Vinho paulista: uma ‘menção especial’

Na seção Pot-Pourri de maio, destacamos a nova edição do Descorchados, o guia de tintos e brancos da América do Sul, e uma entrevista com seu editor, que elogiou a vinicultura paulista. Veja também: viagem de luxo para a Croácia, manjar-branco, a história de uma mulher (e do Champanhe) e uma dica: dê uma chance aos ‘vinhos da casa’

A nova edição do guia Descorchados faz um perfil dos tintos e brancos da América do Sul; em entrevista ao caderno 'Paladar', do Estadão, seu editor diz que os vinhos paulistas merecem uma menção especial e que ele bebeu vinhos extraordinários no estado. Foto: Pixabay

POT-POURRI
A VIDA À MESA E SEUS ACOMPANHAMENTOS – SEÇÃO DE NOTAS DA REVISTA DO CLUBE PALADAR
EDIÇÃO DE MAIO DE 2019

GUIA DE VINHOS

A nova edição do ‘Descorchados’

Idealizada pelo crítico chileno Patricio Tapia, a publicação reúne e avalia vinhos da Argentina, do Brasil, do Chile e do Uruguai 

POR ISABELLE MOREIRA LIMA, DO PALADAR

Idealizada pelo crítico chileno Patricio Tapia, a publicação reúne e avalia vinhos da Argentina, do Brasil, do Chile e do Uruguai. Foto: Descorchados
Idealizada pelo crítico chileno Patricio Tapia, a publicação reúne e avalia vinhos da Argentina, do Brasil, do Chile e do Uruguai. Foto: Descorchados

 

Os produtores brasileiros abraçaram o vinho natural, mas “há muito trabalho pela frente”, diz o crítico chileno Patricio Tapia, editor do guia Descorchados 2019. Os produtores convencionais também não estão com a vida ganha, já que o clima úmido brasileiro é um grande desafio para uma fruta sã. Por isso, no segundo ano em que o guia inclui vinhos tranquilos do Brasil, eles ainda são minoria. Entre os que tiveram êxito estão rótulos das vinícolas Luiz Argenta, Quinta da Figueira, Guaspari, Miolo, Pizzato e Guatambu. O brasileiro Eduardo Milan, editor de vinho e tradutor do guia, diz que foram provadas mais de 700 amostras brasileiras neste ano, os resultados foram melhores que os de 2018 e ainda há muito “chão” a percorrer. O Descorchados tem listas de melhores vinhos, revelação e bom custo-benefício de todos os países, além de textos excelentes com informações relevantes sobre o terroir das regiões. Custa R$ 150 e vale o investimento de quem é amante dos vinhos do Novo Mundo. Pode ser comprado no site selecaoadega.com.br.

Três perguntas para Patricio Tapia

Editor do ‘Descorchados 2019’

Os produtores brasileiros abraçaram o vinho natural, mas “há muito trabalho pela frente”, diz
o crítico chileno Patricio Tapia, editor do guia Descorchados 2019. Foto: divulgação

 

É possível apontar alguma novidade ou tendência nesta edição do guia?
O que eu vi neste ano foi a consolidação da produção artesanal como uma forma viável de se fazer vinho. Até cinco anos atrás, o vinho na América do Sul era visto, primeiro, como um mau negócio, em que você tinha que produzir muito se quisesse ganhar (pouco) dinheiro. Hoje, ainda que essa realidade seja a regra, há um grupo crescente de produtores apostando em pequenos volumes, na escala artesanal, fazendo vinhos de pequenos vinhedos que, em alguns casos, oferecem forte caráter de terroir. Sem falar no resgate de cepas perdidas ou esquecidas feito por esses projetos.

Existe um “vinho sul-americano”?
Creio que não. Mais do que um vinho sul-americano, o que existe – como há no mundo todo – são lugares específicos de onde saem vinhos que não são melhores, mas apenas diferentes. Terroirs especiais que oferecem uma grande personalidade em seus vinhos, como o Mosteiro em Gualtallary, Trevelin na Patagônia Argentina, Las Violetas no Uruguai, Itata ou Limarí no Chile. O vinho sul-americano não é um, mas muitos ao mesmo tempo. E isso é muito positivo porque fala da diversidade dessa bebida.

“O estado de São Paulo merece uma menção especial. Provamos vinhos excepcionais da região”
Patricio Tapia, crítico de vinhos

Alguma região merece destaque especial neste ano?
O sul, tanto na Argentina como no Chile. E quando falo do sul, falo da profunda Patagônia em áreas como Chubut, na Argentina (de vinícolas como Otronia, Casa Yague, Nant & Fall) e Osorno no Chile com produtores como Ribera Pellín, Trapi del Bueno, Casa Silva e Coteaux de Trumao. Lá, no frio e chuvoso sul da América do Sul, está o futuro. O estado de São Paulo merece uma menção especial. Provamos vinhos excepcionais da região, uma surpresa completa que, espero, seja mais bem investigada na próxima edição do Descorchados.

