Visitamos a encantadora Paraty, no Rio de Janeiro

Com os melhores padrões da arquitetura colonial portuguesa ainda preservados no Brasil, Paraty foi um ponto estratégico entre o mar e a terra no período colonial. Hoje, a cidade que é “Patrimônio Histórico Nacional” e que teve sua candidatura a “Patrimônio Mundial” aceita pela UNESCO como sítio misto, oferece um harmônico refúgio para quem busca tranquilidade, ecoturismo, história e experiências gastronômicas do mar e da fazenda


Eu, pessoalmente, tenho um forte elo afetivo com Paraty. Nos anos 80, quando criança, meus pais tinham a região como uns dos destinos anuais para as nossas visitas ao litoral, já que onde nasci, em Minas Gerais, não podemos ouvir o vai e vem das ondas. Naquela época, a estrada Rio – Santos não era nada segura e chegar ao paraíso entre florestas cor de esmeralda não era tarefa fácil. No entanto, aventureiro – tenho nele a inspiração e o dom de viajar -, meu pai se referia a Paraty como paraíso e nela também encontrava a deliciosa iguaria nacional produzida de cana-de-açúcar, da qual era apreciador: a cachaça. Anos se passaram e a cidade, aos meus olhos, permanece com o mesmo jeito meu pai se referia a ela, cidade paradisíaca.

Basta passar da via principal que liga a rodovia a cidade, que o magnetismo colonial do séc. XIX toma conta e o expectador é levado ao passado pelas ruas pavimentadas ao estilo “pé de moleque”, com construções coloniais, conectando perfeitamente a linguagem urbana com o cenário.

Até o século XVIII, Paraty foi um importante porto que transportava a pedra preciosa brasileira para a capital portuguesa, o ouro. Em 1720, no entanto, com a desaceleração da corrida do ouro e a criação de uma nova trilha ligando o estado de Minas Gerais ao Rio de Janeiro, a cidade foi deixada de lado. Permaneceu assim até os tempos contemporâneos, quando artistas, escritores e outros “descobriram” esse refúgio em um dos ecossistemas mais ameaçados da Serra do Mar. Uma área extremamente importante para a preservação da flora e fauna, bem como fatores climáticos, hídricos e geomorfológicos que suportam estas formas de vida.

A melhor maneira de explorar esse paraíso é simplesmente começar a andar por suas ruas sinuosas repletas de casarões centenários e que escondem formosas pousadas, restaurantes, mercadejo e galerias de arte.

POUSADA LITERÁRIA

Rua do Comércio, 362 – Paraty Tels: (24) 3371-1460 / 3371-1568

No centro histórico, entre as ruas de paralelepípedo, restaurantes e galerias, esconde-se um oásis que oferece primor e quietude. Onde antes ficava a Pousada Coxixo, a Pousada Literária – toda remodelada em 2013 pelo escritório Jacobsen Arquitetura – foi inspirada pela consagrada “Festa Literária Internacional de Paraty” – FLIP.

É uma impressionante opção de hospedagem com ambientes acolhedores para amantes da literatura e ainda para quem faz questão de conforto, boa gastronomia e serviços de excelência. Seus 23 quartos, 2 Vilas e a maior suíte da cidade possuem uma decoração que reflete “luxo despojado” em perfeita harmonia com o projeto paisagístico.

Logo ao estacionar o veículo e entrar na área da piscina – a pousada possui duas entradas: uma para pedestres e no fundo a do estacionamento – fui recepcionado pelo charme do jardim que integra a área comum e as suítes. Durante o check-in, fui apresentado a uma lista de leguminosas e hortaliças da Fazenda Bananal (dos mesmos proprietários) que foram entregues no meu check-out. Adorei este mimo!

Hospedado no segundo andar com vista para o Bar e Jardim, minhas manhãs chegavam alegres devido à rica flora que atrai dezenas de espécies de aves típicas da Serra do Mar. Toda esta riqueza natural pode ser acompanhada pelos hóspedes nas áreas comuns da pousada. As acomodações são equipadas com amenities de linhas naturais, uma pequena seleção de livros e um cantinho especial convidativo a leitura com luminárias orientáveis e poltronas confortáveis. O jornalista e ex-curador da FLIP Miguel Conde foi convidado para selecionar os títulos que integram a biblioteca na área comum e nas acomodações. As Suítes Master oferecem também dois ambientes e hidromassagem no próprio quarto. O serviço no frigobar é “a la carte” e pode ser customizado pelo hóspede. O café da manhã ocorre na hora e onde o hóspede preferir: na piscina, bar ou nas acomodações. Não deixe de pedir o waffle de pão de queijo com melaço de cana; além disso, os ovos beneditinos são feitos com perfeição.

