Vinho e Gestação : Um Assunto Polêmico

“Posso beber vinho durante minha gestação?” Muita gente se choca com essa pergunta mas o fato é que até para respondê-la já foram feitos vários estudos.

Conheça as diversas opções de uvas e regiões para degustar no Clube Paladar, o Clube de Vinhos do Estadão.

Vinho e Gestação é um tema polêmico e os resultados podem realmente surpreender muita gente: de fato, essa dúvida é bastante comum, justamente porque não há exatamente um consenso em relação ao assunto.

O nosso Ministério da Saúde recomenda que as gestantes não consumam bebidas alcoólicas, pois não se sabe ao certo o quanto o consumo de álcool durante a gravidez pode afetar o desenvolvimento do bebê. O que se sabe é que o álcool atravessa a barreira placentária, e que sempre que essa substância for ingerida pela mãe o bebê estará exposto aos seus efeitos.

Nos Estados Unidos, desde 1990, cada garrafa de vinho ou de destilado vem com uma advertência da autoridade máxima do país na área de saúde (o Surgeon General) afirmando que “as mulheres não devem consumir bebidas alcoólicas durante a gestação em razão dos riscos de causar defeitos no feto”.

As principais consequências conhecidas em relação ao consumo de álcool durante a gravidez são: baixo peso ao nascer, descolamento prematuro da placenta e hipertonia uterina (contração constante do útero). Além disso, acredita-
se que o consumo de 20 gramas de álcool já pode ser suficiente para atuar sobre a respiração e os movimentos fetais
(apenas a título de conhecimento, 100 ml de vinho tinto contém aproximadamente 10 gramas de álcool).

Isso tudo já seria suficiente para darmos o assunto por encerrado, mas não é bem assim… Segundo os médicos David Whiteen e Martin Lipp, da Universidade da Califórnia, em San Francisco, o esforço do governo americano para evitar o consumo de álcool durante a gravidez começou em 1973, quando alguns estudos demonstraram que o álcool consumido em demasia podia causar uma tal de Síndrome Fetal do Álcool. Esses estudos apontavam para o fato de que filhos de mães alcoólicas nasciam com uma série de defeitos. Entretanto, essa síndrome é extremamente rara, ocorrendo em apenas três bebês a cada 100 mil nascimentos e, ainda assim, somente quando a mãe exagerava no álcool durante toda a gravidez.

Contrariando tudo isso, um estudo publicado na Revista Internacional de Obstetrícia e Ginecologia afirma que beber uma taça de vinho por dia não faz mal à saúde do bebê. Essa pesquisa foi feita na Universidade de Londres e acompanhou mais de 10 mil crianças nascidas entre 2000 e 2002, até completarem sete anos, analisando seu comportamento emocional e social, assim como o desempenho cognitivo em exercícios de matemática e leitura. As crianças foram divididas em quatro grupos com relação à quantidade de álcool ingerido pelas mães:

1 – mães que bebiam e pararam durante a gestação
2 – as que nunca beberam
3 – as que beberam moderadamente
4 – aquelas mães que beberam bastante durante a gestação

O resultado interessante foi que as crianças nascidas de mães que beberam uma taça de vinho por dia durante a gravidez não apresentaram mais problemas emocionais ou mentais do que aquelas nascidas de mães abstêmias. O estudo concluiu que a ingestão do equivalente a 175 ml de vinho diariamente não está relacionada com o mau desenvolvimento dos bebês.

Outro estudo, iniciado há 14 anos, afirma que uma dose diária de vinho para mulheres grávidas pode de fato ser até benéfica. No total, 2.730 crianças e suas mães foram avaliadas. Os filhos, de 2 a 14 anos de idade, passavam por avaliações periódicas. As mulheres prestaram informações sobre seus hábitos de consumo semanal de álcool durante a gravidez: 59% não bebiam, 20% bebiam ocasionalmente, 15% bebiam pouco (de 2 a 6 doses por semana); 3% bebiam moderadamente (7-10 por semana) e 2% bebiam muito (11 ou mais por semana). A partir de testes psicológicos e de observações de comportamento social, descobriu-se que o ideal é a dosagem moderada. Os filhos de mães desse grupo se apresentaram mais saudáveis do que os de mães abstêmias e, é claro, que o de mães alcoólicas. Uma hipótese levantada é que, aparentemente, beber moderadamente pode tornar a mãe mais calma e relaxada, o que se refletiria nos filhos mais tarde.

Mais um estudo realizado na Universidade de Copenhague, Dinamarca, com mais de 100 mil gestantes, mostrou que filhos de mães que bebem até uma garrafa de vinho por mês e que beberam ocasionalmente durante a gestação são mais ajustados socialmente do que aqueles de mães abstêmias, ao atingirem os sete anos de idade. O estudo diz que o efeito é benéfico e as crianças ficam mais “sociáveis”, mas eles mesmos sugerem que provavelmente esse resultado deva ser pelo estilo de vida dos pais e não devido aos efeitos do álcool.

A famosa Jancis Robinson, uma das maiores críticas e degustadoras de vinho do mundo, Master of Wine e autora inglesa, chegou a fazer uma declaração interessante na revista Wine Spectator: “Estou convencida de que ninguém deve se sentir culpada em beber socialmente durante a gravidez”. Mãe de três filhos, Jancis bebia uma taça de vinho diariamente durante suas gestações.

Assim, o assunto permanece controverso. As gestantes devem ser desencorajadas a consumir bebidas alcoólicas, uma vez que não foram encontradas evidências de que exista uma quantidade segura de álcool que possa ser ingerida durante a gestação. Os danos de beber em excesso na gravidez já são comprovados, enquanto o consumo social e moderado ainda estão em fase de especulação, o que faz os próprios pesquisadores recomendarem cautela.

A boa notícia é que nós, pais, podemos beber vinho à vontade durante a gravidez de nossas esposas sem nos preocuparmos com a saúde dos bebês! E que, independentemente delas beberem ou não durante a gestação, o nascimento do bebê é mais um excelente motivo para abrir um belo Champanhe e comemorar!

Saúde!

Autor: Dr.Carlos Eduardo Suaide Silva, cardiologista e editor do Jornal da Sociedade Brasileira de Cardiologia e Fellow of the American College of Cardiology (FACC) e da European Society of Cardiology (FESC)

Receba mais conteúdo por e-mail

Veja mais sobre

Posts relacionados