Tasmânia, aos goles e bocados

A água gelada chegava aos meus joelhos. Protegida pelo macacão de pesca, não me sentia incomodada pela temperatura. Pelo contrário – o cenário natural estonteante ao meu redor contrastava com a mesinha montada dentro do estuário, quase boiando. Era ali mesmo que eu degustava ostras fresquíssimas, recém-retiradas da água, acompanhadas de um espumante local em temperatura simplesmente perfeita.

A experiência deliciosa é parte das atividades do hotel Saffire Freycinet, considerado um dos mais luxuosos da Austrália. O lodge é mesmo incrível, mas não é preciso se hospedar nele para provar o que a Tasmânia tem de melhor: comida fresca, ótimos vinhos e paisagens arrebatadoras estão em todos os cantos desta deliciosa ilha.

Localizada a 240 km da costa australiana, a 26ª maior ilha do mundo tem um terço de seu território tomado por reservas e parques nacionais. Originalmente habitada por aborígenes e depois transformada em colônia penal pelo Império Britânico, durante as Guerras Napoleônicas, a Tasmânia tem hoje pouco mais de meio milhão de habitantes, a maioria concentrada na capital Hobart.

 

Richmond Bridge

 

Com abundante vida selvagem, onde vivem golfinhos, leões marinhos, cangurus, wallabies, inúmeras espécies de aves e o mítico “demônio da Tasmânia” (este último em franca extinção), a região tem nos trekkings um dos passatempos prediletos dos turistas em rotas como Overland, South Coast, Wineglass Bay e Three Capes. Mountain bike, off road, mergulho, exploração de cavernas, escalada, pesca, caiaque, windsurf, raftings, cavalgadas e passeios em barco para ver de perto golfinhos e leões marinhos também fazem parte do amplo menu de atividades para quem visita o local. Vilarejos e ruínas históricas, da mais antiga ponte australiana em Richmond ao Port Arthur Historic Site (que já foi uma das maiores prisões do país e hoje é monumento tombado pela Unesco), também são incontornáveis.

Apesar da beleza natural ainda em grande parte selvagem, a Tasmânia ainda é destino bem pouco conhecido dos brasileiros que visitam o país. Por outro lado, tem atraído uma legião cada vez maior de viajantes aficionados pelo vinho e pela boa mesa. Hoje, já são mais de 200 vinícolas de diferentes tamanhos, estilos e vocações. Some-se a elas muitas propriedades e restaurantes que investem pesado nos conceitos farm-to-table e orgânico, bem como destilarias e cervejarias artesanais. Não surpreende, portanto, que o setor turístico que mais se desenvolve seja o enogastronômico, com o surgimento de empresas exclusivamente focadas nesse segmento, como a The Long Lunch Tour Co., que leva diariamente pequenos grupos de turistas para conhecer e degustar alguns dos mais saborosos – literalmente! – pedaços da ilha. Queijos, ostras, frutas, geleias, chocolates, pães, embutidos, vinhos, cerveja, gin e uísque – nada passa batido nos tours customizáveis criados por Brad Bowden, sempre com saída a partir da capital Hobart.

 

Vinhedos e arte

Se, por um lado, percentualmente a produção de vinhos da Tasmânia ainda é pequena diante do total fabricado pelo país, por outro seus rótulos vintage correspondem a 25% dos vinhos mais premiados da Austrália. Por vintage os locais entendem os vinhos que tenham a partir de 10 anos de garrafa, sejam quais forem as uvas utilizadas em sua elaboração. Há vinícolas de todos os tamanhos e gostos, e muitas não cobram pela degustação, a não ser que envolva seus vintages. Elegantes e intensos, os vinhos da Tasmânia são, em sua maioria, produzidos com uvas cultivadas em climas similares aos da Europa, incluindo Pinot Noir, Riesling, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon e Pinot Gris. Responsável por alguns dos mais premiados vinhos australianos, a Tasmânia se fez internacionalmente conhecida sobretudo por seus Pinot Noir e espumantes, que lideram a produção das vinícolas de todos os tamanhos. De médio porte, a Coal Valley instalou seu centro de degustações junto ao excelente restaurante, em uma casa de paredes de vidro literalmente em meio aos vinhedos. As degustações são gratuitas, mas vale reservar o almoço para fazer a degustação em forma de harmonização com os pratos. As vinícolas-butiques Coal Valley e Pooley Wines são outras duas ótimas pedidas na hora de conhecer o terroir do local. Ambas oferecem opções que harmonizam com seus vinhos, de ostras e fingerfood a refeições completas.Já a maior vinícola da ilha (e mais reconhecida internacionalmente) é a Moorilla, que ocupa, dentre outros territórios, uma ilhota privativa a 15 minutos de ferry do centro de Hobart. De um lado, um dos mais contraventores museus do planeta: o imperdível Mona (Museu das Artes Antigas e Novas), com a ultra-heterogênea coleção privada do excêntrico David Walsh – não por acaso, o museu virou instantaneamente uma das atrações mais visitadas de toda a ilha. Do outro, fileiras imensas de vinhedos até a terra encontrar o rio Derwent. É bem ali onde o jovem canadense Conor van der Reest dá vazão a seu estilo sustentável de produzir vinhos. Porém, mais importante ainda, é o território em que a empresa mais abertamente estimula australianos e turistas internacionais a provarem seus aromas em um lindo wine bar ou no excelente restaurante de alta gastronomia Source. A fusão gastro-etílica deu tão certo por aquelas bandas que recentemente a Moorilla resolveu começar a produzir também cervejas artesanais sob o bem-humorado rótulo de Moo Brew.
O premiado winemaker Ashley Huntington, que já trabalhou em parceria com diversas vinícolas locais, também resolveu apostar na produção paralela da cerveja e acabou virando o maior destaque da ilha no setor. Há alguns anos, criou a Two Metre Tall Company e, utilizando água das chuvas e do próprio rio na produção, fabrica hoje uma das mais saborosas e encorpadas cervejas do país.

