Dica de livro: ‘Tempestade numa Xícara de Chá’

Cientista revela, em livro, os truques do dia a dia e os padrões que se repetem na cozinha e em outros lugares ‘comuns’. Enxergá-los nos ajuda a entender como o mundo gira. Por Viviane Zandonadi

“Na sua xícara de chá, a espiral dura apenas alguns segundos antes de os dois líquidos se misturarem completamente. Mas isso é o bastante para você vê-la – um pequeno lembrete de que os líquidos se misturam em belos padrões torvelinhantes, e não em fusões instantâneas. O mesmo padrão pode ser visto em outros lugares, e pela mesma razão. Se você observar a Terra do espaço, em várias ocasiões poderá ver redemoinhos muito parecidos nas nuvens, provocados onde o ar quente e o ar frio dançam um ao redor do outro em vez de se misturarem de modo direto.”
“Na sua xícara de chá, a espiral dura apenas alguns segundos antes de os dois líquidos se misturarem completamente. Mas isso é o bastante para você vê-la – um pequeno lembrete de que os líquidos se misturam em belos padrões torvelinhantes, e não em fusões instantâneas. O mesmo padrão pode ser visto em outros lugares, e pela mesma razão. Se você observar a Terra do espaço, em várias ocasiões poderá ver redemoinhos muito parecidos nas nuvens, provocados onde o ar quente e o ar frio dançam um ao redor do outro em vez de se misturarem de modo direto.” Foto: detalhe da capa do livro/Reprodução

O que um livro sobre a física do cotidiano pode fazer por você? Nada além de dar um pouco de sono, porque de complicado chega tudo, diz alguém, segurando a força de um bocejo, no fundo da leitura. Errado e precipitado. Vou tentar explicar, principalmente para outro alguém que, ao ler a pergunta, indagou sobre ela: como assim, a física do cotidiano? Antes, porém, outra questão: o que um livro sobre a física do cotidiano diz a respeito da cozinha? Bom, essa talvez seja mais fácil: boa parte das transformações, dos padrões, dos mecanismos e das experiências relatadas na física se manifesta na cozinha ou à mesa. Faz sentido, porque a cozinha é onde as coisas acontecem.

CURIOSIDADE

Mas calma. Vamos voltar um pouco no tempo. Quando eu estava no colegial – naquela época antiga ainda não era ensino médio –, para conter índices de reprovação e desistência, a escola em que eu estudava usava um sistema de dependência igual ao das universidades; você passa de ano mesmo tendo sido reprovado em até três matérias, sob a condição de estudá-las de novo em horário complementar, fazer as provas e tirar a nota mínima. No primeiro e no segundo ano, eu peguei DP de matemática, física, biologia e química. É. Eu costumava me sair melhor em humanas e sentia arrepio de unha raspando na lousa quando me aproximava das provas de biológicas ou exatas. Elas vinham implacáveis e eu, a cabeça em prosa e verso, era quase sempre atropelada.

Só exponho dessa forma desavergonhada a dureza das dependências para que a leitora e o leitor tenham a medida da curiosidade que me fez sair do escritório e ir até uma livraria em chuvosa tarde de verão comprar Tempestade numa Xícara de Chá – A Física do Dia a Dia, da inglesa Helen Czerski. Ela é física, oceanógrafa e pesquisadora de engenharia mecânica.

O que me tirou da toca foi ter visto dias antes, na plataforma online TED, uma apresentação da autora. Em A Fascinante Física do Dia a Dia (com legendas em português, dá para assistir no Youtube), Helen percorre em quinze minutos suas paixões pela física. E defende o que está escrito: perceber as leis da física no cotidiano – na espuma do leite, no calor da torradeira, na densidade dos ovos cozidos e, olha só, no modo como a torrada despenca no chão – transforma a cozinha, e o mundo, em um lugar maior. Transforma a cozinha, e o mundo, em um parque de diversões. E não precisa ser nerd para entrar na brincadeira. Basta ter curiosidade e se deixar levar pelo encantamento.

Para Helen Czerski, uma torradeira pode ensinar leis da física e quem se dispuser a aprender verá o mundo de outra perspectiva. Foto: Alex Brenner
Para a cientista e escritora Helen Czerski, uma torradeira pode ensinar leis da física e quem se dispuser a aprender verá o mundo de outra perspectiva. Foto: Alex Brenner

 

AÇÃO

Depois de ver o filme, os algoritmos da navegação me perseguiram com reportagens e entrevistas da autora. Deu no Guardian, na National Geographic. Se Helen já tinha ganhado em mim admiração e simpatia – e uma seguidora a mais no Twitter –, não só por ter despertado minha curiosidade, mas também por ter se mantido viva e corajosa no palco diante de um público majoritariamente frio e incapaz de rir de suas tiradas bem programadas (é TED, calculado como todos os discursos da plataforma precisam ser, mas pouca gente respondeu aos estímulos), com o livro ela me conquistou de vez.

Logo eu estava virando páginas e olhando como nunca olhei o torvelinho que se forma quando o fio de leite pinga no chá, e a colher gira e forma o redemoinho em que posso ver nitidamente, durante poucos segundos e até que estejam efetivamente misturados, os dois líquidos com jeito de tempestade. Não parece poesia? Pois é.

Logo eu estava procurando a beleza das pequenas coisas e exercitando outras brincadeiras propostas, como girar dois ovos sobre uma bancada e “adivinhar” qual dos dois está cozido.

