Urubici, em Santa Catarina

No topo da Serra do Rio do Rastro, a cidadezinha catarinense e as atrações ao redor reconectam os
espíritos urbanos ao descanso e à contemplação. Riachos e cachoeiras ajudam a relaxar. O vinho, também. Puxe o freio e coloque os pés na água. Por Viviane Zandonadi

A poucos minutos de Urubici, homem caminha na estrada que corta dois paredões de pedra, no começo da descida da impressionante Serra do Corvo Branco. Foto: iStock
A poucos minutos de Urubici, homem caminha na estrada que corta dois paredões de pedra, no começo da descida da impressionante Serra do Corvo Branco. Foto: iStock
Sauvignon Blanc no parreiral da vinícola Thera, em Bom Retiro (SC). Foto: Viviane Zandonadi

 

Depois de um ano em que cada semana teve uns 21 dias (foi tranquilo para alguém?), quando eu consegui combinar duas semanas livres no meu verão e as férias escolares de minha filha, alto dezembro já se ia. Um bom amigo nos emprestou um carro mais confortável e em melhor forma para pegar a estrada do que o nosso, um tanto cansado. Mochilas prontas, vontade de ler o mundo e muitas músicas enfileiradas no Spotify, saímos de São Paulo em um sábado. Foi logo depois do feriado de Natal.

Havia o desejo inicial de ir até Montevidéu. O Uruguai está em quase tudo que eu vejo há um bom tempo. Sinais. Um vinho que chegou pelo correio, um filme sobre um livreiro, outro sobre presos políticos, um romance percorrido em uma tarde, uma reportagem aqui, outra ali. Francis Mallmann, Pepe Mujica, Rio da Prata. Aquele jogador (não o que morde, e sim o Cavani). Só que seria a primeira viagem de carro da menina (a primeira extensa, quero dizer). Ela tem 7 anos e vive em São Paulo, o que significa aprender desde cedo a passar o tempo dentro de um carro. Mas, por mais que não seja do tipo que enjoa em movimento (e adora ler e desenhar quando não está dormindo ou olhando a paisagem ou contando histórias), fizemos as contas e achamos que seria muito cansativo. Se tivéssemos o mês inteiro, talvez sim. Não era o caso.

Deixamos os dedos percorrerem o mapa ao sul e ao sabor da serendipidade, até o indicador parar na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, já perto do Rio Grande do Sul. Região bonita, montanhosa e sossegada nesta época – é muito mais movimentada no frio. Talvez a temperatura seja até tranquila também no verão, li em algum lugar – mas, guarde esta informação; a mudança climática já se faz sentir lá no alto. Fora os vinhos, né, de altitude a favor do amadurecimento das uvas. Vamos? Fomos.

Escolhemos uma pousada na pequena Urubici e lá fechamos a reserva em três noites – guarde também esta informação; alguém um dia irá dizer que dois a quatro dias são suficientes para explorar a região. A verdade é que cada um sabe das delícias que fazem querer ficar mais.

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PRIMEIRA PARADA COM CRIANÇA
A caminho, dormimos duas noites em Itajaí, litoral norte catarinense, e passamos um dia no parque de diversões Beto Carrero – ele fica a uma meia-hora da cidade portuária, em Penha. Assim, antes de a menina nos acompanhar no campo, nas trilhas e nas cachoeiras, demos umas voltas na roda gigante e na xícara maluca. Estava quente e cheio, mas foi divertido (principalmente quando nos molhamos em uma onda do brinquedo chamado Crazy River; um rio muito louco mesmo). Na manhã de segunda, 31 de dezembro, partimos de Itajaí pela BR 101 no sentido de Tubarão e Lauro Muller, de onde começaríamos a subir a serra, via SC 390. Para quem tem tempo e um dia bonito pela frente, sem chuva ou neblina, é o melhor e mais prazeroso caminho até lá em cima, onde ficam cidades a mais de 1.400 metros de altitude, como Urubici e São Joaquim, as mais frias do Brasil quando chega o inverno. A estrada sinuosa serpenteia paredões rochosos, picos, montanhas e a cada curva e mirante todo mundo quase perde o fôlego diante de tanta boniteza.

