Vinho e Longevidade

“Uma taça de vinho de vez em quando é o segredo para a longevidade”, diz a aposentada Rosa Francisca Florentina, de 112 anos, que vive em Américo Brasiliense, SP

Vinho e Longevidade

E então? Será verdade que o vinho realmente exerce uma influência benéfica prorrogando nosso envelhecimento? Desde sempre houve a busca do elixir da juventude ou de poções mágicas que prolongassem a vida, e isso sempre foi visto com certo ceticismo ou ridicularizado pela comunidade científica. Porém, essa busca nunca parou e o fato é que, com o avanço da ciência, parece que estamos encontrando o caminho para uma vida mais longa. Apesar de ainda não termos encontrado a poção do druida de Asterix, os estudos de genética estão nos permitindo mergulhar fundo na ultraestrutura celular e encontrar genes relacionados ao envelhecimento. A ativação de determinados genes parece estar relacionada a um aumento da longevidade em experiências com fungos e com animais de laboratório,
como veremos adiante.

Uma das maiores conquistas de um povo em seu processo de humanização é o bom envelhecimento de sua população, refletindo uma melhoria das condições de vida. Nos Estados Unidos, a população de idosos com mais de 65 anos deve atingir 88 milhões de indivíduos em 2050 e, comparados com os 48 milhões de 2015, ela vai praticamente dobrar nesse período, passando de 8,5% para 17% da população total daquele país.

É óbvio que não podemos atribuir esse crescimento do número de idosos à maior ingestão de vinho, mas principalmente à melhora do saneamento básico a aos avanços da medicina. Mas, você se lembra do paradoxo francês que já comentamos por aqui? Um dos fatores relacionados ao maior número de idosos saudáveis na França, em comparação com os Estados Unidos, apesar da alimentação gordurosa e do alto número de fumantes daquele país, é a ingestão moderada e regular de vinho tinto.

Mas qual é a ligação entre vinho e longevidade? Para explicar isso, precisamos voltar lá atrás na teoria da evolução das espécies. Isso mesmo: segundo um dos maiores geneticistas de nosso tempo, o ucraniano Theodosius H. Dobzhansky, “nada na biologia faz sentido, exceto à luz da evolução”, como comenta com muita propriedade o colega Drauzio Varela em seu blog. De forma bastante simplória, segundo essa teoria, todos descendemos de um ancestral comum e apenas aqueles mais adaptados é que seguirão em frente. Isso significa que aqueles que conseguiram sobreviver ao estresse, e às dificuldades que a evolução impôs, foram criando mecanismos para viver por mais tempo. Um tipo muito importante de estresse é a fome. Para Drauzio Varela, “para viver mais, é preciso comer menos”. Nossos ancestrais, por vezes, passavam longos períodos em busca de alimento e muitos não resistiam à fome prolongada. Aqueles que sobreviviam a esse estresse acabaram se adaptando e isso foi incorporado ao seu mapa genético.

De fato, estudos que submeteram ratos de laboratório a dietas com restrição calórica (fome) prolongaram a vida desses roedores em até 40%. Há cerca de 20 anos, o dr. Leonard Guarente, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), pesquisa o assunto e, recentemente, mostrou que a mudança induzida pela fome para a preservação de tecido pode ser provocada pela ativação de algumas proteínas do corpo conhecidas por sirtuínas. O dr. David Sinclair, da escola de medicina de Harvard e ex-estudante dele, descobriu, então, que essas proteínas podiam ser ativadas por vários compostos naturais, e que algumas pequenas moléculas presentes nos vegetais conseguiam mimetizar os efeitos da restrição calórica prolongando o tempo de vida de certos fungos em até 70%, além de proteger células humanas dos efeitos letais de radiações ionizantes. Tais moléculas pertencem à família dos polifenóis.

No MIT, foi demonstrado que, nos fungos, essas moléculas agem ativando um gene chamado SIR2, resultando em aumento da longevidade. Em células humanas, a ação desses polifenóis parece produzir o mesmo efeito sobre um gene análogo àquele existente nos fungos, batizado como SIRT1.

Procurando novas moléculas com propriedades semelhantes às dos polifenóis, o grupo do MIT identificou mais 15 compostos, incluindo o famoso resveratrol, do qual já falamos várias vezes por aqui. Bastante encontrado nas uvas e no vinho tinto, sendo o mais potente de todos esses compostos, é capaz de potencializar a atividade do gene SIRT1 humano.

Então está aí a ligação entre vinho e longevidade. A má notícia é que para obter dosagens equivalentes de resveratrol àquelas utilizadas nas pesquisas com ratos, uma pessoa teria de beber mais de cem garrafas de vinho tinto por dia (não aconselho). Em Wisconsin (EUA), cientistas já conseguiram o mesmo efeito usando uma dose em camundongos equivalente a apenas 35 garrafas por dia (ainda acho um pouco complicado!). Mas, em pesquisas mais recentes, meras quatro taças de vinho poderiam se aproximar da quantidade de resveratrol que consideram eficaz para mimetizar o estresse da fome, ativar o gene e prolongar a vida (estamos chegando perto do ideal!). As pesquisas continuam em andamento e muita novidade sobre o assunto deve surgir nos próximos anos. Existem laboratórios que acreditam que aquele que se destacar nessa linha de pesquisa acabará dominando a indústria farmacêutica por muito tempo.

Mas, lembre-se, enquanto não encontramos definitivamente a pílula da juventude, a melhor maneira de envelhecer com qualidade é ter uma alimentação saudável, praticar exercícios físicos regulares, cultivar boas amizades, manter o cérebro ativo, rir muito e tomar aquela taça de vinho de vez em quando sugerida pela dona Rosa Francisca no início deste texto! Cheers!

Autor: Dr.Carlos Eduardo Suaide Silva, cardiologista e editor do Jornal da Sociedade Brasileira de Cardiologia e Fellow of the American College of Cardiology (FACC) e da European Society of Cardiology (FESC)

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