Vinho Verde – Conheça Mais Sobre Esta Relíquia Portuguesa

Entre os históricos rios Douro E Minho, no noroeste de Portugal, encontra-se a região do Minho, berço do vinho verde, iguaria líquida, única e exclusiva dos portugueses

Vinho Verde

Após uma viagem à cidade do Porto e à região vizinha do Douro, voltei a Portugal, desta vez para explorar a região contígua, o Minho. Mais uma vez, o ponto de partida foi a belíssima e histórica cidade do Porto, onde deságua, no oceano atlântico, o rio Douro, após uma trajetória de 927 km desde sua nascente, situada a 2.080 metros de altitude na serra de Orbión, Espanha. na foz do rio, de um lado a cidade do Porto e, do outro lado, a vila nova de gaia, com seus célebres barcos rabelos ancorados à beira do rio. No passado, esses barcos transportavam o vinho do Porto, desde sua produção, esparramada ao longo do rio Douro, até vila nova de gaia, onde ainda hoje se concentram as tradicionais casas de revenda do vinho do Porto. uma ponte comum liga as duas cidades alguns metros acima do nível do rio, mas a majestosa ponte arrábida, uma estrutura metálica impressionante, descreve um grande arco por sobre o rio Douro, muito mais acima, unindo as duas cidades em uma autoestrada.

Do Porto, segui para a cidade de Guimarães, onde me estabeleci. De lá, partia cedo para investidas nas vinícolas e à noite regressava. antes de começar o périplo pelo cenário do vinho verde, numa tarde fui caminhar e conhecer um pouco da cidade. Passeando pelo centro histórico de Guimarães, apreciei a peculiar arquitetura local. banquinhas de rua vendiam deliciosas castanhas assadas na hora, sobre uma chapa quente, que eu comprava e comia compulsivamente.

No final de outubro, a colheita das uvas já havia se encerrado, e a atenção dos produtores estava agora voltada aos tanques repletos de mosto em fermentação. O vinho verde é um estilo de vinho único no mundo, típico do Minho, elaborado a partir de variedades de uvas autóctones (locais), algumas praticamente desconhecidas fora do país e de cultivo limitado à região. Produzido na região Demarcada dos vinhos verdes, constitui uma denominação de origem controlada criada em 1908. seu nome não tem a ver com uvas verdes ou coisa parecida, até porque há vinhos verdes brancos, rosés, tintos, espumantes e de colheita tardia. há diferentes versões para o uso do nome verde.Uma delas diz que a região demarcada de produção deste vinho é formada por cenários de tons exuberantemente verdes, o que de fato é verdade. outra versão afirma que o nome refere-se ao estilo do vinho, fresco, leve e jovem. uma terceira versão diz, ainda, que o nome é uma referência ao elevado teor de acidez desses vinhos, o que dá a falsa impressão de que as uvas foram colhidas antes de sua maturação.

A verdade é que as uvas são colhidas não verdes e, sim, no momento certo. De fato, essa marcante acidez dos vinhos verdes é uma espécie de assinatura desse estilo de vinho. A sensação provocada na língua por essa acidez é chamada, em Portugal, de “agulha”. Isso se deve a uvas com alta concentração de ácido málico, associada a níveis medianos de açúcar da fruta, o que explica, em parte, o baixo teor alcoólico que o caracterizou por muitos anos, entre 8% e 11%. Mas, hoje em dia, acompanhando uma tendência mundial de elevação do nível de álcool nos vinhos, os verdes vêm sendo elaborados com 12% e até 13,5% de graduação alcoólica. São vinhos que se caracterizam por sua leveza, frescor e acidez e devem ser servidos um pouco mais gelados do que os brancos normais. Após a região do Douro, os vinhos verdes representam o segundo maior volume de exportação da bebida de Portugal, apreciados em mais de 80 países.

Os solos do Minho são majoritariamente graníticos. Embora a maioria dos rótulos seja elaborada com variedades brancas, há também interessantes rótulos tintos, em menor número, elaborados principalmente com a variedade de uva souzão, uma casta regional que dá ao vinho um aroma bastante peculiar, com intensa pigmentação vermelho escura.

Havia, até pouco tempo, certo preconceito contra os vinhos verdes. Muitos o achavam simples, adocicados e marcadamente ácidos, mas o cenário mudou muito na última década. investimentos em pesquisa e aprimoramento trouxeram mudanças significativas. Mais conhecimentos sobre terroir e condução de vinhedos, associados à presença de jovens enólogos, dispostos a inovações, resultam em vinhos verdes mais complexos e ricos, e que preservam sua leveza e seu frescor.

Somente no Minho, uma das mais antigas regiões vinícolas do país, são produzidos anualmente 85 milhões de litros/ano. aproximadamente 22 mil pequenos produtores espalham-se em uma área com pouco mais de 7.000 km2. As mais antigas referências históricas à produção de vinhos nessa região são do filósofo romano Séneca e do naturalista Plínio. no noroeste, nas áreas mais povoadas de Portugal desde os tempos da alta idade Média, a população se espalhou cedo por uma terra muito fragmentada. As referências ao plantio de vinhas data do século 12, mas a viticultura ainda permaneceria incipiente até meados do século 13, época em que o vinho começou a fazer parte dos hábitos dos povos da região. Em toda a Europa, a expansão cultural e demográfica, a intensificação da agricultura e do comércio e a crescente circulação de moeda, tornaram o vinho um importante ativo econômico em todo o continente.

Em meio às bucólicas paisagens da região, os vinhedos se sucedem interminavelmente, uma impressionante colcha de retalhos de 21 mil hectares, plantados principalmente com as variedades brancas loureiro, alvarinho, trajadura e avesso e outras menos cultivadas e de nomes mais exóticos, destinadas principalmente à produção de blends, como batoca, azal, Esganoso e Fernão Pires. Dentre as uvas tintas, as mais cultivadas não poderiam ter nomes menos exóticos, na melhor tradição portuguesa, como borraçal, Padeiro, Espadeiro e vinhão, e outras menos conhecidas, sousão, trincadeira, rabo de anho e Pical.

Nas pequenas cidades e vilas, a famosa gastronomia portuguesa se apresenta invariavelmente com opulência. Pastéis, petiscos, embutidos, suculentos cozidos de legumes com embutidos, frutos do mar, arroz de pato e incontáveis preparos de bacalhau. E queijos, azeitonas, azeites, frutas secas, pudins, maçãs assadas e doces amarelinhos repletos de açúcar e gemas e mais uma infinidade de quitutes deliciosos, servidas com gosto e com fartura. o português é um povo fraterno, generoso e hospitaleiro, que tem pelo brasileiro especial simpatia.

Após cinco dias intensos pelas vinícolas e pelas cidadezinhas, regressei ao Porto, onde visitei o belíssimo Palácio do Freixo.Nesse último dia, em uma tarde escura e chuvosa, tive uma visão inesquecível das antigas residências portuguesas à beira rio se acendendo ao cair da noite. Na manhã seguinte, ao deixar o país, bateu aquela sensação de que não posso me demorar a voltar.

Texto e Fotos: Johnny Mazzilli

 

 

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