São Paulo ganha um novo espaço dedicado ao vinho

Foi inaugurado ontem, em São Paulo, o Espaço Museu do Vinho de São Paulo. Instalado num belíssimo casarão em Higienópolis, o local não é um museu no sentido mais conhecido da palavra: “Será um espaço interativo e participativo”, diz o idealizador e sócio, o espanhol natural da Navarra, Álvaro Uña. Álvaro possui um extenso currículo de espetáculos e apresentações multimídia em cinco continentes, que envolvem, às vezes, dezenas de projetores sincronizados e instalações de grande porte. No novo espaço, quase 60 projetores farão exibições dos mais variados assuntos do mundo do vinho.

Na inauguração, os convidados tiveram a oportunidade de conhecer de perto o trabalho inovador do MOVI, o Movimento de Vinhateiros Independentes do Chile, que congrega 37 produtores de vinhos do país, espalhados desde o Deserto do Atacama até a região dos Grandes Lagos, perfazendo uma extensão de 1.500 quilômetros. A associação é formada majoritariamente por produtores de pequeno porte, que apostam em vinhos mais leves e estilo mais moderno, em contraposição aos tradicionalmente encorpados vinhos chilenos. No evento, diversos produtores apresentaram rótulos de surpreendente qualidade.

O Clube Paladar conversou com Álvaro Uña poucos dias antes da inauguração do museu.

Cheguei ao local um pouco antes do horário, entrei e fiquei esperando o entrevistado chegar. Esperava encontrar um museu dentro de uma concepção tradicional de museu, mas tudo o que vi foram dezenas de fios descendo do teto, material espalhado, caixas e caixas fechadas e um intenso vai vem de pessoas trabalhando em marcenaria, forração e elétrica. Enquanto aguardava meu entrevistado, fiquei imaginando como seria aquele espaço uma vez pronto.

No horário exato, Alvaro Uña chegou, preocupado se estava atrasado. Puxamos duas cadeiras e ali mesmo começamos a conversar. Uña, 45, tem uma carreira extensa e prolífica. Natural da Navarra, Espanha, dentre muitos trabalhos realizados, foi sócio-fundador da Emotique MediaFlow Software, doutor em escultura pela Politécnica Universidade de Valencia e Multimídia pela Universidade La Salle, Barcelona. Coordenou a engenharia de programação para projetos audiovisuais no Aeroporto de Brasília, Odebrecht, Unilever e Timberland, assim como os projetos de museografia para o Museu da Nestlé em São Paulo, Museu das Ciências Naturais de Barcelona e o Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo. Foi diretor do Projeto Screen Festival Brasil. Produziu projetos importantes para a Daedalus, como a primeira performance em gravidade zero, no Centro de Treinamento Espacial “Star City”, na Rússia, em 2003. Já produziu mais de 400 shows em cinco continentes, bem como um espetáculo sobre pesquisas das ondas gravitacionais de Einstein na abertura do laboratório Virgo, em Pisa, na Itália, em 2006. Em 2008, criou a primeira balada do mundo em voo comercial, para o músico francês David Guetta.

Radicado no Brasil desde 2010, trabalha para artistas como Marisa Monte, Los Hermanos, Paralamas, Luan Santana, Jota Quest, Alceu Valença e outros, no desenvolvimento de novas tecnologias para shows e criação de conteúdos.

Esperava encontrar um museu aqui, no sentido convencional.
Tudo aqui será projetado. Não teremos nada físico, com exceção de pequenos objetos indispensáveis. Em sua versão final, serão entre 40 e 60 projetores computadorizados e sincronizados, atendendo às mais diferentes demandas de exibição de conteúdo. Em algumas salas, faremos constantes projeções de cunho histórico e religioso do vinho, por exemplo.

Como acontecerão essas projeções?
Nossas paredes são todas interativas, com cortinas que descem do teto e as projeções ocorrerão de forma a envolver completamente o expectador em uma experiência singular.

De quem foi a concepção desse espaço?
A ideia foi minha, e fui apoiado por outras três pessoas, que atualmente se resumem a um parceiro que se manteve comigo no empreendimento até o momento, o Gregório Resa, um grande enólogo espanhol.

Conte-me um pouco mais sobre o que acontecerá nesse lugar.
Aqui é um espaço multifacetado de eventos. Uma vinícola pode fazer suas degustações aqui e nós criaremos, para eles, apresentações absolutamente envolventes e lúdicas, por meio de jogos de imagens e efeitos especiais. Pessoas podem chegar a qualquer momento e fazer rápidas degustações temáticas e relaxar um pouco no ambiente. Pessoas e empresas poderão celebrar eventos sociais e corporativos, em que o vinho pode ser tanto o objeto central como um fio condutor para outros temas ou propósitos. Interessante que não contemplamos, ainda, todas as possibilidades – pelo contrário, as coisas estão acontecendo e estamos abertos para entender e formatar novas possibilidades.
A ideia central é que esse lugar seja um espaço interativo e participativo, com forte foco na cultura. Por exemplo, um quarteto de músicos clássicos veio até aqui e se ofereceu para tocar num sábado. Olha que legal, fiquei tão feliz com isso! Imagine uma breve degustação temática como, sei lá, três Sauvignon Blancs de três origens diferentes, sob o som de um quarteto de cordas. Ou um sarau de poesia, literatura ou um recital com degustações de vinhos. Fico muito feliz, porque mal abrimos e as coisas estão chegando até nós num ritmo muito interessante.
Outro exemplo: para outubro, uma confecção e uma importadora de vinhos se associaram a nós e faremos aqui uma interessante campanha pelo “Outubro Rosa”, por exemplo, com projeções interativas que abordam a necessidade da prevenção e da cura do câncer de mama. Qualquer tema nós podemos transformar em uma apresentação criativa e envolvente, que cative o expectador e possibilite a ele uma vivência agradável, a qual ele se lembrará por muito tempo.

