Serra da Mantiqueira: produção gastronômica local

A nova fronteira vitícola de Minas Gerais

vinícola Stella Valentino

Por um lado, o consumo per capita de vinhos no Brasil ainda é tímido, de pouco mais de 2 litros por ano; por outro lado, o segmento vê crescer a qualidade de seus vinhos, favorecido pelo conhecimento acumulado ao longo de séculos no Velho e no Novo Mundo, pelo espírito empreendedor das novas gerações à frente das vinícolas e por um mercado cada vez mais receptivo, apesar das dificuldades. Nos últimos 10 anos, cerca de 8 milhões de brasileiros começaram a beber vinho.

Nesse contexto de crescimento de consumo da bebida no País, uma das regiões mais promissoras é a belíssima Serra da Mantiqueira, onde desde há muito tempo são produzidos vinhos coloniais, elaborados com uvas Vitis labrusca (de mesa), e onde atualmente se multiplicam os vinhedos de variedades viníferas. Foi lá que surgiram os primeiros vinhos de inverno, produzidos com uma técnica desenvolvida recentemente na aprazível cidade de Caldas, em Minas Gerais. 

Para falar dos vinhos de inverno brasileiros é fundamental entender o trabalho desenvolvido pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), uma instituição pública de direito privado vinculada à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa). Há postos da Epamig pelo estado, dedicados à agricultura e à pecuária, mas a unidade de Caldas, que foi inaugurada por Getúlio Vargas e funciona em um antigo casarão quase no centro da cidade, é inteiramente dedicada à pesquisa e à produção de vinhos. Foi a Epamig que desenvolveu a técnica de dupla poda, que faz com que as videiras frutifiquem no inverno — no hemisfério sul, elas dão seus frutos naturalmente nos meses de verão, entre dezembro e março. 

O período de produção é estendido porque há variedades de uvas mais precoces, que amadurecem no início do verão, enquanto outras castas frutificam mais para o fim da estação. As videiras são normalmente afetadas por diversos tipos de fungos, mais acentuadamente na estação chuvosa. A técnica de dupla poda inverte o ciclo produtivo da planta: após a produção, entre julho e agosto, as videiras são podadas, em setembro, para a formação de novos ramos, e recebem a segunda poda em janeiro ou fevereiro, para que a planta entre em produção. Isso faz com que os cachos se desenvolvam no inverno, estação mais seca e com melhor amplitude térmica.

A baixa umidade limita bastante o risco do ataque de fungos. Quando a amplitude térmica (a diferença entre a temperatura mínima e a máxima em um dia) é maior, melhor é o amadurecimento dos frutos e melhores são os vinhos. Videiras produzem frutos melhores quando as manhãs são frescas, mas não muito úmidas, as tardes são ensolaradas e as noites são frias, mas não demais. 

“Estamos agora testando a viabilidade de plantio de outras 12 uvas aqui na região”, explica Isabela Peregrino, enóloga da Epamig, que, além de realizar pesquisa tecnológica, vinifica as uvas para diversos proprietários de parreirais. Como os equipamentos e as instalações para a vinificação são muito caros, é muito comum que os produtores de uvas levem suas colheitas para o processo na Epamig, sob o olhar atento da especialista. “A dupla poda é uma técnica relativamente nova e ainda temos muito a aprender com ela”, diz Isabela. 

Para obter bons resultados, é importante que o vinhedo esteja situado a até 900 metros de altitude. Acima disso, os resultados são melhores sem a dupla poda, na estação normal. Também não são todas as uvas que conseguem produzir os vinhos de inverno. “Syrah e Sauvignon Blanc são duas variedades ótimas para os vinhos de inverno, mas outras uvas, como a Chardonnay, deram resultados decepcionantes até o momento. Seus cachos crescem miúdos e com poucos bagos, e o vinho, além do rendimento baixíssimo, é apenas regular”, explica Isabela.