Serra do Rio do Rastro Cartão-postal da Serra Catarinense, a estrada que corta a Serra do Rio do Rastro (SC-390) tem 284 curvas em seus 23 quilômetros entre as cidades de Lauro Muller, ao nível do mar, e Bom Jardim da Serra, no alto da montanha. Não é o único caminho para a região, mas, certamente, é o mais bonito. Só não deve ser feito à noite ou com chuva, já que deslizamentos não são incomuns. O ideal é sair cedo, pegar a estrada com calma e parar em quantos mirantes quiser. Caso o clima não esteja favorável, prefira ir pela BR-282. (Adriana Moreira)
Cartão-postal da Serra Catarinense, a estrada que corta a Serra do Rio do Rastro (SC-390) tem 284 curvas em seus 23 quilômetros entre as cidades de Lauro Muller, ao nível do mar, e Bom Jardim da Serra, no alto da montanha. Não é o único caminho para a região, mas, certamente, é o mais bonito. Só não deve ser feito à noite ou com chuva, já que deslizamentos não são incomuns. O ideal é sair cedo, pegar a estrada com calma e parar em quantos mirantes quiser. Caso o clima não esteja favorável, prefira ir pela BR-282. (Adriana Moreira, do Viagem). Foto: Pixabay

 

DESVIO COM VISTA PARA O MAR
Antes de subir, resolvemos almoçar na praia do Rosa, em Garopaba. Foi muito interessante voltar lá em um 31 de dezembro, depois de mais de duas décadas desde a primeira vez em que eu estive no litoral catarinense, exatamente naquele ponto. Era, na época, um tempo de arrastar os chinelos para fora de um albergue, almoçar pastel, pegar carona entre praias e passar o dia queimando nas areias e dunas e recorrendo a barraquinhas improvisadas de petiscos praianos antes de ver o sol ir embora e et cétera. Agora a região, como eu, está bem mais crescida e mudada. Mas, pelo menos ela, continua linda. Ainda que tenha sido um quase choque ver o pessoal descer da vilinha para a praia, cada um com um sol na cabeça, levando à tiracolo caixas de som sem fio (ligadas, gente, em estilos variados e volume alto…), foi bonito, impressionante e devidamente restaurador almoçar no deque com vista do restaurante Engenho do Mar (R. da Pousada Vida Sol e Mar, S/N, Imbituba, na faixa de 120 reais por pessoa, com bebidas).

Outros parêntesis: esse pequeno-grande desvio nos rendeu uma atrapalhada busca em meio às ruazinhas da praia do Rosa. Quando finalmente demos a primeira garfada no excelente risoto de camarão, eu já sabia que não conseguiríamos entrar em Urubici até às 19h, que era o combinado. Imprevistos acontecem, e viajantes erram, sabemos. Avisamos a pousada, mas foi uma dessas mancadas que deveríamos ter evitado, para não atrapalhar a vida dos nossos anfitriões. Chegamos lá em cima, depois de umas inevitáveis paradas para esticar as pernas vendo a imensidão montanhosa da serra, às 21h. Foi puxado e, quando escureceu, um tanto tenso nas curvas. A saber: de Garopaba a Urubici, a viagem leva mais ou menos quatro horas. A subida da serra em si, a partir de Lauro Muller, é metade do trajeto e não dá para fazer correndo – por motivos de contemplação e segurança. Sendo assim, a recomendação é não se emocionar demais. Vá com calma e respeite o tempo.

A casa branca da pousada Café Mel, em Urubici. Diárias com café da manhã a partir de R$ 580 em fevereiro de 2019. Foto: Café Mel
A casa branca da pousada Café Mel, em Urubici. Diárias com café da manhã a partir de R$ 580 em fevereiro de 2019. Foto: Café Mel

 

NOITE FRESCA
De todo modo, chegamos a salvo na pousada Café Mel (www.pousadacafemel.com; diárias a partir de 580 reais no chalé da foto acima), e a tempo de um primeiro contato com Ana e Fred, os atenciosos donos do lugar, e de uma chuveirada antes da ceia de ano novo (R$ 100 por pessoa, sem as bebidas) no restaurante de pegada italiana Sêmola. Foi a primeira experiência da viagem com um dos chamados vinhos de altitude que, naquela noite e em nosso benefício, escoltou tudo: desde o gravlax de truta, passando por confit de pato com risoto de maçã e gorgonzola e agnolotti de berinjela defumada, mussarela de búfala e tomate cereja orgânico “do rio Canoas”, até o cannolo e a torta do tipo crumble de maçã local. Escolhemos um espumante brut rosé de uma vinícola de São Joaquim. Outra vez deu tudo certo.