 

Schouten Island

 

Da natureza à mesa

A ilha Bruny, parte do território da Tasmânia (são mais de 300 ilhas adjacentes à principal), é paraíso para quem quer misturar vida selvagem, boa comida e bons drinques. Diversos pequenos produtores locais e orgânicos enchem as mesas de sabor e frescura por ali, das suculentas ostras da Get Shucked aos impecáveis queijos produzidos por Leonie e Nick Haddow, da Bruny Island Cheese Co. Aliás, o sucesso dos queijos do casal (produzidos com leite de vacas e cabras criadas na propriedade familiar) foi tanto que eles se empolgaram e começaram a produzir também geleias e, surpresa, cerveja. Tudo isso pode ser degustado ali mesmo, acompanhado de pães quentinhos e assados na hora.

 

Bruny Island Cheese e o Mercado de Salamanca aos sábados

 

Paraíso de foodies, com suas pequenas propriedades produzindo queijos, geleias, cidras, cervejas, vinhos, destilados e até chocolates, a ilha Bruny também é fértil em vida selvagem, incluindo os raríssimos wallabies albinos, e detentora de um dos principais cartões-postais da Tasmânia, o istmo “The Neck”. Rodeado por água, o local tem uma escadaria de madeira cinematográfica até sua porção mais alta e uma das mais espetaculares vistas australianas do alto.

A mescla de história, natureza e boa mesa deu certo na Tasmânia. Tão certo, que sua vocação gastronômica é hoje certificada pela escola de culinária Agrarian Kitchen, reconhecida internacionalmente.


A capital Hobart

Hobart, capital da Tasmânia e destino por onde chega a maioria dos turistas à ilha, compõe também a mais bem estruturada base para hospedagem. A oferta hoteleira é imensa, desde simpáticos bed & breakfasts até o charmoso Henry Jones Art Hotel, que ocupa os restaurados galpões de uma fábrica de geleias no adorável waterfront e abriga mais de 250 obras de arte em seus 50 quartos.

 

Mirante no Monte Wellington, com vista para a cidade de Hobart

 

Hobart é gostosa de caminhar – seja pela orla ou pelo centrinho – e também oferece atrações saborosíssimas aos visitantes. Um excelente programa de fins de semana é seu Salamanca Market, que reúne em suas barraquinhas produtores locais de todo tipo de delícias, de geleias a tradicionalíssima scallop pie (torta de vieiras). Ainda que o mercado só funcione aos sábados e domingos, a área ao redor, conhecida pelo mesmo nome, reúne diversas lojinhas, cafés, bares, bistrôs e restaurantes que funcionam a semana inteira.

Uma das melhores opções do centro para jantar é o impecável Franklin, sob comando do chef David Moyle. Instalado em um antigo showroom da Ford dos anos 1920, tem menu tão fresco que muda todos os dias – e nele só entram ingredientes locais, é claro. Com cozinha aberta, seus pratos são preparados na hora e oferecidos em duas opções de tamanho, para que os comensais possam compartilhar e experimentar opções diferentes durante uma mesma refeição.

 

Lark Distillery

A um par de quadras do mercado fica a também imperdível Lark Distillery, uma destilaria de uísque artesanal que produz a bebida utilizando a água mineral da ilha. É possível degustar os diferentes itens de sua produção em bem bolados “flights” (a partir de 10 dólares) e a movimentada área do bar serve também diversos coquetéis à base da bebida e centenas de rótulos diferentes de uísques oriundos de outras partes.

 

Austrália para beber

Nem só de Tasmânia vive a Austrália, é claro. Então, nada mais justo que explorar também outros emblemáticos territórios australianos, da bela Sydney ao Outback, da Grande Barreira de Corais à estonteante beleza das Blue Montains (destino, aliás, que guarda o incomparável Emirates One & Only Wolgan Valley, não à toa considerado o melhor hotel de todo o país).

Com mais de 200 milhões de anos de um território de ecléticas topografia, geologia e clima, é óbvio que a Austrália guarda também outras regiões vinícolas extremamente sedutoras – incluindo as premiadas e ainda pouco visitadas por turistas internacionais Yarra Valley, próxima a Melbourne, e Margaret River, famosa por seu brancos de Sauvignon Blanc.

