Tesouros do Cerrado

No inverno, o cerrado está completamente seco. É nessa época que brota dele seu insumo mais raro e valioso. Recentes pesquisas ampliam ainda mais as propriedades medicinais do mel de aroeira, agregando valor e dando a este produto em ascensão o status de exclusividade mundial

Cheguei a Montes Claros, uma aprazível cidade no norte de Minas Gerais, em uma tarde quente de outono. A cidade serviu de base para as incursões que eu faria aos arredores, à cidade vizinha de Bocaiúva e à Januária, esta última mais distante. O que mais me chamou a atenção em Montes Claros foi seu colorido mercado público, com uma profusão de barracas de especiarias multicoloridas, folhas, cachaças, farinhas, pimentas, carnes de sol e artesanatos. A carne de sol é uma especialidade da região, que eu experimentaria de variadas formas pelos próximos dias. No mercado, conheci um escultor, Tibúrcio, que esculpe belíssimas peças autorais de madeira, muito exclusivas. Dentre outras coisas, experimentei a cachaça Fura Parede, que segundo o vendedor, “cura mais de 120 doenças do corpo humano”, além do inconfessável efeito que seu nome sugere.

 

 

A população das abelhas no mundo diminui dramaticamente, devido ao uso abusivo de pesticidas. Mas no norte de Minas Gerais elas estão em toda parte. E isso é só o começo de ótimas notícias. Bocaiúva encontra-se no centro da região produtora de mel de Minas Gerais, com um volume crescente de meles de floradas do cerrado. “Olha, eu vou dizer uma coisa, eu não sou uma pessoa de grandes ambições. A única coisa que eu vou fazer é transformar Bocaiúva na capital mundial do mel”, disse, com um sorriso maroto e extrema confiança, Antonio Almeida, apicultor a todo vapor, deixando transparecer o orgulho que sente ao ver sua pequena Bocaiúva no epicentro dos acontecimentos. Almeida já trabalhou em construção civil no exterior, já se virou com diversos trabalhos e acabou encontrando na apicultura do Cerrado uma profissão que tem lhe trazido crescimento profissional e realização pessoal. Assim como muitos outros apicultores da região, ele continuamente adquire e multiplica suas colmeias. Ele tem muitos contratos, que é como se chamam os acordos que os apicultores fazem com os donos de terras. Os apicultores mantêm-se o ano todo em modo itinerante pelo cerrado, buscando floradas para suas abelhas e transportando suas caixas por toda parte. E os donos das terras são remunerados em espécie ou em mel, cujo valor crescente o faz mais atraente. Em uma tarde, encontrei um grupo de apicultores de duas gerações diferentes, para um bate-papo. As narrativas se sucediam, permeadas por entusiasmo, empreendedorismo, satisfação com os resultados e muita esperança no futuro.

 

Meles variados na Cooperativa de Bocaiúva

 

Desse encontro saímos com o jovem Afonso Oliveira, um apicultor local, e fomos visitar a propriedade de seus pais, uns 20 quilômetros cerrado adentro. Chegamos a uma roça muito limpa e bem organizada. Lá, Afonso mantém cerca de 35 colmeias.  Estimulado por um amigo, que lhe deu as primeiras caixas de abelha para ele ver se gostava da coisa, o rapaz mergulhou de cabeça na apicultura e hoje, mais que viver dela, ele é um exemplo para uma safra de jovens apicultores de Bocaiúva, entusiasmados com a perspectiva de prosperar na profissão. Ao contar sua história de forma entusiástica, a última coisa que Afonso colocou em sua hierarquia de valores foi o dinheiro: “Criar abelhas e produzir mel foi, para mim, muito mais do que somente um jeito de ganhar dinheiro. As melhores coisas foram ter podido me fixar no sítio, próximo aos meus pais, e desenvolver e preservar o ambiente”, disse, entre um delicioso café preto e pães de queijo quentinhos na tranquilidade da roça naquele luminoso fim de tarde.

Existe no mercado mundial um mel muito raro e caro, o mel de manuka, produzido na Nova Zelândia a partir da florada da planta Leptospermum scoparium, a manuka, nativa da Oceania. Esse mel contém importantes propriedades nutricionais e medicinais, com um nível bastante alto de polifenóis em sua composição. Tais características fizeram o mel de manuka se tornar mundialmente caro e cobiçado por sua exclusividade. Um quilo custa, no Brasil, exorbitantes R$ 900. E o que tem a ver o mel de manuka com o nosso mel de aroeira? O mel tupiniquim da aroeira, a Myracrodruon urundeuva pode, dentre outras propriedades, apresentar valores até quatro vezes mais altos de polifenóis que a manuka, o que faz dele um ativo valiosíssimo para o desenvolvimento econômico da região.