SUÍTE PARATY

A maior e mais charmosa suíte da cidade é um segredo bem guardado dentro da Pousada Literária. Com dois andares e 180 m2, a Suíte Paraty é uma celebração à arte brasileira. A ampla sala no primeiro piso tem vista para um pequeno jardim interno e para as casinhas coloniais. Nos dois andares, elegantes forros de palha de dendê cobrem o teto, dando leveza ao ambiente. No quarto, a parede atrás da cama também é forrada de palha, trazendo, junto com a lareira, um clima de aconchego. A sofisticada colcha de seda italiana de Lisa Corti, a mistura de estilos do painel sob a cama – um artesanato de Monica Carvalho – e as mesas de cabeceira e estante, de Beth Fisher, harmonizam perfeitamente e propiciam um ambiente de leitura e repouso.

SPA POESIA

O SPA Poesia, aberto a não hóspedes, convida a todos a momentos surpreendentes de relaxamento e prazer. Ele tem a curadoria de Tania Ginjas, da Spa Collection, e traz um ótimo menu de terapias faciais e corporais que atende aos mais diversos perfis.

RESTAURANTE QUINTAL DAS LETRAS

Anexado ao hotel, o restaurante Quintal das Letras explora a culinária caiçara utilizando ingredientes frescos recebidos diariamente da horta Fazenda Bananal. O cardápio tem a consultoria dos chefs Claudia Mascarenhas e Bertrand Materne. Bertrand, que é belga, lidera ainda as cozinhas do restaurante Imperatriz Leopoldina, no Hotel Solar do Império, da Pousada Tankamana, do Hotel Solar do Arco e da Pousada Tutabel, dos mesmos proprietários da Pousada Literária.

Na ocasião, a chef Claudia Mascarenhas estava na Pousada e nos sugeriu alguns pratos que foram executados pelo chef da pousada, Luiz Fernando Souza. Iniciamos o jantar com um recheado “Crab Cake Vale do Paraíba” – Bolinho de Siri com Arroz Negro, Coulis de Açai e degustação de pimentas (R$29), seguimos para os principais, “Camarões Grelhados com Palmito e Aipim Nativo Frito” (R$96) e “Robalo em Crosta de Banana” acompanhado de gratinado de raízes (R$78) e para finalizar a deliciosa experiência, as “Bananinhas Crocantes” com Caramelo de Cachaça e Sorvete de Gengibre (R$28).

O gostoso de se hospedar no Centro Histórico de Paraty é sair para uma caminhada após o jantar, observar os turistas ou apreciar lojinhas e galerias até as altas horas da noite. Grande parte do comércio fica aberto até as 11h30 aos finais de semana.

LIVRARIA DAS MARÉS

Na mesma calçada da Pousada, a charmosa Livraria das Marés é praticamente uma extensão da Pousada Literária. Além do fantástico acervo, a cafeteria da livraria oferece criações do chef belga Frédéric de Maeyer, conhecido por sua pâtisserie impecável.

EXPERIÊNCIAS

Para os amantes da natureza, a Pousada Literária oferece roteiros de identificação de aves na Fazenda Bananal, único observatório de aves particular do Brasil e que busca produzir conhecimento para a preservação das espécies por lá estudadas. Ao fim da atividade, um merecido descanso com um incrível piquenique em meio à Mata Atlântica.

Para outra experiência gastronômica imperdível, grupos e hóspedes podem reservar um almoço gourmet à beira-mar a bordo da escuna Maria Panela, que fica ancorada no Saco do Mamanguá, o único fiorde brasileiro. O chef belga Bertrand Materne se encarrega de preparar o delicioso menu, enquanto os convidados caminham pela praia, nadam, fazem snorkeling ou stand up paddle pela preservada região de manguezais.

Outros serviços de passeio, informações sobre museus e igrejas, visitas a alambiques e indicações de restaurantes podem ser sugeridos pela equipe do hotel que está sempre à disposição.

FAZENDA BANANAL

Estrada da Pedra Branca – Paraty Tel.: (24) 3371-0039 Horário de visitas: diariamente, das 9h às 18h.

Depois de um longo trabalho de reparo e restauração, a Antiga Fazenda Muricana foi rebatizada com o nome original – “Fazenda Bananal”. Ela fica a apenas 7 km da Pousada Literária e lá se pode apreciar o meio ambiente, participar de atividades educacionais em sustentabilidade e terminar o passeio almoçando num restaurante que oferece o que há de mais fresco no conceito “farm-to-table”.

Com histórias de culturas indígenas, escravidão, desbravamentos e caminhos do ouro, a Fazenda Bananal, antes da atual restauração, foi produtora de aguardente e ponto turístico.

Distribuída em 180 hectares de bioma de Mata Atlântica, entre o Parque Nacional da Serra da Bocaina, a estação ecológica dos Tamoios e a APA de Cairuçu, a fazenda passou anos sem atividade produtiva, até que, adquirida pelo casal Jane Assis e Roberto Pinheiro em 2014, iniciou-se o restauro histórico e replantio das áreas de mata atlântica. No total, cerca de 21 mil árvores foram replantadas. O casarão onde funcionava a sede foi restaurado a partir de referências em pesquisas documentais e entrevistas e sob a supervisão do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional), o que permitiu que a edificação mantivesse as características originais de uma fazenda do período colonial. No casarão foi instalado um museu que conta a história do Brasil Colônia, das roupas da época e da produção da fazenda.

