Existe um tipo de vinho ‘certo’ para combinar com chocolate?

Não é bicho de sete cabeças: algumas regrinhas básicas e um tanto de confiança em seu próprio gosto ajudam a deixar o doce de cacau ainda mais saboroso. Por Viviane Zandonadi

Não há nada de errado em devorar uma barra de chocolate e beber um cálice de vinho doce. Foto: iStock
Não há nada de errado em devorar uma barra de chocolate e beber um cálice de vinho doce. Foto: iStock

Ninguém precisa se sentir à beira de um abismo tentando escolher o melhor vinho para cada um dos montes de chocolate de dulçor variado que se esparramam por mesas e mentes nesta época do ano (e, por que não, o ano inteiro). Não precisa ter medo de errar e cair. Só que não importa o que qualquer pessoa diga, seja ela seu analista, sua mãe, sua amiga (relaxe, se divirta, ria de você): é o tipo de pergunta que sempre emerge de algum lugar, nem que seja para quebrar o gelo do silêncio constrangedor depois que algum parente faz um discurso polêmico no almoço de família: afinal, qual é o melhor tipo de tinto ou branco para acompanhar chocolate?

Na revista do Clube Paladar, há um ano, o sommelier-chefe Massimo Leoncini já dizia que o que “todo mundo fala que é um bicho de sete cabeças não sai muito das regras de harmonização. O chocolate tem muita concentração e bastante persistência gustativa, além da doçura e da gordura do cacau. Portanto, os mais indicados são vinhos doces com boa estrutura e bom nível de açúcar para equilibrar.”

A crítica de vinhos Jancis Robinson escreve: “[O chocolate] Tende a aniquilar a maior parte dos vinhos, mas aqueles muito doces, fortes como Porto, Pedro Ximénez (PX), Madeira (Malvasia) e Jerez doce funcionam bem.”

Leoncini dá outras pistas: “quanto mais gordo for o chocolate, vou precisar de mais álcool e de mais acidez. Se for amargo, posso escolher um vinho que tenha um pouco mais de açúcar. Se for ao leite, de novo preciso de mais acidez. O vinho do Porto é perfeito. Outros indicados são o Banyuls, encorpado e estruturado, e o Muscat de Beaumes de Venise, do sul do Rhône, nas versões branco, rosé e tinto. O branco fica ótimo com chocolate branco, que também pode ser acompanhado de um Porto branco doce. Para os que gostam de vinhos mais complexos, os doces alsacianos Sélection de Grains Nobles são excelentes.”

NÃO ME DIGA O QUE FAZER (OU SIM)

Tem de ser assim, tem de ser assado. Preguiça dos imperativos e dos julgamentos? Me perdoe, mas vou ter de “mandar” você parar. Parar de se preocupar. Ligue o Spotify (ou aplicativo preferido de música). Sintonize em bom som a inglesa Dusty Springfield (1939-1999) e a canção You Don’t Own Me. Aumente o volume no refrão: “don’t tell me what to do, don’t tell me what to say…”. É libertador cantar em voz alta. Faz bem. E se quiser espantar qualquer vestígio de tensão (ao pedir um Chardonnay para acompanhar uma fatia de bolo de cacau), lembre-se: quando perguntam ao chef argentino Francis Mallmann sobre o desafio de compatibilizar comida e vinho, ele diz que acha harmonização uma bobagem e que prefere combinações que provoquem “choque na boca”. Veja bem: Mallmann não discorda, em absoluto, que pratos e copos andem juntos, mas diz que prefere aproximar pelo contraste.

Parece mais uma questão de espontaneidade, e pensar sobre isso tira o peso excessivo das escolhas.

Um bom caminho parece ser ouvir as pessoas em quem você confia, experimentar, confiar em seu próprio gosto e aproveitar bem a vida que, como diz o poeta, é muito curta para ser pequena – ouvi essa afirmação outro dia, atribuída a Chacal. Não me canso nem esqueço de lembrar. Vale, né?

***

+PONTO FINAL

Receba mais conteúdo por e-mail

Veja mais sobre