 

Ponte sobre o rio São Francisco

 

Mas o que faz esse mel ser tão especial? Tecnicamente, o mel de aroeira (bem como o da manuka), é um mel de melato, conhecido em inglês por honeydew. Ele não é obtido somente a partir do néctar e do pólen das flores, e sim turbinado com uma substância muito mais rica e complexa, o melato, que tem sido encontrada no norte e nonnoroeste de Minas Gerais – mais especificadamente no ecossistema Mata Seca – e tornou-se objeto de frequentes pesquisas. Devido à escassez de flores durante a seca, as abelhas utilizam o néctar e o pólen da aroeira e o melato, um líquido doce resultante do processamento da seiva da planta por insetos, como pulgões e cochonilhas. Ao processarem a seiva da aroeira em seus sistemas digestivos, estes insetos adicionam a ela enzimas específicas que modificam os açúcares do mel. Isso faz do mel de aroeira um produto exclusivo no mundo. O mel de melato de aroeira é nitidamente menos doce que outros meles e, ao contrário dos demais, não cristaliza. Por sua cor escura e baixa viscosidade, durante muito tempo ele foi subaqutilizado para ser misturado à água e dado como alimento às abelhas no inverno. Era também vendido de forma desvalorizada e rudimentar. Compradores chegavam a Bocaiúva de caminhão, estipulavam um preço baixíssimo, compravam de latões e pagavam como bem entendiam. Hoje, a Coopemapi, a Cooperativa dos Apicultores e Agricultores Familiares do Norte de Minas foca em agregar valor ao produto, ao invés de vendê-lo como uma commodity barata. Agora, além de receber um valor crescente pelo mel de aroeira, o produtor entrega sua produção na cooperativa, onde é pesada e o valor transferido para o produtor, que deixa a cooperativa capitalizado.

Ainda hoje, para alimentação, os consumidores preferem os meles mais claros, como o silvestre e o de laranjeira. Ainda há certa resistência ao consumo de meles mais escuros e de sabor mais marcante, mas esse gosto vem mudando, e à medida que circula a informação sobre suas propriedades medicinais, cresce a procura pelo mel de aroeira. Os japoneses estão de olho e há tratativas em andamento. Os resultados das pesquisas estão ajudando a colocar o mel de aroeira como um produto único no mundo e grande valor agregado. A pesquisadora Esther Bastos, da Funed, a Fundação Ezequiel Dias, explica que o mel de melato é bastante apreciado na Europa – onde é produzido, por exemplo, na Floresta Negra, na Alemanha. “No sul do Brasil, encontramos mel de melato, mas as abelhas o produzem a partir da seiva de uma árvore típica da região, a bracatinga. O mel de aroeira com contribuição de honeydew só foi encontrado no norte de Minas”, diz Esther.

 

 

A safra da aroeira é curta, de abril a julho, no máximo. Essa é justamente a época em que o cerrado está completamente seco, uma vastidão monocromática de árvores sem uma folha. E é nessa época que a aroeira floresce. Pela falta de outras espécies vegetais, as abelhas se alimentam intensamente nas aroeiras, obtendo dela, além do néctar e do pólen, também o melato processado pelos insetos, que jaz depositado na casca da árvore, resultando em um mel de qualidade e tipicidade únicas. Estudos apontam que o mel de melato da aroeira possui propriedades antimicrobianas. Uma pesquisa conduzida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) tem o propósito de mostrar a atividade desse mel para combater a bactéria Helicobacter Pylori, que leva à gastrite e até ao câncer no estômago.

O cerrado tem vasta quantidade de aroeiras, bem como pequizeiros e diversas outras espécies melíferas. E as populações beneficiadas e conscientizadas começam a plantar mais aroeiras e a banir de vez o seu corte, que era praticado ilegalmente nas épocas de seca. Além do mel de aroeira, a ponta de lança da região, há crescente produção de meles de outras espécies nativas. Um deles é o mel de pequi, uma árvore muito abundante no cerrado, cuja floração é bastante procurada pelas abelhas, animais muito seletivos que preferem se alimentar nas espécies vegetais mais ricas. Uma coisa interessante que vemos ao chegar a Coopemapi é uma prateleira com meles de variadas floradas do Cerrado, como o de mel de Bentônica, um arbusto que infesta livremente as pastagens e terrenos, com suas pequeninas flores arroxeadas. Da mesma forma que surge espontaneamente quando começa a chover, a bentônica desaparece na estação da seca. Há ainda meles de Umbu, Candeinha, Cipó-uva, Mussambê, Sucupira e outros.