Na fazenda, também está localizada a trilha indígena dos Guaianás, anterior à chegada dos portugueses, que ligava Paraty ao Vale do Paraíba e foi reutilizada pelos colonos como o “Caminho do Ouro”.

Na visita, Laís e Pedro – funcionários da Fazenda – apresentaram em detalhes todas as informações sobre o SAF – Sistema Agroflorestal (floresta de produção de alimentos em harmonia com a floresta nativa) e um tour completo pela propriedade. O objetivo principal da “Fazenda Bananal” é desenvolver o “Turismo de Conhecimento” sobre agropecuária sustentável. No tour foi possível provar frutas da mata atlântica que foram replantadas, como cambucá, grumixama e biribá.

OBSERVATÓRIO DE AVES

Desde 2015, a Fazenda está listada mundialmente como o único Observatório Privado de Aves no país, onde é feita a identificação, o anilhamento e o monitoramento das espécies, com estudos de pesquisa de longo prazo. Com o replantio de Mata Atlântica que vem sendo feito na fazenda, as aves voltam gradativamente para seu habitat natural.

VALORES:

Visita (acesso ao Casarão Histórico, Restaurante, Jardim de Beija-Flores e Exposição de ilustrações botânicas ao ar livre: R$20,00 Inteira / R$10,00 com meia-entrada; – Atividade Educacional: R$50,00 por pessoa (crianças ou adultos); – Passarinhar: Previamente agendado,

com valor sob consulta por número de pessoas; – Trilha guiada: Previamente agendado, com valor sob consulta por número de pessoas.

RESTAURANTE

Com o cardápio sazonal de acordo com a colheita dos ingredientes, o restaurante da fazenda surpreende por sua visão 360o em vidro para a fazenda. Nas mesas, hortaliças fazem a decoração e a cozinha aberta nos convida a acompanhar o preparo dos pratos. A maioria dos ingredientes é produzida ali mesmo, inclusive os queijos. Fiz uma viagem completa pelo cardápio e foi difícil selecionar um favorito. Todos os pratos são executados a perfeição, digno de restaurantes de grandes centros. Destaque para a Sopa de Pupunha com Taioba (R$31), Omelete Verde (R$48), o Leitão desmanchando com Ragú de Lentilhas (R$60) e a Seleção de Sorvetes do Pomar com frutas da colheita do dia (R$20).

OUTRAS VISITAS

RESTAURANTE BANANA DA TERRA

R. Dr. Samuel Costa, 220 – Centro Histórico Telefone: (24) 3371-1725

Localizado no centro histórico, o restaurante da chef paratiense Ana Bueno “traduz” em suas criações a verdadeira paixão que a chef tem pela cozinha caiçara de excelência. Destaque para o “Gratinado de Aipim com Peixe, Camarão, Leite de Coco, Abacaxi e Gengibre” (R$94) e “Filé de Peixe em crosta de lemon-pepper e Risoto de Palmito” (R$96).

QUIOSQUE SÃO FRANCISCO

Quiosque São Francisco

Praia Grande, km 565,5 – Praia Grande Telefone: (24) 99848-2145

Com pé na areia na Praia Grande, a cerca de 10 km de Paraty, o Quiosque oferece capricho nos pratos e as mesas ficam sombreadas por uma frondosa amendoeira. Destaque para a carta de vinhos com ótimo custo-benefício em relação a cidade e a deliciosa casquinha de siri (R$22).

CAFÉ PINGADO

Rua Dr. Samuel Costa, esquina com a Rua da Matriz

Charmoso café no Centro Histórico que oferece deliciosos quitutes típicos de Paraty acompanhados sempre das melhores marcas de café do Brasil. Não deixe de provar o café coado com caldo-de-cana.

VISITAR ALAMBIQUES

Há sete alambiques principais na cidade, vale a pena visitar ao menos um! O mais artesanal de Paraty é o Maria Izabel, que produz a cachaça de mesmo nome em barris de carvalho e jequitibá. Já o Engenho D’Ouro produz aguardentes que fazem sucesso mundo afora.

Texto – Reggie Oliveira é turismólogo, consultor e concierge de luxo gastronômico. Especializou-se em Nova Iorque (1997-2003) e foi lá que colocou os pés na gastronomia. Adora fotografia e não pensa duas vezes antes de embarcar em uma viagem. Trabalhou como concierge corporativo para consulados, organizações e em grandes empresas sempre nos núcleos de turismo, eventos e gastronomia. 

Fotos – Reggie Oliveira e Divulgação.

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