A correria acaba de verdade depois que a gente fala com amigos e parentes, entre solavancos vários do WhatsApp, e começa a jantar. Foi uma noite bonita e importante. Desmaiamos de exaustão contente no conforto do chalé branco para, no dia seguinte, encontrar no salão da casa principal um café da manhã de levada caseira, gostoso e muito, muito bem montado. Pães variados, bolos fresquinhos, sucos integrais, nata, mel de bracatinga, geleia, cereais, frutas muitas (o que incluía morangos orgânicos e suculentos da região, do tipo diamante de açúcar – sem açúcar, claro) e queijo e salame coloniais.

Um café coado, uma conversa com Ana e Fred, um estar ali sem pressa e pronto. Você sai para ver o mundo cheio de coragem (e de informações importantes para aproveitar o dia).

PONTO DE INFLEXÃO
Tento me lembrar quando foi exatamente que decidimos ficar mais. Em vez de três noites, ampliamos a estadia para seis, antes de partir para uns bons dias em Curitiba. Por sorte, o chalé branco da Café Mel estaria livre naquele período. Talvez tenha sido quando saímos de uma pequena caverna escura e metemos os pés nas águas frias de um riacho cheio de pedras, um pedacinho do rio dos Bugres. Talvez tenha sido depois de um dos bons jantares no Manali, uma massa caseira ao perfumado pesto no restaurante que respeita o tempo das coisas e a qualidade dos produtos e dos métodos. E pede que respeitemos também, e saibamos esperar. Tudo é feito na hora com o maior cuidado. Mas a espera não é sacrifício. Na segunda visita, já estávamos em casa.

Rio de pedras e águas claras em Urubici: uma vez lá, ouça o que diz a corredeira. Foto: iStock
Rio de pedras e águas claras em Urubici: uma vez lá, ouça o que diz a corredeira. Foto: iStock

 

O fato é que o tempo em Uribici correu manso e nos fez bem. Teve trilha, cachoeira, noite estrelada, vida à mesa e acompanhamentos memoráveis, como os bons vinhos da região e um bacalhau absolutamente inesquecível no restaurante português Pão Saloio, em São Joaquim. Fora as visitas a vinícolas bem estruturadas, como a Thera, em Bom Retiro, da Sauvignon Blanc que aparece na abertura deste relato. É certo que teve também bastante calor no meio dos dias. Uma temperatura historicamente alta, disse o povo da cidade, secando a testa – alguns serviços e comércios podem estar fechados nesta época, e os que abrem ficam mais apertados de tempo e disponibilidade. Ainda assim, nada que comprometa o aproveitamento.

Em Urubici, quando é verão, as cachoeiras estão cheias de vida e o clima à noite é ameno (bom para descansar das caminhadas e depois de comer bem). Os dias realmente quentes ora estimulam movimento, do tipo se refrescar em águas claras e andar para ver coisas lindas; ora sugerem ficar à sombra cochilando ou lendo um bom livro. Sem pressa para fechar a conta.

QUANDO IR? SEMPRE
Se você perguntar ao Google, ele vai dizer que, sendo uma das cidades mais frias do Brasil, Urubici (e suas vizinhas) convida ao turismo de inverno. Convida mesmo. Mas é bom lembrar que, no inverno, tem de riscar o chão para conseguir hospedagem (é o não-problema se o viajante for organizado) e só os fortes vão tomar banho de cachoeira (tem água congelada, até…).

O que se sabe é que são muitos os predicados de todas as estações. Vá quando você quiser. Não “tem que” fazer nada além de seguir as próprias vontades e condições e organizar-se para aproveitar o melhor de cada temporada. Eu aprendi faz tempo que não há mal em inverter o jogo e encarar algo menos “normal”.

Salvo notáveis exceções, pode ser bem interessante partir na contramão do fluxo turístico. Houve um inverno (europeu) em que passei dez dias em Oppéde, uma cidadezinha no meio do Luberon, na Provença. Sim. Estava frio. Sim, teve Mistral (um vento de cortar o coração). Sim, teve restaurante que eu queria conhecer para comer a melhor linguiça da região… fechado. Mas também teve outros tantos abertos, estradas lindíssimas, neve, comidas quentinhas, bons mercados para comprar ingredientes locais e cozinhar no chalé, vinhos gostosos e sossego e pousada quase vazia que nos valeu ficar, a dois, em um sobrado cravado em construção de pedra pronto para acomodar quatro pessoas.

Acho que o mais importante é viajar leve e disposto a estar lá, seja onde for. A seu tempo.

VIVIANE ZANDONADI viajou para Urubici no verão por sua conta e risco

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