Vinho e Enxaqueca: Como a Dor De Cabeça Pode se Relacionar a Bebida?

Vinho e Enxaqueca: Se fosse um post nas redes sociais, eu diria que há a dor de cabeça “Nutella”, que passa com qualquer aspirinazinha, e a dor de cabeça “raiz”, a famosa e temida enxaqueca

Vinho e Enxaqueca

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Quem ri não sabe do que estou falando! Aqueles que sofrem de enxaqueca, como eu, sabem o que é perder um dia inteiro de trabalho ou de descanso. Enxaquecas são dores de cabeça específicas, latejantes, ocorrem em episódios, geralmente acompanhadas por sensibilidade ao som e à luz, podendo causar náuseas e vômitos e que chegam a durar até 72 horas. A minha costuma durar umas 10 horas e não há coisa melhor do que quando a gente sente que ela está cessando.

Nos Estados Unidos, algo como 12% da população tem enxaqueca. Por aqui, são 13 milhões de brasileiros que reclamam de dores de cabeça diariamente, um número realmente grande.

Mas o que desencadeia a enxaqueca? São várias coisas e as causas variam de indivíduo para indivíduo. Aqui vão algumas delas:

O cérebro de quem tem enxaqueca não gosta muito de sair de sua rotina, por isso a falta de sono (ou mesmo o excesso) podem desencadeá-la. O mesmo acontece quando se sai da rotina das refeições. Pular uma refeição pode ser um gatilho para o surgimento da dor.

O estresse também pode ser um gatilho. O mais interessante é que o período de relaxamento após o estresse também pode ser um problema. “Isso explica por que uma crise de enxaqueca pode estragar o primeiro dia de férias, o primeiro dia depois que você sai de um trabalho estressante ou o início da lua de mel”, afirma o colega neurologista Willian Rezende do Carmo.

As alterações nos níveis de estrógeno, que ocorrem durante o período menstrual, ou decorrente do uso de pílulas anticoncepcionais, também podem desencadear enxaquecas.

Com relação à comida, alimentos que contêm tiramina (e aí incluímos o vinho tinto, queijos curados e algumas carnes processadas) e taninos (nosso velho conhecido) e o excesso de cafeína podem desencadear uma crise de enxaqueca. Um gatilho bastante comum é aquele perfume exagerado daquela pessoa ao nosso lado no elevador ou no trabalho. Estímulos como luzes brilhantes e ruídos altos nem precisamos comentar. Esforços físicos, incluindo-se aí o sexo, podem desencadear dor de cabeça.

E, finalmente, o álcool. Nosso corpo metaboliza o álcool e o transforma em acetato, que pode causar enxaqueca. Qualquer bebida alcoólica pode desencadear enxaqueca, mas licores, tequila, uísque e, infelizmente, o vinho tinto, parecem ser os piores gatilhos. No meu caso, o vinho tinto e os vinhos doces de sobremesa (que eu adoro) são os mais perigosos.

Quer uma receita infalível para ter uma enxaqueca monstruosa? Faça uma aula de aeróbica ou outro exercício físico intenso à beira da piscina, sob um sol escaldante. Em seguida, beba uma caipirinha e emende uma relação sexual. Vejam que não é uma situação impossível. Quer piorar a situação? Troque a caipirinha por um vinho tinto (principalmente se for das uvas Tannat ou Malbec). Minha cabeça dói só de imaginar.

Novamente eu aqui, falando “mal” de vinho, num artigo para enófilos. Não é bem assim, o vilão aqui não é o vinho, e sim o coitado que tem enxaqueca. Você entenderá o porquê abaixo.

A fim de compreender melhor a relação entre o vinho e as dores de cabeça, os neurologistas Abouch Valenty Krymchantowski e Carla da Cunha Jevoux, do Rio de Janeiro, realizaram um estudo que foi publicado em maio de 2014 na revista americana Headache e que teve grande repercussão. Os autores selecionaram 40 pacientes que estavam em tratamento para enxaqueca, enófilos como nós e que relatavam crises após a ingestão da bebida. Os mesmos foram convidados a ingerir meia garrafa de vinho das variedades Malbec, Tannat, Cabernet Sauvignon e Merlot, todos da América do Sul, com intervalo mínimo de quatro dias entre eles. Observaram que 33,4% dos pacientes tiveram enxaqueca em todas as ocasiões; 54% sentiram-se mal em duas ocasiões; e 87% tiveram dor ao menos uma vez. As uvas Tannat e Malbec foram as que desencadearam a enxaqueca com maior frequência (51,7% e 48,2% respectivamente). Cabernet Sauvignon e Merlot causaram dor em menos de 30% das vezes.

A explicação mais provável é que as variedades Tannat e Malbec possuem mais tanino, que já vimos ser saudável para o coração, mas que também provoca uma mobilização súbita da serotonina e pode desencadear enxaqueca, notadamente em pessoas propensas a crises.

E por que o vinho causa dor de cabeça? Além dos já citados tanino e tiramina, na própria elaboração da bebida são adicionados componentes capazes de induzir a cefaleia. Um desses aditivos é o sulfito (dióxido de enxofre, SO2). O sulfito acrescentado ao vinho pode desencadear dor de cabeça, enxaqueca, asma e outras possíveis reações em indivíduos sensíveis.

E o que nós devemos fazer, como apaixonados por vinho, se sofremos de enxaqueca? As pessoas com enxaqueca, após tantas sofridas crises, acabam por se observarem e se conhecerem melhor, a ponto de saberem se estão num dia propício a ter uma crise ou não. Devemos ficar atentos aos sinais! Se acharmos que não estamos num dia bom, devemos evitar a bebida ou então tomarmos profilaticamente nossos remédios (e cada um sabe muito bem qual faz o melhor efeito).

Outras dicas importantes são: tomar um ou dois copos de água a cada taça de vinho, além de se alimentar durante os goles, uma vez que álcool leva à desidratação e essa, por sua vez, gera dor de cabeça.

Uma boa alternativa nesses dias difíceis é dar preferência aos brancos ou procurar pelos vinhos menos tânicos e com menor teor de álcool, como aqueles produzidos com Cabernet Franc, Pinot Noir, Barbera, Primitivo, Grenache, Merlot e Gamay, geralmente vinhos do Velho Mundo (Europa).

Mais uma opção é partir para os vinhos naturais ou biodinâmicos, que por não terem adição de sulfitos, podem não ser tão desencadeantes de enxaqueca quanto os vinhos convencionais.

É importante lembrar que o vinho não provoca a doença. Entretanto, se apenas um gole já for suficiente para provocar enxaqueca, faça uma consulta com um especialista. Quanto mais entendermos do assunto, melhores as nossas escolhas para vivermos com mais prazer e saúde.

Para nós, assim como para o dr. Krymchantowski, as pessoas que sofrem de enxaqueca não precisam abandonar o vinho. “O importante é não combinar fatores que trazem a crise.” Aprender a controlar os gatilhos individuais lhe dará maior controle sobre suas enxaquecas, sempre combinando com um estilo de vida saudável, incluindo exercícios regulares, uma dieta equilibrada e controle do estresse.

E não esqueça: se as dores de cabeça persistirem, consulte um médico! Saúde!

Autor: Dr.Carlos Eduardo Suaide Silva, cardiologista e editor do Jornal da Sociedade Brasileira de Cardiologia e Fellow of the American College of Cardiology (FACC) e da European Society of Cardiology (FESC).

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