Um giro pela Toscana

Florença é uma cidade tão rica culturalmente que são necessários pelo menos 3 dias para conhecê-la razoavelmente

Toscana Itália

Desembarquei em Florença em um começo de tarde fresco e ensolarado. A princípio, não me detive na cidade, onde eu já havia estado algumas vezes sem, contudo, conhecê-la: já tinha passado pelo aeroporto, pela estação de trens e até cortado Florença em uma van, mas nunca caminhado por ela. 

De lá, seguimos para a pequena Pontassieve, situada às margens do histórico rio Arno, na região do Chianti Rufina, a aproximadamente 25 quilômetros de Florença. Na primavera, os efeitos do inverno se faziam sentir no rio, como o baixo nível das águas. Em Pontassieve, eu me estabeleci na Fattoria Lavacchio, uma vinícola com acolhedoras instalações; de lá eu empreendi minhas investidas pela região. 

Na manhã seguinte, minha primeira atividade foi uma breve caminhada pela propriedade, com uma parada na residência ateliê do ceramista Massimo Innocenti, que vive em uma casa nos arredores da Fattoria e faz trabalhos muito interessantes em cerâmica. Deixando o local, segui para Florença e dessa vez pude andar pela cidade e conhecer um pouquinho de seus atrativos. 

Pela manhã, visitei um mercado público muito frequentado pelos moradores, o Mercato di Sant’Ambrogio — menor e menos famoso que o atraente Mercato Centrale, que com o tempo se transformou em algo parecido com o Mercadão de São Paulo, um local “pega-turistas”, com preços irreais. 

Tive então minha primeira experiência com um ícone da gastronomia fiorentina de rua: o Panini Lampredotto, um sanduíche preparado com a carne cozida da quarta e última porção do estômago bovino. Sua aparência é, na melhor das hipóteses, desanimadora. Achei um pouco aflitivo comer aquilo, mas o sabor não é ruim.

Visitei também um lugar muito interessante e tradicional no centro da cidade: a Farmácia Santa Maria Novella, considerada a mais antiga da Europa, pois foi inaugurada em 1221. Lá são manipulados inúmeros produtos, como medicamentos, loções, cremes, tônicos, essências, aromatizantes, perfumes, sabonetes e xampus. Saindo da loja, pulei o almoço convencional e caminhei durante algumas horas pelas ruas históricas, parando algumas vezes para um cafezinho com cantucci e, na sequência, uma taça de vinho e uns tira-gostos. 

Meu tempo era curto, então fui direto ao cartão-postal da cidade, a Ponte Vecchio, repleta de turistas que a fotografavam sem parar, encantados pela atmosfera única do local. Dica: jamais compre qualquer coisa nas lojas estabelecidas sobre a ponte ou em seus arredores. Os preços são escorchantes, e praticamente tudo pode ser adquirido em outras lojas espalhadas pelo centro, a preços muito menores.

 

(Vinícola Antinori)

 

Deixei Florença com a clara sensação de que vi quase nada, portanto só me resta voltar com mais tempo. À tarde, tomei o rumo da pequena Carmignano, uma comuna da Toscana na província de Prato com pouco menos de 12 mil habitantes, localizada a uns 40 quilômetros de Florença. Meu objetivo era experimentar alguns vinhos da DOCG Carmignano (Denominação de Origem Controlada e Garantida), uma região vitivinícola toscana não tão conhecida. 

Lá, fui recebido na Fattoria di Bacchereto, pela proprietária Rossella Bencini, personagem do vinho famosa na região, que me apresentou alguns de seus rótulos elegantes e bem-feitos. Enquanto isso, seu marido preparava incessantemente deliciosas bruschettas de tomate, que eu comi também incessantemente. Foi uma tarde aprazível, com pessoas acolhedoras, bons vinhos e a simplicidade tocante da comida e da atmosfera do interior da Toscana. 

Deixei a propriedade ao cair da noite e retornei a minha silenciosa base em meio às colinas do Chianti, a Fattoria Lavacchio, onde fiquei em um casarão reformado do século 16. A distância da cidade propicia uma grande escuridão e a visão de um céu cheio de estrelas. Abri um excelente vinho produzido pela Fattoria e me sentei na varanda, apreciando o silêncio até o fim da garrafa.

Na manhã seguinte, parti rumo à histórica cidade de Siena. O clima não ajudou muito; logo que cheguei à cidade, começou a chover intermitentemente. Mas não me abalei e segui caminhando até a Piazza del Campo, a praça principal que sedia a mais famosa prova equestre da Itália — o Palio di Siena, uma competição anual que acontece sempre em agosto desde o século 17 e faz os ânimos se exacerbarem insolitamente. 

