Viticultura e Tecnologia

Viticultura e Tecnologia: André Logaldi qurer “mostrar como a tecnologia moderna tem se esforçado não em modificar os caráteres físicos de uma dada área geográfica, mas de utilizar os conhecimentos adquiridos para que o homem repense suas escolhas”.

Será que seríamos ingênuos em acreditar que só as boas intenções reinam na viticultura? Claro que não, mas o que busco corrigir é a “solução fácil” (e burra) de jogar práticas de campo e ciências, umas contra as outras, de forma simplista, fundamentalista e maniqueísta.

De acordo com a literatura, ao menos desde 1997, a enóloga americana Kay Bogart, do departamento de Viticultura e Enologia da UC Davis, renomado centro de pesquisa, propôs o que ela chamou de “Vineyard Enology” (Enologia de Vinhedo ou de campo). Pode parecer óbvio demais a princípio, mas há uma sutileza extrema aqui: normalmente, vemos uma preocupação genuína e intensa sobre os modos de gestão das videiras e, por consequência, com a qualidade das uvas colhidas, mas, aproximar essas duas ciências transformando-as em uma única, é um enfoque muito moderno.

Por quê? Essa “nova ciência” teria a finalidade de fazer com que cada vez mais os enólogos visualizassem o perfil futuro de seus vinhos com exatidão extrema. O que, de cara, já permite intuirmos que os vinhos vindos de uvas “pensadas desde a brotação”, cuidadas com práticas agrícolas adequadas, exigirão menos intervenções dentro das vinícolas. Essas intervenções sim, frequentemente temidas e desqualificadas por enófilos experientes, que julgam que os vinhos excessivamente manipulados não são honestos e fiéis ao terroir.

Como ela sentenciou: “A proposta é apostar no trabalho de vinhedo, mas não como um viticultor e, sim, focando não só no crescimento dos bagos, mas tendo a certeza de que eles irão conter todos os ingredientes necessários para se fazer o vinho pretendido”.

Isso é uma tendência absolutamente natural e inexorável da lógica do pensamento humano. Há mais de 30 anos, o produtor francês Paul Coulon vem coletando dados, ano após ano, para tentar correlacionar a qualidade das suas uvas com projeção de uma nota hipotética (na escala de 100 pontos, como a de Robert Parker). O resultado? Ele consegue, antes mesmo de os vinhos estarem prontos, predizer as notas que obterão das mídias (Parker, Wine Spectator, Decanter e outros) com uma precisão de 86%. Ele não apenas colhe as uvas, ele as “constrói” para que tenham o perfil mais próximo possível do necessário para obter o vinho que ele deseja.

Analisei rapidamente todas as notas de todos os vinhos. Não é difícil perceber que ele só não possui um maior poder de acuidade porque as notas mais discrepantes (altas demais) foram dadas por James Molesworth, da Wine Spectator. Tal como ocorria com assessores de Robert Parker, que eram generosíssimos em suas notas (lembram de Jay Miller?).

Detalhe para irritar os puristas desinformados: ele é biodinâmico, certificado (única garantia real de idoneidade) e não se importa de trabalhar com a melhor tecnologia que pode alcançar.

Outro exemplo de evolução tecnológica a serviço da viticultura, sem tentar modificar as paisagens naturais, são os estudos de “zonagem”. Esse termo se presta a qualificar todo estudo que busca encontrar a melhor correlação possível entre áreas de cultivo e a escolha do melhor tipo de cultura a ser instalada nesse local.

Estudam-se os solos, subsolos, macro e mesoclimas (os caráteres mais evidentes de um clima regional) e, enfim, de maneira robustamente tecnológica se desvendam microclimas, que envolvem a área do entorno de cada planta, com dados ultra específicos, tais como a medição de quantidade de luz captada, de água captada pela planta e as perdas por transpiração, evaporação entre outros. O nível de precisão é fantástico e espantoso para nós, leigos: por exemplo, é possível medir a quantidade de luz absorvida por cada folha, do cálculo de “densidade de fluxo de fótons”. Há aparelhos sofisticados para medir o balanço hídrico e de radiação solar captada para cada planta.

A zonagem serve para que a escolha das uvas plantadas possa estar em consonância com o terreno selecionado, garantindo que todas as suas características físicas permitam a colheita de uvas de qualidade máxima, em conjunção com os sistemas de gestão das plantas (seleção de modelos de arquitetura da vinha, de porta enxertos etc.).

Grande parte do conhecimento adquirido visando esses objetivos podem ser inseridos dentro do espectro de uma ciência que se chama, de modo autoexplicativo, de agrometeorologia.

A qualidade final da uva depende, entre outras coisas, de um fator de grandeza imensurável: a data ótima da colheita. Antes de chegar às vinícolas, esse é o ponto último e mais crucial das uvas.

O exemplo que pretendo dar aqui é o da aeropalinologia, que vem a ser o estudo dos fluxos de pólens. Também emergente hoje, mas realizada ao longo de quase quatro décadas, o estudo do pólen pode ser considerado como método de base da previsão de datas de colheitas na Europa.

Com estações de captação espalhadas por vários pontos da França, essa tecnologia, de baixo custo, visa à captura do pólen no ar durante todo o período de floração das videiras e se presta, sobretudo, à previsão de colheitas de qualidade. Os anos que geraram melhores safras tinham um fluxo de pólen, medido em grãos por metro cúbico de ar, muito superior àqueles que deram safras apenas medianas ou ruins. Ao se estudar o histórico das dinâmicas de polinização, comparando com dados atuais, os cientistas aprendem muito mais sobre o importante fenômeno que é a floração, que pode determinar de modo importante a qualidade das uvas e também se obtém informações sobre os efeitos de mudanças climáticas, tão atuais.

Outros estudos diversos usando a palinologia incluem a geologia, em que o pólen funciona como um fator de elucidação dos tipos de vegetação presentes num dado terroir em eras geológicas muito antigas.

Concluindo: com todo o exposto acima, eu pretendi mostrar como a tecnologia moderna tem se esforçado não em modificar os caráteres físicos de uma dada área geográfica, mas de utilizar os conhecimentos adquiridos para que o homem repense suas escolhas, usufruindo o melhor que a terra pode lhe dar.

A ideia é: não é a terra que deve se adaptar aos homens, mas estes à sabedoria telúrica. Santé!

Autor: André Logaldi, médico, membro da diretoria de degustação da ABS-SP, redator e revisor de textos sobre vinhos.

Receba mais conteúdo por e-mail

Veja mais sobre

Posts relacionados