 

 

Januária
De Bocaiúva nós seguimos para Januária, cidade mais distante, para visitar outro projeto de sucesso. Pela região, um pouco menos habitada, a aparência do cerrado é ainda mais… cerrada. Januária é o centro da região produtora dos frutos do cerrado, situada quase às margens do rio São Francisco. Lá, o Clube Paladar visitou Vicentina Corte, uma mulher tranquila e com um jeito obstinado, que produz uma série de derivados do fruto do pequizeiro, o pequi, como óleos, farofas, castanhas cruas e assadas, cremes, patês e pequi em conserva. Vicentina tem o apelido de Tina. Em um dos cursos que fez, conheceu a pectina, um polissacarídeo vegetal utilizado na fabricação de doces e geleias. Pensando em um nome para dar a sua empresa que nascia, vieram a sua mente Vicentina, tina, pequi, pectina… E surgiu a PequiTina. O negócio está crescendo e ela, entusiasmada, nos mostrou uma área ao lado de sua casa, onde pretende expandir suas instalações. Visitamos também uma pequena cooperativa e um apiário e conversamos um pouco com produtores. De lá, após um dia chuvoso e escuro, seguimos em direção ao Peruaçu para conhecer a Cooperuaçu, Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu, uma entidade que congrega 12 pequenos municípios desta região mineira, ao norte de Montes Claros, próxima à divisa com a Bahia. Lá também cresce aceleradamente a produção de mel, porém em estágio menos adiantado que em Bocaiúva. Algumas das 12 vilas abrangidas pela Cooperuaçu são diminutas comunidades quilombolas, como a comunidade quilombola do Onça. Cada uma delas tem um pequeno centro que recebe os frutos coletados no cerrado, e lá é feito seu primeiro manuseio, como descascar, picar e ensacar. Desses pequenos postos, os insumos seguem para a sede da cooperativa, onde são utilizados na produção de diversos produtos regionais de grande qualidade e tipicidade, como polpas de frutas congeladas, polpa de pequi em conserva, creme, óleo, castanhas, farofa e farinha de pequi, farinha de jatobá, um fruto seco e até pouco tempo desprezado, geleias de umbu, de cagaita, a maravilhosa conserva de cajuí em calda, um caju pequenino e saborosíssimo, e o doce de araticum, também conhecido como cabeça de nego, uma fruta muito parecida em formato e sabor com a fruta do conde ou annona, porém grande como um melão, encontrada em feiras e barraquinhas de beira de estrada.

 

 

Na Cooperativa, vi nos olhos das pessoas o mesmo brilho e entusiasmo que pude ver nos produtores de mel em Bocaiúva. Comunidades entusiasmadas com a receptividade do mercado aos produtos do cerrado. Escutei diversos relatos de melhoria de condições de vida, de crianças que a partir de certo momento puderam ir à escola, de aquisição de equipamentos de uso coletivo, de melhores instalações de trabalho e perspectivas de vida. Lá na Cooperativa fui recebido com uma mesa cheia de deliciosos produtos do cerrado, como mel, farofas, doces em barra, geleias, conservas, óleos, patês, biscoitos, frutos em calda e in natura. De lá, o Clube Paladar trouxe para São Paulo diversos insumos que, em breve, serão apresentados a chefs de São Paulo, como exemplos de nossa riqueza e diversidade.

 

Produtores do Cerrado na Cooperuaçu, a Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu

 

CODEVASF
Os projetos de desenvolvimento, estudo e mapeamento do mel e dos frutos do cerrado contam com o apoio da Codevasf, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba. As ações dessa empresa pública vinculada ao Ministério da Integração Nacional atingem nada menos que 56 municípios da Mata Seca mineira (regiões norte e noroeste) para identificação dos apicultores, coleta de amostras do mel e solo; estudos botânicos e físico-químicos do mel; análise do solo e elaboração de documentação junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) para obtenção do registro da DO (Denominação de Origem) Honeydew-Mata Seca. “Espera-se, com esse trabalho, a agregação de valor ao mel de aroeira e a projeção nacional e internacional da apicultura desenvolvida na região da Mata Seca mineira, por produzir um mel com propriedades únicas no mundo”, afirma Alex Demier, chefe da Unidade de Desenvolvimento Territorial da companhia e um dos responsáveis pela pesquisa em campo, que nos acompanhou a apresentou a região ao Clube Paladar.

Texto e fotos: Johnny Mazzilli

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