Antes da praça, porém, uma parada estratégica para conhecer uma das mais lendárias docerias de Siena, o Panificio Il Magnífico, onde comi muitos doces, como panforte, panpepato, cavalucci e um maravilhoso biscoito de amêndoas com manteiga, chamado riciarelli

Da doceria, com a consciência pesada, segui para a praça. Nesse dia, não havia competição, e a chuva voltou; deixei a cidade e fui para Montepulciano. A chuva apertou ainda mais e escureceu cedo. No caminho — que mesmo cinzento e chuvoso era lindo —, fiz uma breve parada na pitoresca San Quirico, para visitar o Birrificio San Quirico, uma pequena cervejaria artesanal. 

De lá, segui para Montepulciano debaixo de uma chuva torrencial; e como visitar a pequena cidade era algo inviável em tais condições, fui direto a uma degustação na linda Vinícola DEI, que produz ótimos vinhos como Nobile de Montepulciano e Rosso de Montepulciano. Após um dia corrido, com um resfriado chato batendo, regressei à Fattoria Lavacchio, tomei um banho muito quente e duas doses caprichadas de grappa — receita toscana para acabar com resfriados —, fui cedo para a cama e acordei na manhã seguinte me sentindo melhor.

(Fattoria Lavacchio)

 

Logo cedo, fui para Montalcino, a mais famosa cidade da Toscana, onde surgiu o Brunello de Montalcino, vinho ícone da região. Contudo, não parei na cidade; segui direto a um lugar curioso, o Castello di Potentino, onde fui recebido com um pequeno workshop de produção de queijos artesanais, seguido de almoço e uma degustação. Em um ambiente ricamente decorado, onde foi servido um delicioso almoço, experimentei vinhos um pouco decepcionantes, mas que não prejudicaram a experiência. 

Deixei o castelo rumo a uma vinícola nas proximidades, onde a enóloga Stella di Campalto elabora vinhos surpreendentemente bons. Após uma breve visita a seus vinhedos, um bate-papo sobre os vinhos e uma degustação, passei rapidamente na aprazível Abadia de Sant’Antimo, nos arredores de Montalcino, e finalmente visitei a pequena e emblemática cidade. Mas já era tarde, e quase 200 quilômetros de estrada me aguardavam até regressar à base, onde cheguei muito cansado.

O dia seguinte amanheceu nublado, frio e com vento forte e constante. Justamente nessa ocasião, segui viagem para visitar a bela Cortona, considerada uma das áreas mais frias da região. Após uma breve caminhada pelo centro histórico, fui a uma vinícola local. Na DOC Cortona (Denominação de Origem Controlada), a uva-símbolo é a versátil Syrah, que lá assume aspectos distintos, resultando em vinhos bastante diferentes entre si, como se fossem feitos com uvas variadas. Da vinícola estiquei a uma pequena fazenda onde são criados porcos da raça Cinta Senese, conhecidos por terem um “anel” preto ao redor do corpo branco, e gado da raça Chianina, muito apreciados na culinária toscana.

(Montalcino)

 

Na outra manhã, deixei a Fattoria e fui visitar um açougue muito famoso na vila de Greve in Chianti, a Maceleria Falorni, que produz toda sorte de embutidos que se possa imaginar, assim como queijos excelentes. De lá, segui para uma belíssima propriedade na região do Chianti, a Villa di Geggiano, um palacete de estilo neoclássico muito bem preservado, na comuna de Castelnuovo Berardenga. 

A parada seguinte foi Mugello, onde fotografei uma antiga fábrica de facas artesanais, que ainda hoje funciona de modo tradicional. Da oficina de facas emendei uma visita a um produtor do delicioso queijo Gran Mugello, uma versão toscana do Parmigiano Reggiano; lá experimentei diversos queijos produzidos no local, alguns com tartufo Nero em sua formulação, cujo aroma maravilhoso e pungente tomava conta de tudo.

O penúltimo dia da viagem foi reservado para uma visita à sede da Antinori, provavelmente a família mais poderosa do mundo do vinho na Itália, que produz rótulos há nada menos que 27 gerações. Concebida com o objetivo de não interferir na paisagem, a vinícola é gigantesca, e grande parte de sua construção é subterrânea, dentro de uma colina nos arredores da pequena vila de Bargino. 

De lá, segui viagem até San Gimignano — uma cidade que eu sempre quis conhecer e percebi que é ainda mais bonita e charmosa do que eu imaginava. Nessa tarde, fez um sol brilhante, e a temperatura aumentou um pouco. Conheci a famosa uva Vernaccia di San Gimignano, com a qual são produzidos vinhos delicados e de aroma floral. 

Após um passeio pela cidade e alguns drinks, voltei à Fattoria Lavacchio. Dois dias depois, deixei a Toscana e segui viagem rumo a Verona, no Veneto, norte da Itália, onde participei durante 3 dias da maior feira de vinhos do mundo — a Vinitaly, que acontece anualmente em abril. De Verona, fui para o sul da França, na região de Haute Savoie — mas essa já é outra história. 

Onde Ficar

Vinícola e Agriturismo Fattoria Lavacchio
Via di Montefiesole, 55 – 50065 Pontassieve, Toscana, Itália
www.fattorialavacchio.com 

 

Autoria: Johnny Mazzilli.

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