Tempo de Colheita

Voltamos ao sul do Brasil para conhecer um pouco mais da crescente e cada vez mais diversificada viticultura brasileira.

Colheita na vinícola Don Giovanni

Desta vez, chegamos a Bento Gonçalves em um agradável fim de tarde. Época de colheita, de atividade nos vinhedos e cantinas. Em toda parte, caminhões e tratores indo e vindo transportando uvas. Além de Bento Gonçalves, há todo um entorno muito bucólico e promissor, como o distrito de Pinto Bandeira e as charmosas Flores da Cunha e Garibaldi, pequenas cidades vizinhas totalmente envolvidas com a produção do vinho e também a movelaria, outro segmento forte na região.

Devido o calor, a safra 2018 foi atípica e, como resultado, as variedades Chardonnay e Pinot Noir, em grande parte destinadas à produção de espumantes, amadureceram mais cedo e já haviam sido colhidas há semanas. Grande parte dos vinhedos já estava colhida e restavam algumas poucas variedades brancas e muitas tintas ainda nas vinhas, esperando pela foto e aguardando a maturação.

No sul do país, o vinho brasileiro parece atravessar um momento positivo de crescimento e diversificação, enquanto a produção de vinhos pelo mundo experimenta certa retração. É nítida uma diversificação de estilos e boas experiências, com ótimos vinhos de pequenas produções, como o notável Era dos Ventos Peverella 2014, um vinho recentemente escolhido pelo guia Descorchados como o melhor vinho brasileiro de 2018, do produtor Luiz Henrique Zanini. Uma pessoa adorável, além de fazer vinhos únicos Zanini é uma poeta, e suas poesias estampam os delicados rótulos de seus vinhos. Cresce também a preocupação com vinhedos mais saudáveis, tratados com menos ou com nenhum defensivo, e um retorno às práticas de produção de vinhos com menos intervenções.

Visitamos a gigante Aurora, com sua vasta galeria subterrânea de barricas gigantescas de madeira no subsolo de Bento Gonçalves. Destaque para o excelente Aurora Cabernet Sauvignon Millésime 2012, vinho ícone da vinícola.

Leveduras aprisionadas na garrafa de espumante na Cave Geisse

Após o almoço, deixamos o distrito de Pinto Bandeira, retornamos ao Vale dos Vinhedos e fomos ao wine garden da Miolo, nos jardins ao lado da vinícola e defronte ao famoso Lote 43, o primeiro pedaço de terra que a família de imigrantes recebeu quando chegou da Itália, cujo nome batiza também o vinho ícone da vinícola. À noite, de volta a Bento Gonçalves, fomos conhecer a especialidade do restaurante Caldeira, o ossobuco com polenta mole. O ambiente é descontraído e informal e o ossobuco é para comer de joelhos.

No dia seguinte revisitei a incrível Cave Geisse, onde, desta vez, tive a oportunidade e o prazer de conhecer Mário Geisse, fundador e proprietário da vinícola e um dos artífices da criação da primeira Denominação de Origem específica para espumantes. Não sei o porquê, mas eu imaginava o Mário um sujeito reservado, algo sério, mas na verdade é brincalhão e piadista, ele fez questão de ficar conosco do começo ao fim da visita, e ainda saía recontando as piadas que contávamos. Assim como na primeira visita, o dia na Cave Geisse foi de valioso aprendizado. Não à toa a vinícola acumula prêmios e citações elogiosas mundo afora, com seus espumantes impecáveis. Mário tem ainda vinícolas na Argentina e no Chile.

Da Cave Geisse foi um pulo até a vinícola vizinha, Don Giovanni, localizada a menos de dois quilômetros de distância. Em minha visita anterior a região, em novembro, eu já havia conhecido essa vinícola em Pinto Bandeira. A Don Giovanni já foi, no passado, um laboratório experimental e centro de pesquisas da Dreher. Quem nos contou sobre isso em detalhes foi o Daniel Panizzi, da quarta geração da família à frente do negócio. Após uma degustação e uma breve caminhada pelos vinhedos, segui para Garibaldi, onde me instalei no Casacurta, um hotel amplo e silencioso, recentemente restaurado. À noite tive um jantar harmonizado no pequeno e acolhedor restaurante do hotel.

Um momento muito interessante da viagem foi a visita a vinícola Dal Pizzol. Chegamos lá em uma manhã quente e ensolarada. Na verdade, fazia um calor dos infernos. Os convidados já se defendiam do calor de espumante em punho, esperando uma palavra do Sr Rinaldo, proprietário da vinícola. Após uma breve saudação de boas vindas, ele passou a bola para o enólogo Dirceu Scottá, que conduziu o grupo ao Vinhedo do Mundo, a terceira maior coleção de espécies de videiras diferentes do mundo, com cerca de 450 espécies de uvas viníferas das mais variadas origens e tipos. Lá, os visitantes recebiam um chapéu de palha, um avental e uma tesoura de colheita, e cortavam simbolicamente um ou dois cachos de uvas, posteriormente reunidos todos em uma grande mesa. O destino dessas uvas é a produção do Vinum Mundi, um vinho simbólico com mais de 150 tipos diferentes de uvas. Muitas destas variedades, apesar de pertencerem ao ramo Vitis vinifera, não são adequadas à produção de vinhos de qualidade, mas lá no Vinhedo do Mundo elas brilham com seus nomes difíceis e exóticos, bagos às vezes enormes e algumas de cores incomuns. À noite, fomos ao wine movie da Peterlongo, uma atração que se tornou famosa em pouco tempo e atrai muita gente bonita. Uma sessão de cinema em um telão ao ar livre, com as pessoas acomodadas entre almofadões, sofás e cobertores e turbinadas, tudo movido a vinhos, espumantes e comidinhas.

