele conta ao Clube Paladar que, a cada estação, esgota sua cota em aproximadamente 20 dias, às vezes menos. Por outro lado, para proteger os pequenos pescadores, o governo proíbe o acesso de barcos maiores que 12 metros de comprimento nos fiordes, resguardando as áreas de pesca artesanal. Enquanto estivemos embarcados, avistamos não mais que quatro ou cinco pequenas embarcações na área. Nos meses fora da estação do bacalhau, ele se dedica à pesca de outras espécies.

Rumamos em direção à primeira das boias sinalizadoras, e a corda que se prende à rede foi puxada a bordo e amarrada a um mecanismo de tração composto por dois cilindros, movido pelo motor do barco. Enquanto eu observava metros de corda subindo, comecei a ver imagens ainda um tanto indistintas abaixo da linha d’água. Eram os primeiros peixes, enroscados na rede nas últimas horas. Então, o pescado começou a emergir da linha d’água. O trabalho do nosso guia é duro e pesado. Quando o pescado se aproxima dos cilindros de tração, ele para o dispositivo, desenrosca a rede, pega cada peixe, o retira da rede, o que às vezes demanda cortar pedaços dela, parte com uma faca afiada o pescado abaixo da cabeça e o atira num tonel vazio. A incisão no “pescoço” do animal tem por objetivo fazer sair todo seu sangue, que, do contrário, se infiltraria na carne, inviabilizando sua venda. O pescado se acumula nos tonéis e neles são postas mangueiras ligadas a uma pequena bomba submersa, que bombeia água do mar incessantemente para dentro dos tonéis, fazendo com que a mistura de sangue e água salgada transborde e vá sendo constantemente trocada por água limpa do mar, durante horas, até que não restem resíduos de sangue.
Após a primeira rede, uma pausa para um rápido café da manhã, composto basicamente por pão de forma e um patê norueguês chamado Kaviar, que leva em sua composição principalmente maionese, tomate e ovas de peixe. Pode parecer estranho, porém é saborosíssimo, acompanhado de xícaras de café fervente. Bebo café a curtos intervalos para me aquecer. Apesar de bem protegido para a ocasião, o frio vai vencendo e uma nova xícara de café é sempre bem-vinda.

Fim da primeira rede, seguimos para a segunda, posicionada há uns 400 metros de distância. Junto ao bacalhau, emerge da água uma grande quantidade de Coal fish. Na verdade, nesse dia Nilssen capturou uma quantidade maior de Coal fish do que bacalhau. Para este pescado não há cota determinada. Vez por outra, aparece na rede um Brósmio ou alguma outra espécie. O Brósmio é sempre aproveitado, mas as outras espécies são devolvidas ao mar.
O tempo passa e já estávamos embarcados há sete horas. Fomos para a terceira e última rede, que, assim como as duas anteriores, estava repleta de peixes. Grandes bacalhaus com até 20 quilos e muitos exemplares grandes de Coal fish, com 10, 12 e até 18 quilos de peso. Os cinco tonéis já estavam repletos de peixes quando a terceira rede foi puxada, de modo que não havia mais espaço e o pescado era posto no chão do barco. À tarde, quando regressamos ao pequeno cais de onde partimos, mal havia como andar no pequeno convés. Foi capturada 1,4 tonelada de pescado, sendo aproximadamente 600 quilos de bacalhau.

Atualmente, o governo norueguês manifesta uma crescente preocupação. O bacalhau já não está mais empreendendo maciçamente a rota tradicional que se conhece há mais de mil anos, deixando o mar de Barents, seu celeiro de crescimento, e descendo a costa do país em busca de águas menos frias para desovar. Ele continua fazendo isso, porém em número preocupantemente menor. Pescadores locais afirmam que existe uma dinâmica cíclica: sete anos de pesca farta e sete anos de pesca escassa, fato relatado ao longo de séculos por sucessivas gerações de pescadores. Porém, desta vez, o animal parece ter alterado seus hábitos. Estudos preliminares indicam que ele vem se dirigindo a regiões desconhecidas para sua desova anual, ou, ainda, se adaptando para a desova em águas mais frias, contrariando um hábito da espécie, que é desovar em águas cuja temperatura ronda os 8°C. Essa questão vai além do tradicional controle dos estoques pesqueiros, conduzido com rigor cada vez maior pelo governo norueguês. Esforços vêm sendo empreendidos para descobrir para onde está se dirigindo o pescado mais consumido de todos os tempos.
O dia foi calmo, de céu aberto e sem vento, e pude apreciar paisagens selvagens e deslumbrantes a partir do barco. À tarde, ao final da pesca, Nilssen me presenteou com um bacalhau fresquíssimo de aproximadamente 3 quilos. Levei o peixe à minha acolhedora cabine, provida de um pequeno fogão elétrico e um número enxuto, porém suficiente, de utensílios de cozinha. Cansado e com fome, preparei o bacalhau de forma descomplicada e comi com prazer e voracidade. Mas não pude descansar muito: a noite se aproximava e era hora de começar a monitorar o céu para o encontro com a dama da noite: a aurora boreal, um dos mais fantásticos fenômenos da natureza.

Info
Onde Ficar
Há diversas opções de acomodação nas ilhas. As mais atraentes e que nos deixam mais próximos à natureza são as cabines ou lodges, lá chamadas de Rorbus, estrategicamente posicionadas defronte a cenários encantadores e à beira mar.

Em Svolvaer
Svinoya Rorbuer – na capital das ilhas, cabines tradicionais e bem equipadas à beira mar, a 15 minutos de distância do aeroporto.

Em Kalle
Lofoten Ski Lodge, um refúgio escondido e acolhedor, perfeito para amantes de ski, de quietude e isolamento

Em Hov
Lofoten Golf Links, em Gimsoya, uma das seis principais ilhas do arquipélago, tem o campo de golfe mais ao norte do mundo, provido de cabines novíssimas e aconchegantes defronte ao mar. Um dos melhores spots para observar a aurora boreal.

Em Sakrisoy
Olstind, lindas cabines defronte a uma vasta baía, que tem ao fundo montanhas de mais de 800 metros de altura que assomam diretamente das águas; um visual grandioso e impressionante.

Onde comer

Em Svolvaer
Borsen Spiseri, restaurante instalado em um antigo armazém do século 19, que mantém suas características originais. Gastronomia norueguesa clássica e atmosfera acolhedora.

Em Sakrisoy
Anita’s Sjomat, deliciosos fish burgers, pratos rápidos de pescados árticos e frutos do mar fresquíssimos. Destaque para o sashimi de bacalhau fresco, para comer de joelhos.

O que fazer
Há diversas atrações em Lofoten. Uma das principais é alugar um carro e gastar horas dirigindo em busca do que não falta: cenários magníficos. Há, no entanto, outras atividades.

Safári de águias marinhas
Lofoten Explorer AS
Uma das atividades mais encantadoras, parte de Svolvaer em meio a fiordes e paredões rochosos, rumo ao pequeno Trollfjord, um dos mais estreitos fiordes de Lofoten, lar da enorme águia marinha.
Lofoten Ski Lodge
Gosta de esquiar? Instrutores experientes guiam os viajantes pelas encostas seguras das montanhas ao redor.

Lofotr
Em Borg, o Lofotr, um interessantíssimo museu erigido sobre o maior assentamento viking já descoberto.

Lofotakvariet
Na pequena Kabelvag, um aquário interessante no qual se pode observar a vida exótica que habita as águas gélidas e profundas dos mares do mar do Norte e do mar da Noruega.

Turismo na Noruega

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