Viagem: roteiro de vinhos no sul do Uruguai

Dominada pelas uvas Tannat, a produção de vinhos no país ganha cada vez mais relevância – assim como os passeios pelas vinícolas
Por Bruna Toni, de Montevidéu

O sul do Uruguai é responsável por impressionantes 84% da produção viticultora do país. Foto: iStock
O sul do Uruguai é responsável por impressionantes 84% da produção viticultora do país. Foto: iStock

Derrama a bebida da garrafa ao copo. Sente o aroma. Faz movimentos circulares. Sente o aroma outra vez. Finalmente, degusta. Esta é a equação básica para quem tem à mão uma taça de vinho. Mas ela pode ficar muito mais complexa e interessante caso você seja um entendedor da bebida de Baco. Ou então se, assim como esta repórter, for simplesmente um bom apreciador (curioso) em viagem pelo sul do Uruguai, responsável por impressionantes 84% da produção viticultora do país. Em meados de março, cheguei a Montevidéu para seis dias de um roteiro enogastronômico.

Na programação, esticadas até o departamento vizinho de Canelones, a uma hora da capital. Dali, seguiríamos de carro até o departamento de Colônia – cuja cidade mais famosa é Colônia do Sacramento. Nossa parada em Colônia, contudo, era em Carmelo, a pérola viticultora que, em 2014, foi chamada pelo jornal The New York Times de “Toscana em miniatura”. Uma Toscana cuja principal uva não é italiana, mas francesa. Trata-se da Tannat, casta trazida há mais de 150 anos da comuna de Madiran por um imigrante basco chamado Pascual Harriague.

A tal da Tannat se deu tão bem em seu novo lar sul-americano que se tornou a marca registrada dos vinhos uruguaios, dominando quase metade das plantações do país. A explicação para o sucesso do cultivo dela e de outros tipos utilizados na produção de tintos está nas condições geográficas e climáticas de Carmelo: na área de encontro dos Rios Paraná e Uruguai, o clima é temperado, com estações bem definidas – tudo de que as uvas gostam.

Mas, como quantidade não quer dizer qualidade, correu bastante tempo até que os vinhos uruguaios fossem admitidos no hall dos bons rótulos mundiais (hoje, aliás, o mercado brasileiro é o que mais consome a produção do Uruguai). O salto qualitativo veio na década de 1970, quando os descendentes dos imigrantes italianos e espanhóis que plantaram no país os primeiros parreirais, ainda no século 19, passaram a investir em estudos técnicos e aprimoramento da tecnologia.

E, mais uma vez, a Tannat respondeu bem aos desejos produtivos: permitiu domarem seu sabor originalmente rústico, causado pelo elevado grau de tanino (daí seu nome), tornando-se uma boa companhia, de sabor mais suave e aroma marcante. Tão marcante que escrevo memorando o cheiro do mosto e dos tintos envelhecendo nos barris de carvalho e nos tanques das seis vinícolas familiares, repletas de histórias, que visitamos na viagem – ao todo, o Uruguai tem 190 vinícolas, 25 abertas a turistas. Das que fomos, duas estão em Canelones, ideais para bate-voltas a partir de Montevidéu. As outras quatro ficam na Rota dos Vinhos de Carmelo – que, além das citadas aqui, inclui as bodegas El Legado e Zubizarreta.

Depois de muitas taças de tintos, brancos, espumantes e (bons) rosés, e de encontrar tanta gente profissional no caminho, minha equação básica, felizmente, foi atualizada. Hoje, reparo em tipos de uva. Atribuo aromas possíveis antes e depois de movimentar a taça. Incluí em meu vocabulário palavrões como maceração e champenoise, duas técnicas de produção. Cuido de minhas garrafas de vinho como se fossem filhas. Tudo porque, no roteiro que você confere a seguir, beber, comer e saber mais foi um trio de prazeres indissociáveis. Afinal, é bebendo que se aprende. E vice-versa.

***

Paisagem de outono em algum lugar de Canelones, no Uruguai. Foto: iStock
Paisagem de outono em algum lugar de Canelones, no Uruguai. Foto: iStock


CANELONES
Departamento vizinho ao de Montevidéu tem vinícolas que podem ser visitadas em um dia no esquema bate-volta

PIZZORNO
CEM ANOS DE CULTIVO

Foi nesta vinícola de 109 anos, sob o comando da mesma família desde a fundação, que nossa aventura pelo mundo dos vinhos começou. Francisco, o mais novo entre os Pizzorno, deu as boas-vindas e passou a bola para Lucio Afonso, que nos guiou por toda parte interna da propriedade – infelizmente, uma chuva forte na noite anterior havia estragado parte da plantação, impedindo nosso acesso. São 21 hectares com 11 tipos de uvas, sendo a Tannat o carro-chefe. A colheita é manual, fertilizantes não são utilizados e toda sua produção – 180 mil garrafas por ano – é de vinhos finos. Entre os rótulos, o Pizzorno Tannat Reserva (US$ 25) foi um dos meus favoritos de toda a viagem. O tour com degustação é diário e dá direito a provar quatro ou cinco vinhos, com empanadas deliciosas de acompanhamento (desde US$ 30). Também é possível ir além do básico, fazendo a prova num almoço (US$ 55) ou num voo de helicóptero (US$ 350). Apesar de centenária, faz apenas cinco anos que a vinícola recebe turistas – e 85% do público é brasileiro. O local hospeda viajantes. São quatro quartos com varanda praticamente dentro do parreiral. Eles dividem parede numa casa térrea, onde sala e cozinha são compartilhadas.