Qual é seu envolvimento com o mundo do vinho?
Nasci na Navarra, região vizinha à Rioja, e cresci em um lugar intensamente envolvido pela cultura do vinho. Desde criança o vinho esteve presente à mesa em casa, na casa de amigos e de parentes. Lá, o vinho não é encarado como uma bebida alcoólica, e sim como um alimento complementar do dia a dia. Gosto de vinho e bebo regularmente, mas não sou um grande conhecedor, no sentido de que nunca estudei o vinho a fundo e não me especializei em nenhum ramo desse mundo fascinante e infinito. E, justamente por não ser uma pessoa especializada em vinho, não fico pensando propriamente no vinho, e sim em ações e iniciativa que tenham a bebida como pano de fundo ou fio condutor.

Como foi a escolha desse belo casarão para sediar o espaço?
Foi algo inicialmente fortuito. Eu passava aqui pela região quando vi esse imóvel desocupado para alugar. Fui à proprietária da imobiliária e propus alugar o imóvel, mas queria um valor mais razoável do que média da região, pois esperava também obter algum apoio para o projeto. Consegui um acordo razoável.

Há quanto tempo você desenvolve esse projeto?
Há mais ou menos dois anos, desde sua concepção preliminar. No ano passado, eu diminuí minhas atividades em outras áreas para poder me dedicar mais ao museu. Em novembro, comecei a prospectar imóveis e, em fevereiro deste ano, alugamos a casa. Tivemos um seríssimo percalço inicial, pois assim que alugamos o imóvel, poucos dias depois ele foi invadido e severamente depredado. A fiação elétrica foi toda furtada, paredes foram danificadas e banheiros foram completamente destruídos, bem como a parte hidráulica foi severamente atingida, com a destruição das caixas de água. A água vazou e empenou o piso, que teve de ser todo substituído. Até parte do telhado foi atingido pela fúria dos vândalos. Não compreendo o que leva as pessoas a fazerem esse tipo de coisa (silêncio pensativo). Mas superamos isso: gastamos mais do que pensávamos e reconstruímos o ambiente, aproveitando a oportunidade para remodelar um pouco o espaço de acordo com as necessidades do projeto. Felizmente, esse fato triste faz parte do passado e estamos muito motivados e entusiasmados.

Qual o montante investido no projeto?
Não é muita coisa, cerca de R$ 1,5 milhão, talvez um pouco menos. Ainda estamos fazendo as contas. E estamos abertos a diferentes tipos de parceria. Locação do espaço, troca de serviços e produtos, tudo isso ainda está sendo delineado e o andar da carruagem pode nos oferecer novas perspectivas. O importante é viabilizar as ideias, fazer com que aconteçam e que seja positivo para todos.

Para a gastronomia, qual é a estrutura disponível?
Temos aqui uma cozinha pequena e equipada para montagem e finalização de pratos. Não há como exercer aqui as funções de um restaurante. E acredito que isso seja suficiente, pois a ideia não é servir comidas sofisticadas ou de preparo complicado.

Haverá um bar de vinhos ou coisa parecida?
As pessoas constantemente me perguntam isso, mas essa não é a ideia. Tampouco seremos uma loja, a princípio. A ideia é oferecer degustações temáticas e específicas, que proporcionem experiências, e não ficar vendendo vinho em taças – a despeito de que possamos até mesmo vir a fazer isso. Estamos delineando as ações e estamos com a mente aberta. Se a procura por vinhos for muito grande, por que não?
Nosso propósito é a cultura. Como extensão desse projeto, ocuparemos eventualmente a praça ao lado (praça Marechal Cordeiro de Farias), que está sendo remodelada, e promoveremos eventos a céu aberto que se estendam por algumas horas num dia de fim de semana (atravessamos a rua e ele me leva até a praça para explicar algumas de suas ideias para o local).

Um casal está passando por aqui num sábado à tarde. Se eles entrarem, que tipo de experiência poderão ter aqui, sem nada previamente agendado?
Eles podem assistir, por exemplo, a uma exposição permanente sobre vinhos, cujos assuntos serão variáveis de tempo em tempos. Ou escolher um assunto de um menu de temas disponíveis para assistir. História, enologia, religião, assuntos em que o vinho é, evidentemente, o fio condutor. E podem também solicitar uma degustação temática, conforme expliquei. No que diz respeito aos diferentes assuntos do vinho que podemos abordar, o leque é amplo: geografia, geologia, hidrologia, poda, enxertia, vinificação, degustações, harmonizações, a importância do vinho como alimento cultural e por aí vai. Espaços podem ser dedicados por períodos de uma semana ou um mês, para abrigar marcas que apoiem determinadas causas ou mesmo para alguma promoção criativa de seus produtos.

Quais foram as principais dificuldades para a viabilização desse projeto?
Financeira e burocrática, eu diria. Não é fácil botar de pé um projeto desses. Eu nem diria que é por ser no Brasil, pois essas coisas são complicadas e burocráticas no mundo todo. Posso afirmar isso, depois de muitos anos promovendo eventos e espetáculos em diversos países em cinco continentes.

Espaço Museu do Vinho de São Paulo
Rua Minas Gerais, 246, Higienópolis, São Paulo, SP
(11) 94730-3477

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