A estratégia de trazer relatos do dia a dia, conectados a situações corriqueiras, funciona. Deixa a leitura magnética e agradável. Um trecho: “Na sua xícara de chá, a espiral dura apenas alguns segundos antes de os dois líquidos se misturarem completamente. Mas isso é o bastante para você vê-la – um pequeno lembrete de que os líquidos se misturam em belos padrões torvelinhantes, e não em fusões instantâneas. O mesmo padrão pode ser visto em outros lugares, e pela mesma razão. Se você observar a Terra do espaço, em várias ocasiões poderá ver redemoinhos muito parecidos nas nuvens, provocados onde o ar quente e o ar frio dançam um ao redor do outro em vez de se misturarem de modo direto.”

DEBAIXO DO SEU NARIZ

“Uma torradeira, por exemplo, pode lhe ensinar algumas das leis mais fundamentais da física, e a vantagem é que você provavelmente já tem uma, e pode vê-la funcionando ali mesmo na sua frente.”, escreve Helen. Foto: Pixabay
“Uma torradeira, por exemplo, pode lhe ensinar algumas das leis mais fundamentais da física, e a vantagem é que você provavelmente já tem uma, e pode vê-la funcionando ali mesmo na sua frente”, escreve a autora. Foto: Pixabay

 

Os padrões universais existem tanto na cozinha quanto nos confins do universo, escreve Helen. “Uma torradeira, por exemplo, pode lhe ensinar algumas das leis mais fundamentais da física, e a vantagem é que você provavelmente já tem uma, e pode vê-la funcionando ali mesmo na sua frente.” A autora afirma que muitas das coisas que percebeu sozinha não envolveram laboratórios e programas de computador sofisticados ou experiências caras. “As descobertas mais gratificantes vieram de coisas aleatórias com que eu estava apenas brincando, em momentos em que, em tese, não estava me dedicando à ciência.”

Lá pelas tantas, já não sei se é no livro ou no TED, ela conta que se aflige ao perceber que nós, adultos, abafamos nossa vontade de querer saber e não nos deixamos parar e tentar entender. Como quando andamos por aí e de repente vemos algo estranho e incomum, sabe? Rápidos e impacientes, desviamos para outro lado, sem parar. Nos refugiamos no relógio, na preocupação ordinária, numa mensagem eletrônica ou na corrida para a próxima tarefa, aquele ritmo de gincana considerado normal por não existir tempo a perder. A hierarquia das importâncias.

Gostaria de ter conhecido alguém como Helen no colegial. Queria ter tido uma professora assim. Mas estou contente por ter encontrado agora suas ideias. Recomendo a leitura – e um olhar mais demorado e generoso quando você deparar com algo estranho, bonito, diferente. As bolhas de um assado. O desenho do café derramado na mesa de fórmica.

É provável que a física esteja se exibindo, feito a magia da realidade, diante de você.

 

Crédito: Amazon
Crédito: Amazon

Tempestade numa Xícara de Chá
Helen Czerski (Trad. Catharina Pinheiro)
Editora: Record
350 págs., R$ 60

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CAPÍTULO 4
Um momento no tempo – A marcha para o equilíbrio

Nesta parte do livro, Helen se esmera em explicar que é possível passar horas batendo no fundo da garrafa de ketchup invertida sobre o prato e, ainda assim, o molho não vai fluir. Ele só flui no tempo e na velocidade certa. Se mais gente perceber isso, é possível que as “vigas de carvalho de um pub inglês” não mais tenham de testemunhar com tanta frequência a luta indigna de um comensal com o ketchup, batatas fritas à espera, em um típico almoço de domingo inglês (e o molho esparramado pelo prato, pela mesa, na perna do vizinho…). Leia um trecho.

Na hora do almoço de um domingo preguiçoso, o melhor lugar para estar é em um pub inglês. As entranhas desses estabelecimentos sempre dão a impressão de terem sido cultivadas, e não projetadas – um aglomerado de espaços com formatos estranhos escondidos dentro de um esqueleto de carvalho. Você se acomoda a uma mesa posicionada entre comadres de latão polido e quadros de porcos pre – miados da era georgiana, e pede um almoço típico de um pub. O prato sem – pre vem acompanhado de uma tigela de batatas chips e um frasco de vidro de ketchup, mas essa combinação tem seu preço. Por décadas, as vigas de carvalho testemunharam um antigo ritual. O ketchup deve ser extraído da garrafa, mas isso não acontece sem uma boa luta.

Tudo começa quando uma pessoa otimista simplesmente vira o ketchup de cabeça para baixo sobre a tigela de batatas chips. Nada nunca acontece, mas ninguém pula essa etapa. O ketchup é grosso, viscoso, e a mera força da gravidade não é suficiente para extraí-lo do frasco. Ele é feito assim por duas razões. A primeira é que a viscosidade não deixa que os temperos desçam para o fundo do frasco caso ele seja esquecido por algum tempo, então você não precisa se dar ao trabalho de agitá-lo para misturar o conteúdo. Mas o mais importante é que as pessoas preferem uma camada grossa para cada batata, e não conseguiríamos obter essa cobertura se o ketchup fosse aguado. Entretanto, ele ainda não está na batata. Ele continua no frasco.

Após alguns segundos, tendo se dado conta de que o frasco de ketchup é tão imune à gravidade quanto qualquer outro que já tenha encontrado pela frente, o esperançoso amante de bata – tas chips começa a agitá-lo. A agitação torna-se mais e mais violenta, até que chega a hora de tentar bater no fundo do frasco com a mão livre. No momento em que os outros ocupantes da mesa começam a se afastar para se proteger, boa parte do conteúdo cai todo de uma vez. O estranho é que o ketchup clara – mente pode fluir com muita facilidade e rapidez – a grossa camada que agora cobre a tigela (e provavelmente tam – bém metade da mesa) é prova disso. Ele simplesmente não flui – até fluir, e então flui com um entusiasmo e tanto. O que há de errado?

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