Marcelo Soares na Dal Pizzol

No dia seguinte, fui a uma vinícola surpreendente em Flores da Cunha, a Luiz Argenta, que já demos aqui na edição 12 do Clube Paladar. Com uma estrutura imponente e vinhos muito elegantes e bem acabados, a sede da vinícola é, sem duvida, um dos projetos arquitetônicos mais bonitos do Brasil. No fim da tarde, retornei a Don Giovanni e me instalei no lindo casarão da década de 1930, hoje reformado e transformado em uma agradável pousada colonial em meio aos vinhedos. Tive assim a oportunidade de conhecer melhor o trabalho da vinícola e desfrutar seu bucólico e silencioso entorno a cada entardecer. O último dia da viagem foi dedicado à visita a três produtores. Pela manhã, fui a Vinha Unna, um pequeno e interessante projeto de viticultura biodinâmica, conduzido pelo casal Marina e Israel Santos. Dos três vinhos experimentados, merece destaque o excelente Chardonnay Lunações. À tarde, visitei a Larentis debaixo de um calor quase insuportável. Os vinhedos ao redor da adega são verdadeiros jardins e a vinícola recebe turistas para pic nics em meio aos vinhedos, com diferentes composições de kits de guloseimas e vinhos. A tarde, fui conhecer Vilmar Bettú, um pequeno produtor, com seus vinhos insólitos, cujos destaques foram um chardonnay 2009 sem passagem em barrica e de notável frescor e acidez, e um exuberante e carnudo Nebbiolo. Sua adega, típica de um filme, parece ser uma caixa de surpresas, com teias de aranha e sinais do tempo recobrindo centenas e centenas de garrafas empilhadas em prateleiras, cujos rótulos são, às vezes, pequenos papéis já esmaecidos ou carcomidos. “Bettú, que vinhos são esses aqui nessa prateleira?”, perguntei, apontando para algumas garrafas. “Ah, não lembro. Qualquer hora eu tenho de abrir um para lembrar o que é”, respondeu ele.

De volta a Dom Giovanni, deu tempo de caminhar até o vinhedo e assistir um silencioso por do sol, onde só escutava alguns passarinhos. Na última noite, jantamos com a presença do proprietário, Daniel Panizzi, não sem antes irmos às entranhas da adega, de onde ele retirou dois vinhos antigos da coleção familiar para degustarmos no jantar, fechando essa gratificante viagem com chave de ouro.

Em junho, o Clube Paladar visitará novamente a região, desta vez para participar do Brazil Wine Challenge, um concurso internacional de vinhos promovido pela ABE, a Associação Brasileira de Enologia, e que acontece a cada dois anos em Bento Gonçalves. O objetivo do concurso é fomentar o intercâmbio de conhecimento profissional e tecnológico entre profissionais do mundo do vinho em vários países. Mas isso é outra história.

Info                   

O que visitar

Vinícolas
Há muita coisa para ser vista. Uma boa dica é passar algumas horas nos wine gardens da Cave Geisse e da Miolo, entre empanadas, snacks, vinhos, espumantes e boa música ao ar livre. Puro prazer e descontração.

Cave Geisse

Nos pequenos produtores, como Vinha Unna e Vilmar Bettu, as degustações e a conversa sobre o vinho pode ser mais profundas e envolventes, para os mais interessados. Na Vinha Unna há um pequeno e disputado bistrô, o Champenoise. Imprescindível fazer reserva ou ligar antes, em caso de última hora.

Ao lado, na Don Giovanni, há degustações e loja de vinhos e é possível fazer uma breve caminhada nos pitorescos vinhedos da propriedade.

Há os grandes produtores, como a Aurora, com enormes instalações no centro de Bento Gonçalves e loja de vinhos para todos os gostos e bolsos.

Na vinícola Luiz Argenta, em Flores da Cunha, há um excelente restaurante.

A Cave Larentis recebe turistas para piqueniques nos vinhedos.

Wine Movie na Peterlongo

A Peterlongo tem seu já famoso Wine Movie, uma sessão de cinema ao ar livre movida a vinhos, espumantes e petiscos.

Na temporada na colheita, a vivência no Vinhedo do Mundo, na vinícola Dal Pizzol, com um almoço de encerramento.

Madrelustre
Vale uma visita a essa vidraria artesanal em Garibaldi, onde artesãos fazem belas peças de vidro soprado

 

Onde Ficar

Em Bento Gonçalves
Dall’Onder Vittoria Hotel
– funcional e bem localizado

Em Garibaldi
O encantador Hotel Casacurta, recentemente restaurado e com um restaurante muito bom e acolhedor

Em Pinto Bandeira
A acolhedora pousada Don Giovanni, em meio aos vinhedos e a quietude do campo

 

Onde comer
Em Bento Gonçalves
Jantar harmonizado no restaurante do Dall’Onder Grande Hotel

O excelente ossobuco no Restaurante Caldeira

Em Garibaldi e Pinto Bandeira
O Hotel Casacurta e a Pousada Don Giovanni possuem restaurantes próprios, com boa comida harmonizada com vinhos da região e da própria vinícola.

Texto e fotos: Johnny Mazzilli

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