Meu primeiro destino do dia foi a Casa Geraldo, uma vinícola tradicional nos arredores de Andradas. Fundada em 1969 e atualmente com 220 hectares de vinhedos plantados, suas instalações estão a cerca de 900 metros de altitude, em uma microrregião de clima muito propício à produção de uvas. Andradas é conhecida como a Terra do Vinho, onde se produz a bebida há muito tempo. Todos os anos, a cidade celebra a Festa do Vinho, que atrai milhares de turistas em busca da bebida e da gastronomia regional.

A maioria dos vinhos produzidos na Casa Geraldo ainda é elaborada com uvas de mesa (Vitis labrusca), mas os vinhedos de castas viníferas vêm ganhando espaço na propriedade. Containers refrigerados trazem uvas frescas recém-colhidas no sul do Brasil e utilizadas na produção de vinhos finos. Entre os destaque da Casa Geraldo estão o espumante Brut e o tinto Syrah. A vinícola é adaptada ao turismo, com passeios em meio a vinhedos bem cuidados, visitas à adega com degustação, loja e restaurante por onde passam cerca de 3 mil visitantes por mês.

Deixei a Casa Geraldo e segui para uma vinícola muito menor, ainda no município de Andradas. Na Stella Valentino, o simpático proprietário, Procópio Valentino, elabora uma trinca de excelentes vinhos de inverno: Syrah Modestus, Angelus Tempranillo e Lonori Sauvignon Blanc.

Uva Bordô

Na Serra da Mantiqueira cultivam-se muitas uvas de mesa, como Lorena, Isabel e a famosa uva tinta Bordô. Com essa grafia simplificada do nome Bordeaux, é uma variedade norte-americana, do estado de Ohio (EUA), de alto rendimento e boa resistência a pragas, com grande concentração de pigmentos em sua casca.

Ela foi uma das primeiras a serem plantadas na região, e seus vinhos seguem firmes no ranking da Mantiqueira. Também é conhecida como Terci e Ives, mas seu nome mais popular é Folha de Figo, por causa da semelhança de suas folhas com as da figueira. Ela resulta em vinhos rústicos e simples, amplamente apreciados. Na Epamig, a enóloga Isabela Peregrino produz um vinho agradável com a uva Bordô, equilibrado e muito acessível.

De Andradas, segui viagem para Caldas, onde me hospedei no hotel mais antigo em funcionamento no Brasil, o Grand Hotel Pocinhos, cercado de silenciosos bosques de araucárias e florestas. Na manhã seguinte, fui a Poços de Caldas, onde visitei o mercado popular e experimentei queijos, doces e deliciosos pastéis de farinha de milho recheados com carne.

No mercado, conheci Gabriel Bertozzi e seus aromáticos sabonetes feitos com azeite de oliva produzido na região. A Serra da Mantiqueira tem hoje nada menos que 200 olivais espalhados por colinas e antigas áreas de pastagem. A produção regional, embora ainda pequena devido ao plantio recente, crescerá muito em breve, assim que os olivais começarem a produzir. Mas, mesmo que o volume ainda seja pequeno, sua grande qualidade vem sendo cada vez mais reconhecida.

Ainda no mercado de Poços de Caldas, acompanhado pelo meu anfitrião Ulisses Guimarães, duas vezes prefeito de Caldas, conheci Beto Mosconi, proprietário da Villa Mosconi, que produz ótimos espumantes e um curioso riesling, de ótimo frescor, completamente diferente dos tradicionais europeus. Do mercado, seguimos para um almoço no Mangata, na companhia de Beto, onde experimentamos alguns espumantes de sua autoria com os pratos do restaurante.

