Viagem De Trem Pela Suíça

Poucos países no mundo têm sistemas ferroviários modernos e eficientes, que conectam agilmente as diferentes regiões do país e interligam de forma inteligente outros meios de transporte. Suíça e Japão encontram-se no topo dessa lista, e não é a toa que estes dois países sejam os campeões mundiais em intercâmbio de tecnologia ferroviária.

O Japão, com seus quase 200 milhões de habitantes, transporta um número muito maior de passageiros diariamente, mas é na Suíça que os serviços ferroviários atingiram o nível de excelência. Desde o início de sua história ferroviária, a Suíça investe pesado em seu desenvolvimento e ampliação. De qualquer cidade ou vilarejo é possível ir a qualquer parte no país diretamente ou com algumas poucas conexões.

 Silenciosos, pontuais e sempre limpíssimos, os trens atendem mais de dois milhões de habitantes diariamente, algo como 25% da população deste pequeno e próspero país europeu. Mais do que estender seus trilhos por todo o país, os serviços ferroviários são profundamente conectados a outros serviços disponíveis no país. Um turista que se encontre, por exemplo, em Zermatt, uma charmosa estação de montanha aos pés do grande Pico Matterhorn, que tenha seu voo de volta ao Brasil saindo à noite do aeroporto de Zurich, pode efetuar seu check-in diretamente na estação de trens em Zermatt, tomar seu trem e passar o dia passeando tranquilamente na belíssima capital do país, se dirigir ao aeroporto, de lá seguir diretamente ao embarque e reaver sua bagagem na esteira do aeroporto de São Paulo. O Swiss Pass é um bilhete que permite, num período de oito dias, viagens ilimitadas por toda a malha ferroviária do país, bem como pegar ônibus municipais, trens locais de montanha ou funiculares, que levam a vilas encravadas nas cotas mais altas das montanhas. Permite também o acesso gratuito a centenas de museus espalhados pelo país, bem como descontos em compras e restaurantes.

Viagem de Trem Pela Suíça

Após três dias agradáveis em Zurich, peguei meu trem e segui diretamente a Interlaken, uma linda cidade situada mais ao centro do país, e lá empreendi um day trip que me levou ao topo do Jungfraujoch, a célebre estação plantada no topo de uma das montanhas mais emblemáticas da Suíça, o Eiger,  cuja enorme face norte, com nada menos que 1.800 metros  de altura, foi palco de tragédias épicas na época das grandes conquistas dos Alpes. Antigamente, as escaladas levavam dias, e os alpinistas ficavam sujeitos a tempestades que chegavam sem aviso. Hoje em dia, alpinistas experientes e conhecedores do terreno escalam a face norte do Eiger em inacreditáveis 2h30min, sem o uso de cordas e outros equipamentos de segurança – coisa para especialistas.

De Interlaken segui rumo à charmosa La Gruyère, região de produção do famoso queijo de mesmo nome. Lá, vaquinhas pastam tranquilamente em cenários idílicos, pontilhados de pequenas vilas de aspecto medieval. Em Gruyère acompanhei o Desalpe, evento anual que marca o encerramento da temporada de produção do queijo Gruyère, quando os produtores de queijos decoram suas vacas com flores e sinos, e empreendem uma barulhenta descida dos alpages – as fazendolas de montanha, rumo ao centro da pequena vila de Charmey, onde a concentração de várias centenas de vacas produz um ruído infernal. Milhares de turistas se acotovelam pelas ruas para assistir a chegada do cortejo bovino e dos produtores, devidamente trajados com suas roupas típicas.