 

 

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VIAGEM
Luxo emocional

A casa Almondo na Croácia: ainda há suítes para setembro. Foto: Villa Ambienta
A casa Almondo na Croácia: ainda há suítes para setembro. Foto: Villa Ambienta

 

Todos os anos, a gaúcha Al Mondo Turismo Gastronômico leva grupos de viajantes para uma imersão em territórios de vinho e comida no exterior. Ainda há suítes disponíveis para a próxima viagem, que ocorre em dois períodos de setembro. Desta vez, os anfitriões – o chef Marcellus Vieira e a empresária Suzi Leindecker – montaram a Casa Al Mondo na Villa Ambienta, na Croácia, especificamente na península de Istria. Quem for estará perto de Pula, Rovinj e da região de Motovun, famosa pelas trufas (leia mais sobre a Croácia).

A hospedagem tem 850 metros quadrados (em um terreno de 6.000 metros quadrados). São sete suítes, lago privativo, duas piscinas, duas cozinhas e uma adega com vinhos da região. Preço para duas pessoas: 4.350 euros ou 4.500 euros (depende da acomodação escolhida; sem áereo). O valor cobre seis noites, seis cafés da manhã elaborados com produtos locais – e servidos até às 11h –, quatro jantares preparados por Marcellus Vieira (quem quiser acompanha e participa da execução), além de águas e sucos. São dois grupos. O primeiro se hospeda entre os dias 15 e 21/9; o segundo, de 22 a 28/9. Inf.: [email protected] e www.almondo.com.br.

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NO RESTAURANTE
Fique de olho nos vinhos da casa

Beber vinho em restaurante deixa a experiência gastronômica mais completa – e a conta maior. Por isso, o vinho da casa é boa promessa: teoricamente, é mais barato que a média da carta, tem boa qualidade (quem atrelaria o nome a uma bebida ruim?) e versatilidade (para harmonizar com a comida local). Veja quatro exemplos, em restaurantes paulistanos. (Isabelle Moreira Lima)

LE PETIT ICI: esse Syrah com Grenache é complexo nos aromas (pimenta, frutas negras maduras e violetas) e todo amplificado: muita acidez, volume e taninos em abundância. Pede gordura e arrasa com patos e cordeiros cheios de manteiga.
• Origem Vin de France (Rhône), França • Preço R$ 95 no Ici e no Tappo

PIÙ PIZZATO CABERNET SAUVIGNON: tinto intenso, aromático (fruta negra bem madura, cacau, especiarias) e volumoso. É perfeito para os pratos mais substanciosos, especialmente as carnes.
• Origem Serra Gaúcha, Brasil
• Preço R$ 98 no Più

MAZZEI PER BRÁZ: tinto de Sangiovese (80%) e Alicante Nero (20%) perfeito para pizzaria. Tem muita fruta e acidez no ponto, é agradabilíssimo e muito democrático. Faz um par divino com o molho de tomate, sem erro.
• Origem Toscana, Itália
• Preço R$ 119 (R$ 32 a taça)

VINO! NATURAL BRUT: produzido pelo método charmat com Chardonnay e Pinot Noir pela Quinta Don Bonifácio, tem uma sensação de doçura excessiva para um Brut. Na boca é agradável, com borbulhas finas.
• Origem Caxias do Sul, Brasil
• Preço R$ 54 no Vino!

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LIVROS
‘A Viúva Clicquot’ melhora com o tempo

‘A Viúva Clicquot': um vinho que melhora com o tempo. Foto: Amazon
‘A Viúva Clicquot’: um livro que melhora com o tempo. Foto: Amazon

Comecei a (re)ler para lembrar e recomendo: a história da casa de champanhe Viúva Clicquot é a história de uma mulher (e do champanhe francês). Escrita pela professora norte-americana Tilar J. Mazzeo e publicada no Brasil pela editora Rocco com tradução de Angela Lobo (R$ 30 na Amazon), a biografia de 300 páginas sobre Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin é de prender na poltrona. Com uma tacinha nas mãos. (Viviane Zandonadi)

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PONTO FINAL
O manjar-branco é um elogio ao coco

Quando afeto cabe em um manjar-branco feito por alguém que a gente ama? Foto: Viviane Zandonadi
Quanto afeto cabe em uma fatia desmontada de manjar-branco? Foto: Viviane Zandonadi

 

Mingau de coco, bolo de coco embrulhado no papel alumínio, bala de coco e doce de abóbora (com coco). Cocada mole. Manjar-branco. Sempre gostei de dizer que não dava a mínima para os doces e que era capaz de trocar a sobremesa por um pastel. Depois de três edições à procura de idílicos pontos finais para esta seção, pontos que me convençam do contrário, eu vos digo: estou enredada nas pronúncias “ao coco”. São de dar água na boca. No fim, eu gosto. É bom eu me corrigir a tempo de saborear, depois do almoço de domingo, o manjar-branco que a minha mãe põe na mesa como quem não quer nada – e sabendo que nos oferece tudo. A receita? Um vidro de leite de coco, uma lata de leite condensado, a mesma medida de leite e cinco colheres de maisena. Misture muito bem e leve ao fogo baixo até engrossar. O perfume distrativo sobe da panela e pronto: é hora de derramar o creme, mais que um mingau, em fôrma de pudim ou bonito pirex. Leve à geladeira por três ou quatro horas, até ficar firme. A calda você faz assim: cozinhe algumas ameixas-pretas com duas colheres de açúcar e meio copo de água. (Viviane Zandonadi)

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