Vinho e Libido

Onde há fumaça há fogo, já dizia a minha avó!

Vinho e Libido

Desde a Antiguidade, o vinho assumiu importância indubitável na vida da humanidade e sempre foi reconhecido por seu suposto poder afrodisíaco. Histórias, lendas e pinturas relatam o quanto essa bebida estimulava a libido de homens e de mulheres, deixando-os mais preparados para uma noite a dois ou mais.

Para os gregos, o deus do vinho, da colheita e da fertilidade é Dionísio. Para os romanos, é Baco, cujo culto sempre esteve associado a orgias e a festas delirantes cheias de sensualidade. Daí vem o termo bacanal, que é usado até hoje.

Se desde a mitologia greco-romana existe uma associação entre vinho e sexualidade, é porque realmente deve haver algo a ser explicado. O difícil, muitas vezes, é provar cientificamente tal associação. Há vários trabalhos sobre o assunto, mas como medir um tema tão subjetivo? Como afirmar que o vinho atua sobre a libido?

Em primeiro lugar, o que é libido? De um modo bastante simplista poderíamos definir como um termo usado para descrever o desejo ou o impulso sexual de alguém. Segundo Freud e Jung, a coisa vai um pouco (ou mais) além, mas podemos ficar por aqui.

Vários motivos podem diminuir tanto a libido masculina como a feminina,por exemplo, baixa autoestima e alimentação
inadequada. Alguns hábitos sociais também podem reduzir a libido, como o tabaco e, atenção, o consumo excessivo de álcool.

Nos homens, a diminuição da libido pode ser causada pela deficiência do hormônio testosterona. Pode, também, ser um efeito secundário de algum medicamento que está sendo ingerido. Outros fatores importantes que podem frequentemente causar a diminuição da libido são o estresse, a depressão e a ansiedade.

Na mulher, o hipotireoidismo ou alguns anticoncepcionais podem diminuí-la. O ciclo menstrual também tem grande influência na libido (e no humor!), sendo que no período fértil ela pode estar aumentada.

Só com essas informações dá para entender que o vinho, aumentando a autoestima e diminuindo o estresse, pode atuar positivamente na libido. Mas vai muito além, como veremos adiante. Porém, como podemos medir o efeito do vinho sobre a libido?

Uma das possíveis maneiras é através de um questionário. No ano 2000, dr. Raymond Rosen, psiquiatra de Nova Jersey, desenvolveu um teste para avaliar a função sexual em mulheres. O chamado Female Sexual Function Index (FSFI) avalia seis quesitos e uma soma de escores, que leva em consideração o grau de desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor durante o ato sexual. Em outubro de 2009, dr. Nicola Mondaine publicou um trabalho no “Journal of Sexual Medicine”, no qual utilizou o FSFI para avaliar a relação entre vinho e sexualidade e concluiu que o consumo moderado de vinho tinto pode aumentar a libido sexual feminina.

O estudo foi conduzido na Itália, na Universidade de Florença, na região de Chianti, Toscana, com 798 mulheres italianas entre 18 e 50 anos. As voluntárias foram divididas em três grupos conforme o hábito diário de consumo de vinho: as que não consumiam, aquelas que consumiam uma ou duas taças e as que bebiam mais de duas– todas consideradas sexualmente saudáveis. O grupo que apresentou os maiores índices de desejo sexual foi o das mulheres que consumiam uma ou duas taças de vinho por dia, apesar de não ter sido verificada nenhuma diferença significativa entre os grupos em relação à excitação, satisfação, dor e orgasmo.

Mais uma vez, devemos interpretar esse resultado com cautela, devido ao pequeno número da amostragem e pela falta de dados de exames laboratoriais, porém, ainda assim, o estudo sugere correlação entre consumo moderado de vinho tinto e melhor sexualidade.

Mas eu disse que os poderes afrodisíacos do vinho iam muito além.

Sem dúvida, sua principal ação está no relaxamento proporcionado quando ingerido em baixas doses, pois o álcool solta alguns freios sociais, e os desejos sexuais reprimidos ficam mais expostos e suscetíveis a se expressar.

No entanto, não é só pelo relaxamento que o vinho atua. As diversas substâncias contidas na bebida (já citadas exaustivamente por aqui) também se relacionam com o aumento da libido.

O resveratrol, ajudando a combater os radicais livres, que agridem nossos tecidos e prejudicam o funcionamento adequado do organismo, auxilia a manter o corpo mais saudável e a aparência mais jovem. Além disso, ele atua na saúde dos vasos sanguíneos, fundamental para que os homens tenham uma boa ereção e também para as mulheres, que conseguirão mais irrigação das áreas erógenas, como o clitóris.

Uma neurofisiologista norte-americana chama a atenção para outro fator importante: alguns vinhos, especialmente os espumantes, têm muita N-acetil-etanol-amina, que estimula o sistema límbico (parte do cérebro relacionada à sexualidade).

Alguns tintos possuem também a substância tiramina, uma monoamina que estimula a liberação de dopamina nas sinapses neuronais e que certamente atua para a melhora da libido.

Mas um dos poderes afrodisíacos do vinho que acho mais interessante está relacionado com os aromas. O nosso raciocínio é ativado por todos os sentidos, inclusive pelo olfato.

Algumas notas aromáticas, como as do jasmim, do musgo e, principalmente, da baunilha, trazem sensações que estimulam a sensualidade e a excitação. Outros aromas podem estimular a atração física, como os de especiarias (citrus, sândalo e trufas), segundo o perfumista londrino Roja Dove. Quem curte um bom vinho já cansou de reconhecer vários desses aromas em diversas taças. Mas lembre-se: todos esses maravilhosos efeitos do vinho sobre a libido são adquiridos quando bebemos moderadamente. Após uma grande bebedeira, os resultados sobre a libido podem ser realmente catastróficos.

Saúde!

Autor: Dr.Carlos Eduardo Suaide Silva, cardiologista e editor do Jornal da Sociedade Brasileira de Cardiologia e Fellow of the American College of Cardiology (FACC) e da European Society of Cardiology (FESC)

Receba mais conteúdo por e-mail

Veja mais sobre

Posts relacionados