Viagem De Trem Pela Suíça

De Gruyère segui rumo à pequena Vevey, situada ao lado da famosa cidade de Montreux, sede do famoso Festival de Jazz de Montreux. Vevey está situada as margens do lindo Lac Léman, também conhecido como Lago de Genève, que se estende desde Geneve a Montreux, onde o rio Rhone, que desce pelo vale do Valais, o alimenta. Dois dias de visitas a vinhedos e adegas na tranqüila Vevey e segui rumo a incrível vila de Zermatt, aos pés do enorme Matterhorn (4.478m), uma das montanhas mais bonitas do mundo e uma das últimas grandes conquistas dos Alpes. Zermatt é uma fervilhante estação de esqui servida por uma vasta malha de gôndolas e chair lifs, que se entrecruzam nos flancos das montanhas e permite aos turistas, esquiadores e trekkers rápido deslocamento entre elas. Uma sucessão de gôndolas que sai do centro de Zermatt leva ao incrível Klein Matterhorn, um rochedo empinado situado a 3.883 metros de altitude, defronte a gigantesca montanha. Esquiadores, trekkers e turistas de todos os tipos sobem as gôndolas para verem de perto a impressionante massa rochosa, que se eleva de sua base isoladamente, sem outras montanhas ao redor, o que realça sua altitude e a torna ainda mais imponente. Em Zermatt, perambulei  pelas montanhas e desfrutei da deliciosa gastronomia da cidade, me deliciando com fondues, racletes e röstis.

Gruyere

Três dias em Zermatt e peguei o trem rumo a Crans Montana, uma vila situada no alto do flanco de uma grande montanha, as margens do belíssimo Valais, um vale extenso em cujo fundo corre o rio Rhone e situam-se dezenas de cidades, pequenas vilas e centenas de vinícolas, com belíssimos vinhedos empoleirados em terrenos de grande declividade, meticulosamente bem aproveitados. Em Sierre, no coração do Valais, peguei um funicular que sobre o terreno empinado rumo à charmosa Crans Montana, onde fiquei por três dias em slow motion, me recuperando de um incômodo resfriado. Enquanto no vale o clima estava moderadamente frio e seco, sem presença de neve, nas montanhas o cenário é bastante diferente: neve abundante e frio.  A tarde mais fria em toda viagem marcou -12ºC. De Crans Montana tomei o funicular que me deixou de volta ao vale, e de lá segui por mais de quatro horas de trem rumo a famosa Saint Moritz, cidade balneário onde um punhado de famosos mantém casas de veraneio. Os preços dos imóveis em Saint Moritz seguem uma lógica própria, incompreensível para nós mortais.

Um chalet de 100 metros quadrados pode custar a exorbitância de 50 milhões de francos suíços, uns 45 milhões de euros, ou inacreditáveis 150 milhões de reais. Lá me hospedei no agradável Nira Alpina, aos pés do pico Surlej, um rochedo empinado que assoma junto ao vale, e cujo cume é acessível através de uma gôndola. O clima não ajudou muito, alternando chuva, tempo nublado e nesgas de tempo aberto, que aproveitei para fotografar como pude. De Sait Moritz, situada no sudeste do país, tomei rumo norte em direção a vila de Appenzell, situada na parte alemã da Suíça, junto a fronteira com o pequeníssimo Liechtenstein . A Suíça, apesar de sua diminuta extensão territorial, tem quatro idiomas oficiais: Francês, alemão, romanche e o dialeto suíço-alemão, falado de incontáveis formas em quase todo o país, uma língua rude e incompreensível. Tão difícil que sequer é escrita – de vila para vila há desde pequenas até grandes variações do dialeto, de forma que cada eventualmente vilas situadas não muito distante entre si guardam diferenças significativas entre seus dialetos.

Em Appenzell participei de um evento ligado as tradições culturais desta bucólica região. Assisti a espetáculos de música e danças típicas, ouvi contadores de historias, visitei artesãos e experimentei os vinhos locais, caminhei pelas montanhas, me deliciei com os deliciosos queijos locais (a Suíça tem oficialmente 456 tipos de queijos), e encerrei a viagem com chave de ouro: uma magnífica trip de balão, de onde assisti ao  sol lançando suas primeiras luzes sobre a bucólica Appenzell. De lá, tomei o trem que me levou de volta a Zurich, onde tomei meu vôo de volta ao Brasil. Durante 15 dias, viajei através de cenários idílicos, emoldurados por pastagens verdíssimas, montanhas imponentes e vilas medievais, com uma gente amável e cordialíssima. No que diz respeito aos trens, não presenciei um atraso sequer de um mísero minuto. Num país ordeiro e desenvolvido, os trens também funcionam com espantosa precisão, tal como um relógio. Suíço, é claro.

Swiss Travel System
www.swisstravelsystem.com

Turismo na Suíça
www.MySwitzerland.com

Texto e Fotos: Johnny Mazzilli

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