Voo de balão ao amanhecer em Yarra Valley

 

A apenas duas horas de carro de Sydney, o Hunter Valley é a mais antiga região vinícola da Austrália, com os primeiros vinhedos cultivados ali ainda nos idos de 1820. A própria viagem até lá já vale, pela cênica estrada da Great Dividing Range, a cordilheira australiana, ladeada por imensos paredões montanhosos. Uma vez no vale, vinhedos a perder de vista, mais de 150 vinícolas abertas à visitação e mais escolas de culinária, galerias de arte, pequenos produtores de queijos e azeites e campos de golfe premiados. Diversas empresas (como a A&E) promovem tours a partir de Sydney, sejam day tours ou passeios com pernoite em um dos charmosos lodges da região, incluindo visitas e degustações em vinícolas como a Mount View Estate (familiar, e produzindo há mais de 40 anos na região) e Brokenwood Wines. A principal uva da região é a Semillon, mas há também consistente produção de Chardonnay, Shiraz, Cabernet Sauvignon e Verdejo.

Mas a grande estrela da vinicultura australiana é indiscutivelmente  a região de South Australia. Sua capital, Adelaide, é considerada também a capital vinícola de todo o país e uma das dez mais importantes do planeta pelo ranking Great Wine Capitals of the World (que inclui também Napa, Bordeaux, Rioja, entre outras).

Adelaide Hills

 

A região tem sub-regiões com identidades bastante próprias, com mais de 200 vinícolas diferentes – e todas a curta distância do centro de Adelaide. McLaren Vale fica a apenas 40 km do centro, entre a cadeia Mount Lofty e as praias do golfo de St. Vincent. A Shiraz é a grande vedete da região e ali estão localizadas mais de 65 vinícolas, a maioria butique, como a hipster Alpha Box & Dice e a biodinâmica Gemtree, além de 270 viticultores independentes. Mas grandes vinícolas também encontram ali seu espaço, como a Hugh Hamilton Wines (já na quinta geração familiar de winemakers) e a Wirra Wirra.  Boa mesa também é encontrada com fartura ali, com destaque absoluto para o excelente restaurante Salopian Inn, da chef Karena Armstrong. No entanto, a maior atração de McLaren Vale é, sem dúvida, a vinícola d’Arenberg e sua sede conhecida como The Cube. O local, uma mistura bem bolada de museu, centro de degustações e restaurante dentro de um incrível edifício contemporâneo em formato de cubo retorcido com quatro andares, chama mesmo a atenção de longe em meio ao mar de vinhedos da região – e vale definitivamente a visita.

Adelaide Hills é outra região vinícola nos arredores da cidade, uma das mais importantes da Austrália e a mais antiga de South Australia. Os primeiros vinhedos cultivados ali datam de 1839, meros três anos após o estabelecimento da colônia. Hoje, são mais de 50 vinícolas –– a maioria butique, de jovens viticultores e com forte inclinação hipster, como a The Lane e a incrível Ochota Barrels –– distribuídas entre paisagens tão pitorescas quanto as encontradas em Bordeaux ou Napa Valley. O bar/restaurante Lost in a Forest, da Ochota, é simplesmente imperdível e a Unico Zelo & Applewood Distillery, da Ochre Cellars, produz excelentes gins que podem ser degustados ali mesmo em criativos flights.

Lost in a Forest e a arquitetura arrojada e futurista da vinícola D’Ahrenberg Cube

 

Mas é Barossa, localizada a cerca de uma hora de estrada de Adelaide, não apenas o verdadeiro coração da produção vinícola australiana como também um destino perfeito para foodies de plantão. E ainda, comprimida entre os vales de Barossa e Eden, a paisagem da região é um verdadeiro colírio para os olhos. Guarda surpresas encantadoras como as vinícolas butique Yelland & Papas, Murray Street e St. Hugo, mas também gigantes como Seppeltsfield (dona da maior adega de vinhos fortificados do país), Yalumba e Jacob’s Creek. Cabernets, Shiraz, Grenache, Chardonnay e até Tempranillos são fartos por lá.

Barossa é maior, mais cheia de atrativos e, ao contrário de outras regiões vinícolas no entorno de Adelaide, não cabe apenas em um day tour – é preciso se hospedar ali, preferencialmente por duas noites, para desfrutar do melhor da região. Empresas como a excelente Barossa Daimler Tours customizam tours por lá para os mais distintos perfis de turistas – com calma e sem atropelos, e com toda a segurança. Dentre os inúmeros restaurantes excelentes da região, destaque absoluto para os irrepreensíveis Harvest Kitchen e fermentAsian – mas opções não faltam. Para se hospedar, hotéis butique e de luxo irretocáveis, como o adorável The Louise, membro da Relais & Chateaux, cujos quartos são todos em formato villa, permitem que a gente não descanse a vista dos vinhedos nem de dentro do nosso próprio refúgio. Encantador.

Texto: Mari Campos

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