Seguimos para uma belíssima propriedade, a Fazenda Irarema, em Poços de Caldas, que produz azeites de surpreendente qualidade, sendo uma das poucas fabricantes a ter uma prensa de alta tecnologia para a extração do óleo, além de criar sabonetes artesanais com o produto. Lá, degustei diferentes azeites e pude aprender um pouco mais sobre a produção. Nessa visita, fomos acompanhados por José Magalhães, idealizador do projeto D.O.C. Mantiqueira, que promove a integração e divulgação da cultura enogastronômica da região em eventos, feiras e roteiros turísticos. Ele também é curador do Projeto Embornal, um sistema de distribuição de vinhos, queijos, azeites, doces, cachaças e cafés especiais, todos produzidos na Mantiqueira e enviados aos clientes por serviços de assinatura.

Deixamos a fazenda após o escurecer e seguimos para a bucólica cidade vizinha, São Sebastião da Grama, onde tive a oportunidade de visitar o célebre Bar do Carlão, onde o próprio Carlão frita, em panelões largos e fundos, nacos enormes de torresmo, que saem da cozinha direto para as mesas, onde as pessoas aguardam ansiosamente para devorar o petisco. Comemos uma enorme porção desse torresmo acompanhado de uma deliciosa cachaça local, que entrávamos com goles de cerveja bem gelada. De volta à tranquilidade do hotel, caí no sono imediatamente.

O dia seguinte começou com uma visita à Vitácea Brasil, uma empresa de enxertias de videiras. Entre os vários temas abrangidos pela vitivinicultura, as enxertias são um dos assuntos menos conhecidos pelos aficionados por vinhos. Hoje em dia, o mundo inteiro utiliza porta-enxertos de variedades de Vitis labrusca, enxertados com galhos de variedades viníferas. A razão para tal procedimento é que as raízes das uvas labrusca não são atacadas pela terrível Phylloxera vastatrix, mais conhecida simplesmente como Filoxera, causada por um inseto hemíptero que devora as raízes das videiras viníferas. Em meados do século 19, a praga dizimou vinhedos no mundo inteiro, causando desabastecimento e graves problemas durante quase meio século.

“Como o inseto ataca majoritariamente as raízes, o jeito foi ter o pé de Vitis labrusca enxertado com as variedades desejadas de Vitis vinífera”, explicou a enóloga chilena Betzabé Galaz, responsável pela produção de enxertias na Vitácea. 

O último dia da viagem foi dedicado a conhecer um pouco mais da cidade de Caldas e seus arredores, como a bucólica Capela da Pedra do Coração, situada no alto de uma linda colina coberta de pastagens, onde a paisagem vai até onde a vista alcança. Era domingo e fui visitar, ao lado do hotel em que estava hospedado, o balneário Pocinhos do Rio Verde. Lá, experimentei um banho de imersão em uma das três águas termais com propriedades físico-químicas bastante distintas que brotam do subsolo. Com o tempo, a procura pelo termalismo e o uso de águas medicinais para tratamento de doenças caiu muito, mas vem crescendo novamente, provavelmente embalada pela busca de alternativas de saúde mais naturais.

Ao lado do balneário, fiz minha última visita da viagem: a 27ª Festa do Biscoito, evento anual que atrai milhares de turistas das cidades vizinhas e da região. Shows, artistas, barracas com méis, doces, queijos e cachaças fazem a alegria dos visitantes. O movimento é grande em todas as barracas, mas nada se compara à multidão diante da Dona Cidinha e do performático Budu, que servem enormes e suculentos sanduíches de pernil assado em biscoitos de polvilho. Minas Gerais não é para os fracos.

Deixei a feira encantado com tanta gente boa e generosa que conheci nesses 3 dias de viagem, bem como tantas coisas deliciosas que experimentei. Isso tudo em uma pequeníssima fração do estado, formada por apenas quatro cidades: Andradas, Caldas, Poços de Caldas e São Sebastião da Grama. Em breve voltarei para explorar melhor a região e conhecer outros destinos, mas isso será outra história.

Onde ficar

Em Caldas, no Grand Hotel Pocinhos: https://grandhotelpocinhos.com.br

Produtos de alta qualidade da região
D.O.C. Mantiqueira — @docmantiqueira 

 

Texto e fotos: Johnny Mazzilli.

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