Weingut Emrich-Schönleber

Em Monzingen, na bela e pouco conhecida região alemã do Nahe, uma vinícola de grande reputação na produção de Rieslings de alta qualidade

Me lembro dos tempos em que chegaram ao Brasil aqueles vinhos alemães de qualidade duvidosa, os famosos Liebfraumilch, que subitamente inundaram os supermercados com suas famosas garrafas azuis. Eu os bebia e, naquela época, cheguei a gostar do sabor adocicado deles. São vinhos até hoje produzidos em massa e foram muito vendidos no Brasil (até hoje o são), por conta de uma brilhante propaganda. Infelizmente, isso acabou por denegrir a fama dos vinhos alemães. Mas, por outro lado, de certa forma introduziu no país o vinho branco.

Procurando conhecer melhor os bons vinhos da Alemanha, fiz uma viagem por várias regiões vinícolas daquele belo país, que é o décimo maior produtor mundial de vinhos, mas grande parte de sua fabricação é destinada ao consumo interno. A maior parte de seus vinhedos se concentra ao longo dos vales do rio Reno e seus afluentes, no sudoeste do país. O clima dessas regiões é úmido e frio ao norte e mais quente e ensolarado ao sul, causando grandes dificuldades para o amadurecimento das uvas.

No país, predominam os vinhos brancos e eles são feitos principalmente com a uva Riesling, mas também há tintos, como os elaborados com a uva Pinot Noir, lá chamada de Spätburgunder.

Além de seus Rieslings de altíssima qualidade, a Alemanha é um dos poucos países que produz icewines, vinhos produzidos com uvas colhidas tardiamente, quando o inverno já chegou e já ocorreram nevascas. As frutas são colhidas congeladas nas parreiras, frequentemente cobertas pelo gelo, para serem utilizadas na produção desses maravilhosos vinhos doces e de ótima acidez.

A classificação alemã dos vinhos é bastante complicada e leva em conta tanto a qualidade como o grau de doçura. Além disto, os rótulos são de difícil compreensão por dois motivos: o complexo idioma e a grande quantidade de informações que constam neles.

Com o objetivo de destacar os melhores produtores de vinho da Alemanha, foi criado o grupo VDP (Prädikatsweingut) cujos participantes são identificados com o símbolo de uma águia no gargalo de suas garrafas.

Comecei minhas visitas na Alemanha pela premiada vinícola Weingut Emrich-Schönleber, localizada em Monzingen, um pouco distante do rio Reno, nas proximidades de seu afluente, o Nahe. Os vinhos daquela região têm singularidade e personalidade, devido aos microclimas locais e as formações geológicas distintas em cada margem do rio. A vinícola cultiva vinhedos em áreas com acentuada inclinação, o que inevitavelmente demanda um trabalho físico bastante pesado.

As vinhas crescem ali em solos rochosos de terreno difícil. Suas raízes precisam se aprofundar para encontrar nutrientes e trazê-los para as uvas, gerando estresse para a planta. O resultado são vinhos de aroma intenso, com muita fruta, marcante mineralidade e frescor. A vinícola possui dois excelentes terroirs: Halenberg e Frühlingsplätzchen, ambos muito ensolarados, com grande declividade, solos pobres e bem drenados. Nesses locais, as uvas são menores do que o normal e, talvez por isso, mais aromáticas.

A produção de vinhos nessa região é feita pela família há 250 anos.  A área abrange hoje 19 hectares, dos quais 85% são da uva Riesling. Sua filosofia é fazer a mínima intervenção possível no vinhedo, bem como na produção. Outra meta da vinícola é fazer com que cada vinho tenha seu caráter individual.

Nesse dia, cheguei mais cedo do que o horário marcado para a visita e dei uma volta pela propriedade, que fica dentro da cidadela de Monzingen. Vi um senhor apanhando maçãs no jardim. Descobri mais tarde que era Werner, o proprietário da vinícola. Ele gentilmente apanhou uma fruta e me ofereceu. Em seguida, fui recebido na sala de degustação pelo filho do proprietário, Frank, o enólogo responsável, um pouco desconfiado em relação às minhas intenções com aquela visita. Depois de várias vezes explicar que meu objetivo era conhecer melhor os vinhos alemães, ele pareceu mais tranquilo. Também lhe falei que queria pesquisar as diferenças dos Rieslings de diferentes terroirs e comparar os vinhos alemães com os alsacianos.

Frank iniciou a degustação apresentando vinhos que me surpreendiam a cada prova. Foi muito interessante ver que, da mesma cepa Riesling, resultavam vinhos tão distintos. Pude perceber a grande diferença entre os vinhos de terroirs próximos. Degustei oito vinhos, até a hora do excelente Halenberg Riesling Trocken 2008. Um vinho branco que, com  10 anos, ainda apresentava grande frescor e ótima evolução. Seus aromas eram marcantes, assim como a persistência e a mineralidade no paladar.

A vinícola possui uma vasta gama de vinhos, que vai do Troken (mais seco) ao Beerenauslese, um branco doce e “botrytizado”, ou seja, as uvas utilizadas em sua produção foram atacadas pelo fundo da Botrytis cinerea. Este último, infelizmente, um vinho caríssimo.

Essa foi a primeira vinícola alemã que visitei e que revelou a excelente qualidade de seus vinhos. Uma grata experiência que serviu para apagar a imagem dos vinhos fracos de garrafa azul, dando espaço para os excelentes vinhos alemães que eu, felizmente, começava a conhecer de perto!

Alberto Andalo

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