  • Diárias desde US$ 110, com café – reservas pelo Booking.com. Site: pizzornowines.com

JUANICÓ
DELÍCIAS DA VINDIMA

Não passava das 11 horas da manhã quando saímos da Pizzorno, alegres pelos vinhos provados, e chegamos à vinícola Juanicó para uma experiência única: participar de uma vindima uruguaia. Demos sorte: ali, a festa da colheita da uva ocorre apenas uma vez ao ano, entre fevereiro e março (época da colheita da uva em toda a região). Com petiscos e vinhos rosé, branco e tinto à vontade, demos continuidade ao “modo bebedores” iniciado horas antes. Logo chegou o momento mais aguardado: a ida aos parreirais, com alicates e caixotes em mãos para tirar o maior número de cachos de uvas possíveis. Dispensei essa parte trabalhosa – preferi devorar um saboroso cacho de Cabernet à sombra. Depois da colheita, o trabalho/diversão foi separar as cascas das sementes e, por fim, arrancar os sapatos para entrar dentro de um enorme caixote e se esbaldar na pisa da uva – se você nunca fez, saiba que a antiga técnica (hoje feita por diversão) é um tanto quanto relaxante. A festa, que ainda contou com grupo de dança italiana levando senhoras e senhores para o meio da pista, terminou num grande salão onde foram servidos um almoço simples e ainda mais vinho. Com história que remonta à época jesuítica, a área foi transformada em vinícola em 1979 pela família Deicas. É dali que sai o vinho Don Pascual, o mais popular do país segundo os uruguaios, também exportado ao Brasil.

  • Além da vindima (1.500 pesos, R$ 170 por pessoa), há dois tipos de degustação (desde US$ 30) e duas experiências que incluem almoço e harmonização (a partir de US$ 65). Reserve. Site: juanico.com

 

***

 

Passeio bucólico à beira do Rio da Prata, em Carmelo. Foto: iStock
Passeio bucólico à beira do Rio da Prata, em Carmelo. Foto: iStock

 

CARMELO
Cidade no departamento de Colônia reúne vinícolas familiares e cheias de história

NARBONA
ÀS MARGENS DO RIO DA PRATA

Por volta de 1909, o padre Juan de Narbona criou, às margens do Rio da Prata, uma das primeiras adegas do país. Nos anos que se seguiram, o local passou por outros donos e foi usado como armazém e bodega. Até que, na década de 1990, a família argentina Canton comprou a área de 50 hectares e fez nascer a Narbona: uma fazenda com produtos competitivos e oferta turística. Os argentinos deram à marca o sobrenome do primeiro dono e preservaram construções antigas, utilizadas pelo restaurante e pela hospedagem de luxo, que ostenta o selo Relais & Chateux. São apenas cinco quartos. Três deles têm vista para a adega e os outros dois, para os parreirais – todos com um convidativo terraço. A diária começa em US$ 250 o casal na baixa temporada e inclui serviços como transfer a Puerto Camacho, passeios de kart pelos vinhedos, empréstimo de bicicletas e visita guiada com degustação. Quem não é hóspede também pode participar da degustação com três tipos de vinhos, queijos e pães. Custa US$ 40, dura 1h30 e é realizada numa enorme sala com móveis antigos e paredes umedecidas e desgastadas pelo tempo, parte do charme do local. Dos 19 hectares de parreirais, a Narbona dedica 15 deles exclusivamente ao cultivo da uva Tannat. Gostos pessoais, o vinho que mais me fez suspirar foi um Pinot Noir (US$ 21 a garrafa). Pelo sabor aprazível, mas também por ter sido a primeira vez que diferenciei claramente os aromas do líquido antes e depois de fazer movimentos circulares com a taça, como mandam os bons apreciadores. Como fazenda, a Narbona produz também doce de leite, geleia, azeite, queijos, iogurtes, massas, conservas e biscoitos.

  • Com exceção dos vinhos, que podem ser encontrados no aeroporto de Montevidéu a preços semelhantes, vale a pena comprar o que você gostar antes de ir embora. Site: narbona.com.uy/pt.

ALMACÉN DE LA CAPILLA – CORDANO
COMO ANTIGAMENTE

O Almacén de la Capilla, ou Cordano, fica em frente à Casona Campotinto, bem perto da capelinha de São Roque. Ali, o genovês Antonio Cordano abriu, em 1855, seu armazém para servir a comunidade que crescia na região. Até hoje o espaço mantém a atmosfera de vendinha do interior. Na entrada, nos perdemos entre as prateleiras que rodeiam o balcão antigo, repletas de produtos como garrafas de vinho e de licor, pó de café, erva-mate e bala de vinho, “a única da região”, diz orgulhoso Diego Vecchio, dono do lugar ao lado da mulher, Ana Paula Cordano. É só quando atravessamos a segunda porta, em direção ao jardim interno, que se tem ideia das dimensões da propriedade. São 8 hectares, a maior parte deles coberto por parreirais, onde a colheita das uvas Tannat, Syrah, Moscatel, Cabernet, Chardonnay e Merlot é feita manualmente. A parte mais divertida é sempre a da chegada das uvas ao galpão, quando todo aquele tanque de frutos roxos é despejado no maquinário para começar a virar suco – a produção do local é de 10 mil litros ao ano. O Almacén tem apenas um chalé para hospedagem, com diária a US$ 200 o casal – o preço inclui café da manhã e empréstimo de bicicletas (reservas pelo Booking.com e pelo Airbnb). Mas seu jardim com ares românticos e algumas mesinhas me pareceu a melhor oferta do lugar para uma tarde livre.

  • A degustação custa US$ 28 e inclui seis tipos de vinhos, licor de uva Tannat, tábua de queijos, doce de leite e grappamiel, tradicional bebida uruguaia que mistura grapa, mel e água. Site: bit.ly/almacencapilla.

FAMILIA IRURTIA
DE AVÔ PARA NETO

Quem plantou o primeiro parreiral desta pequena bodega, nascida em 1913, foi Lorenzo Irurtia. De origem basca, ele se instalou na região na metade do século 19 e, como outros imigrantes, esculpia pedras para pavimentação. Apaixonado por vinhos, porém, arranjou tempo para testar o solo de outra forma: cultivando videiras. A plantação cresceu, mas as técnicas de cultivo não acompanharam os tempos modernos. Ao menos não até 1954, quando Dante, um dos netos de Lorenzo, assumiu a vinícola e investiu em tecnologia, importando plantas da França para replantio em Carmelo. Além da tradicional Tannat, há Cabernet, Syrah, Malbec e Pinot Noir. Embora não tenha grande estrutura turística, seu ponto alto é a preservação da história. No passeio, além da fábrica, você verá os mais antigos parreirais da região, uma curiosa coleção de rótulos e uma espécie de museu que revela a trajetória dos Irurtia no Uruguai.

  • O tour inclui uma taça de vinho (200 pesos, R$ 23). Para degustar mais rótulos, desde US$ 25. Site: irurtia.com.uy

 

***

 

Ruas do centro de Colônia do Sacramento, Patrimônio da Humanidade fincado no estuário do Rio da Prata. Foto: Bruna Toni/Estadão

 

Bate-volta em Colônia
Duas escapadas para variar o roteiro vinícola 

• Colônia do Sacramento
Para dar um tempo no roteiro de vinhos, considere a parada nesta cidade histórica: está a 2h30 de Montevidéu e a 1h de Carmelo. Fincada no estuário do Rio da Prata, ela foi alvo de uma longa disputa entre portugueses e espanhóis ao longo de dois séculos. Como resultado, preserva em seu centro, patrimônio da Unesco, traços das arquiteturas espanhola e portuguesa, com ruas de paralelepípedos, casas de barro, ruínas e a mais antiga igreja uruguaia, do século 17, à beira do rio – com vista para Buenos Aires.

• Colônia Valdense
A 1h30 de Montevidéu e também de Carmelo, essa simpática cidade, fundada por italianos no século 19, pode ser um desvio interessante se você é fã de queijos: há diversas granjas produtoras de tipos como dambo, gruyère e provolone, entre elas a Brassetti e a Don Santi. Visite ainda o Museu do Colecionador.

 

***

 

PARA QUANDO VOCÊ FOR
Transporte e hospedagem

Aéreo

SP-Montevidéu-SP: desde R$ 987 na Latam e de R$ 1.606 na Azul

Terrestre

Sete dias de aluguel de carro em Montevidéu custa a partir de R$ 733, em média, na rentcars.com

Onde dormir

• Grand Hyatt Carmelo: isolado e luxuoso, esse resort (ex-Four Seasons) ocupa 44 mil hectares, com 150 mil metros quadrados de parreirais. Tem 44 quartos amplos e bem equipados, campo de golfe, piscinas e spa. Diárias desde US$ 369, com café. Site: bit.ly/hyattcarmelo.

• Las Liebres: com pratos braseados à la Francis Mallmann, este restaurante-hospedaria está no ponto mais alto do Estado de Colônia. Fui de cordeiro preparado no forno de barro, delicioso (650 pesos; R$ 74). Diárias desde US$ 315. Site: lasliebres.com.uy.

• El Bodegon: a fachada é antiga, mas este bar de vinho com decoração simpática abriu há menos de um ano no centro de Carmelo. Peça ojo de bife, clássico uruguaio; bit.ly/bodegonuy.

*A REPÓRTER DO VIAGEM, DO ESTADÃO, VIAJOU A CONVITE DO MINISTÉRIO DO TURISMO DO URUGUAI

Receba mais conteúdo por e-mail

Veja mais sobre

Posts relacionados